poesia

GAIA POESIA

Maria Estela Guedes

 




O bosque

Vem vindo devagar o rolo negro
o odor acre em volutas que o nariz persegue
salpicos de cinza depositam-se no terraço
entram fagulhas pelo quarto dentro
e uma nuvem chamuscada de borboletas.

A colcha branca da cama
manchada com um crime alheio
afinal nosso
é de todos o crime
com mata em chamas ou rios pútridos
todos somos criminosos
erguem-se gritos sob a ameaça
o fogo tão próximo das casas
uivam cães   
os lobos já não existem
e as lagartixas correndo loucamente
em busca de um buraco no chão
ocupado já por escaravelhos
uma cobra aflita
e outros animais que tentam a salvação
e voltam para trás
mas acabam
predador e presa
por partilhar a mesma lura subterrânea
enquanto no mundo dos homens
lavrar mais escândalo ainda do que flamas.

A mãe Gaia agarra-nos agora pelos pés
sem raivas sem espírito de vingança
não é sequer um julgamento
apenas o resultado da nossa arrogância.
Piores somos que bestas
animais sem raciocínio nem piedade
merecíamos tribunal e essa imagem de Salomão
a espada na mão direita
a ameaçar a criança suspensa
da mão esquerda.
Mas não temos aqui nenhum tribunal
nem juízes cruéis
justos ou santos.
Gaia é um super-organismo
Terra-Mater
ignora sentimentos de vingança.
O eterno riso na boca
dá-nos
sem cobrar o troco do mal que lhe infligimos
lume para nos queimarmos.
Sem árvores não há oxigénio
resta-nos morrer asfixiados.


In «Arboreto», em publicação na Arte-Livros, de São Paulo



A figueira

Há tantas Ficus tantas
Asvattha ou F. religiosa é só um entre mil exemplos
como as da borracha...
Mas agora quero é figos
e para figos basta a bíblica figueira
que devia ser a Ficus carica
ou não...
Dobra-se tocando a finados
retorcida como cordas
de navio a vencer
as misteriosas tempestades
do inverno.

A Gravelina costumava sentar-se
debaixo da figueira
com uma broa de milho
e ia comendo figos com pão.
Assim procedia ano após ano
e a figueira até já a conhecia
e chegava-lhe à mão
os figos mais pingados de mel
na ponta dos ramos.

Um dia a Gravelina caiu
e bateu com a cabeça
nos degraus de pedra
da escada.

Não resistiu
passados dias
a Gravelina morreu.

Nesse ano a figueira não deu figos
mirraram-lhe os ramos
as folhas amareleceram
secou da raiz à copa
com saudades da dona
e também ela
a figueira da Gravelina
morreu.

E há outras figueiras ainda
de interditos figos
mais que os trinta dinheiros
fáceis da traição
o punhal enterrado nas costas
nem de Cristo nem de Judas
antes pelo contrário.

É sempre o mais próximo
o que sem direitos julga
o que sem poderes condena
o que sem piedade executa
o que mais fundo corta
o tronco da árvore
é esse o que nos arranca da terra-mátria
pela raiz
sem as vertigens da compaixão.

Pois nesse ano a figueira não deu figos.
Com saudades da Gravelina
também ela
a Ficus carica que lhe dava os figos
para comer com pão
morreu.

In «Arboreto», em publicação na Arte-Livros, de São Paulo



A cerejeira


São pessoas com raízes
tão fundamente enterradas
no coração
que sangram por espinhos
finos acúleos
e deixam regos de cicatrizes.

As árvores são antepassados
de braços erguidos sobre a cabeça
com cabelos encarapinhados.

Caem de maduros frutos doces
da cabeça dos homens
pensamentos luxuriantes
entre os quais repicam sinos.

Somos a cerejeira
de vermelhas bagas como brincos
nas folhas de pequenas orelhas
ouriculares
no cadinho das letras
audíveis estrelas
brilham com seus dentes de ouro
na cúpula sombriamente noturna
a escorrer tinta azul dos dedos.


Em baixo correm riachos
subterrâneos
até ao caranguejo de lava
do centro incandescente da terra
que tudo alumia e alimenta.

Cintilam ideias, fulguram mentes
agitam-se as folhas tagarelas
dos choupos tremedores
mas nós somos a interdita cerejeira
de punhais trespassada
à porta dos pais fechada
os velhos sentados na pedra antiga
dos provérbios contados
ao sol, diante da velha choupana
enquanto galinhas debicam grãos de sol
na crepitação da palha
despedem centelhas os folículos
das espigas e rente ao chão
nos agostos insondáveis
as manchas prateadas da colcha acetinada
das gramíneas.
Por cima de tudo isto, as árvores.
Essas pessoas de chapéu na cabeça para proteger
os pensamentos
e de mão encostada ao lado esquerdo do peito
a serenar o coração.

Meu coração não te partas
como travessa de barro
pesada de  arroz de mágoas
os olhos no luto do forno
carbonizados sem dizer adeus
nesta despedida imóvel
à porta da casa de deus
fechada entre olivas cinéreas
ao trémulo clarão da cerejeira.

Lá longe, o negro túmulo abeira-se
de um arbusto de recordações
bagas num perigo vermelho
que nem pintam nem são passas
antes colar de pérolas de veneno.

Chegam pássaros de bico dourado
para o repasto das árvores
e caem mortos, caem mortos
com tanta fruta no chão
que ninguém aproveita
mas deixar os pássaros comer,
isso é que não!

