poesia

três poemas de

Carlos Braga

 



O viajante
Ao meu pai

Um homem de terno branco
e de óculos Ray Ban
acha graça no meu verso,
sempre do mesmo tamanho.

Ele também já não cresce,
e não trocamos palavra
– não ouve a minha pergunta
nem pode me pressentir.

Bem mais moço do que eu,
se agita dentro de mim
cinqüenta anos depois,
quando vê que anoiteceu.

Com as mãos que ora lhe empresto
inda reparte, vaidoso,
ondas de um negro cabelo
e pode ser que me acene

com meus olhos, com meus dedos,
que respire no meu peito.
No mesmo bar demolido,
em noites tão diferentes,

bebemos igual cerveja,
brilha em nós igual sorriso
(e nada sei do que digo,
nada sei do meu amigo).




Janela

Quatro pássaros passando:
grafites grasnando
na chuva de abril.




Sísifo

As coisas incompletas
simpatizam comigo
e me chamam, insistentes,
para perto de si.


 

 

Carlos (Eduardo Galvão) Braga nasceu em Natal, em 1954. É doutor em literatura francesa pela Sorbonne, Paris IV, e professor do Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.


 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
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