poesia

três poemas de

Affonso Romano de Sant'anna

 




PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA


Parem de jogar cadáveres na minha porta.

Tenho que sair
   - respirar.
Estou seguindo para os jardins de Allambra
a ouvir o que diz a água daquelas fontes
e acompanhar o desenho  imperturbável dos zeliges.

Não me venham com jornais sangrentos sob os braços.
Parem de roubar meu gado, de invadir meu teto
e de semear pregos  por onde passo.

Estou em Essauíra, na costa do Marrocos
olhando o mar. Ou em Minas
contemplando as montanhas ao redor de Diamantina.

Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
Parem de atirar em minha sombra
e abocanhar meu texto.
Estou tornando a Delfos
naquela manhã de neblinas
ouvindo o que me diz o oráculo em surdina.

Ainda agora embarquei para o Palácio Topkapi 
frente ao Bósforo,
quando tentaram me esfaquear na esquina.
Jamais permitirei que quebrem as porcelanas
e roubem a gigantesca esmeralda na real vitrina.

Não me chamem para a reunião de condomínio.
Estou nos  campos da Toscana
onde a gigante mão de Deus penteia os montes
e minha alma se sente pequenina.

 
Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir  esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
-na Cidade Proibida na China.


 Não adianta o clamor de burocráticos compromissos
nem vossa ira.  Tenho oito anos
saí para  nadar naquele açude atrás dos morros
e vou pescar a minha única e  inesquecível traíra.

 
 
Parem de jogar cadáveres na minha porta
na minha mesa
              na minha cama
dificultando
                 que alcance o corpo da mulher que amo.


Afastem de mim  
   o meu 
   o vosso cálice.
Impossível ficar no tempo que me coube
o tempo todo
preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de
       como um Sísifo moderno
    desesperado
 julgar
          -que o tinha que carregar.




3 X NIETSZCHE


            1

Deus
não precisa da autorização de Nietszche
para existir
nem de fanáticos que declaram guerra
aos infiéis.

Deus
-ou que nome se lhe dê-
não necessita de preces, lágrimas, promessas.

Deus sequer lê poemas.
Na melhor das hipóteses
                    -os escreve
mas não assina
nem os divulga.

Na verdade, não necessita sequer
de nossa leitura.
 

Ele está em todas as partes
e acha vã nossa procura.
E quando lê livros de filosofia, ri,
soberano
        -de nossa loucura


       

          2


Quando Deus tomou conhecimento
das teorias de Nietzsche sobre a “ morte de Deus”
estava, como sempre, ocupado
em fazer e refazer galáxias
pelo elementar   prazer divino
de recriar-se eternamente.

Desconsolado, então,
Nietzsche se matou.

Pesaroso,
Deus
foi  ao seu enterro
como não podia deixar de ser.




            3


Ele vai ao Grande Mercado Nietzsche
adquirir artefatos para seu discurso.

Há ferramentas para multiuso
abrem e fecham qualquer porta
e conceito.

Na entrada
deve-se pegar um cestinho
para colher o que se pode das prateleiras.

Se não se acha o que se procura
basta ir um quarteirão mais adiante
em duas lojas tudo se encontrará
-uma se chama Foucault
            - a outra Derrida.




PREPARANDO A CREMAÇÃO

  
      1


Levanto-me. Vou ao cartório
autorizar minha cremação. Autorizar
que transformem
minhas vísceras, sonhos e sangue
em ficção.

O que pode haver
de mais radical?
Assinar este papel
tão simples
                     tão fatal.
Autorizar a solução final
de todos os poemas.
.

        2

Faz um belo dia. Do terraço
vejo o mar:
pescadores cercam um cardume
banhista seguem
se expondo à vida, ao sol.
Olho a trepadeira de jasmim
os vasos de begônia e gerânios
margaridas brancas e a azaléia:
-a vida continua viva dentro
 e ao redor de mim.


Poetas antes e depois de Homero
tentaram cantar a morte.
(Nos consolaram).
Hamlet (cioso)
dialogou com uma caveira
de antemão.
Olho cada parte de meu corpo
que vai se desintegrar:
mexo os dedos, vejo as veias
e no espelho esse olhar
que nada mais verá.

Irei à praia daqui a pouco
mas antes passarei pelo cartório.


        3

Há muito venho me preparando
me despedindo do sorriso da mulher, das filhas
da rua onde diariamente passo
me despregando dos livros
vizinhos e paisagens.
 
Não sou só eu. Minha mulher
antes de mim no mesmo cartório foi
e ainda mostrou-me o documento.

Olho-a neste terraço: lá está ela,  viva!
ligada nas plantas e planos. Olho-a:
acabou de fazer um vestido novo.
Como imaginá-la no jamais?

Ao lado, o barulho de um túnel que estão cavando:
-é  a nova estação do metrô.
 Há um alarido de crianças na escola vizinha
e eu saio
            numa esplêndida manhã de sol
para cuidar de minhas cinzas.

Tenho muito que dialogar com a morte
e a vida ainda.


 

Affonso Romano de Sant'anna nasceu em Belo Horizonte, 1937. Poeta, ensaísta e cronista, autor, dentre diversos outros, de "Poesia sobre Poesia" (1975), "A Grande Fala do Índio Guarani" (1978), e "Que País é Este?" (1980). Site oficial.


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
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