Gaia, a superterra, a deusa-mater
feita de estruturas e relações
não sabe sentir vergonha
nem ódio contra esta gente
que ainda não saiu da fase evolutiva de macaco.
Por isso não se vinga
apenas nos dá o troco dos nossos atos:
mosquitos com fartura, baratas tremendas
as casas invadidas pelos ratos
e fruta sem gosto, envenenada
as alfaces radioactivas
que nos fazem cair os cabelos
e os dentes das gengivas.
Quando era tão fácil deixar comer as aves
numa terra em que há cerejas para todos.

Zumbem abelhas à volta do tronco alto
e carcomido dos anos
porque as árvores envelhecem
como os amos
e merecem como eles morrer disso.

Idosa cerejeira, tocada um pouco de
Alzheimer, ampara-te
ao meu braço amigo.

Eis porém que chega o carniceiro
com seu cutelo
de fio fino
à garganta da mãe apontado.
O tronco dobra-se para dentro
os ramos apertam-se em torno da dor
salta uma espadana de sangue
cerejas vermelhas cerejas de sangue
salpicam de sangue cereja o áspero térreo chão.

Outra machadada
no tronco da única árvore
de porte no terreno
anciã do pomar
os cabelos de líquenes brancos
já anunciando morte a seu tempo
sem precisão de eutanásia.
A velha grita que não fez nada
a velha agarra-se ao sofrimento próprio e alheio
e geme que não foi ela
não foi ela quem interditou aos pássaros
as mais altas cerejas da idosa
cerejeira
é só um grito único a varrê-la das raízes
à cúpula dos pensamentos
rubis amargos
verdes ramas
rubis amargos
sangue em gotícolas que se espalha
e a seiva de sangue é um regato
que se derrama
do coração aos pés da velha árvora
decana nesse campo onde outrora
com nobreza
a nobreza que nunca mais se viu em casa
nem casinhas nem casota
com nobreza de sangue
à sombra da elevada cerejeira
erguia-se uma graciosa choupana.

Caem-lhe um a um os braços
num roçagar de folhagem e estampido breve
das projetadas cerejas
colares de coral vivente
em sumo solto abaladas
lágrimas de ferida pungente
o tronco aberto à facada
a ver-se-lhe tudo por dentro:
o coração partido,
as tripas enroladas, os rins decepados
que mal se seguram por um fio
e a seiva vermelho vivo
de cochinilha
que escorre
goma animal nos dentes.
A besta armada de cutelo e machado e punhal
abate abate
abate a velha cerejeira
só para mostrar ao mundo
que tem tomates.

Zumbem abelhas à volta dos toros
ensanguentados
e carcomidos dos anos
no chão sem sentidos empilhados
porque as árvores envelhecem
como os amos
e merecem como eles morrer disso.


In «Arboreto», em publicação na Arte-Livros, de São Paulo



Mãe Gaia

Sento-me na varanda
quando são de seda
as tardes de Verão.
A cadeira balouçante na brisa,
perdidos os olhos, a memória e os sentidos
no perfil azul-sombrio da Serra do Marão.

Contudo,
terra minha mais do que Maranus
e Britiande, em Lamego,
é Gaia, a biosfera,
lápis-lazúli de ânsia
em que vogam, gigantes,
as Victoria regia das estrelas.

E mais terra ainda do que essas
é a secura desta falta de sementes
amara duna
o nada florir a nascente
além da vinha e dos pomares
como reconhecida cultura.

Vai morrendo lentamente a esperança
e sei que somos nós o parasita
terra que à terra volveremos
sem o bombom de um novo ab initio.

Numa qualquer tarde sem ar limpo
nem límpida transfusão da luz
pela vidraça de fumo da atmosfera
mergulharemos no nada como o precipício
em que se aterra sob o seu próprio peso
o céu outrora anil-olímpico
agora da saudade o xaile verde.
Do pó ao pó – eis a Terra.

In «Risco da Terra», Apenas Livros, 2011



Figurinhas da Sé de Lamego

Uma passadeira vermelha merecia
A tão solene e séria Sé de Lamego
Mas meus paleo-avós eram peões decerto
E lavradores os antepassados mais recentes.
Mais nos excitamos com o porco a chiar na panela
Do que com as flamas do divino elevando-se da pedra.
à porta da Matriz, vagina aberta de fome,
Em arcos esculpidos pelos pedreiros livres
Restos de figurinhas desinquietam-nos
Em diversas transgressões sexuais.
Muitas os padres, Judas da moral que pregam,
As mandaram partir, por imorais.
Porém uma sobra, plena de encantamento:
Delicada cena de fellatio
A garantir a cópula entre o céu e a terra.
E isso, a nós, peões e camponeses, mas herdeiros
De Gil Vicente e até de Rabelais,
Isso excita-nos porque liga o espiritual ao indecente,
Anuncia missas do burro, esfuziantes carnavais,
Reserva no adro a vida, já que no altar-mor definha a fé.

In «Risco da Terra», Apenas Livros, 2011



O Túnel de luz branca
Ao José Augusto Mourão

Oiço-o, amigo,
Tão desolado a dizer
Dessa terra além-terra
Onde se entra por um túnel de luz branca
Avassaladoramente cintilante
«Já lá estive e não vi nada…»

Nesse túnel já muitos entrámos
Mas só quem sai pode dizer que ao fundo dele
Não há nada.
Em todo o caso, amigo, neste dia
De quase coma em que dormita
E espero só exista no seu pensamento
O rasto dulcificante das papoilas
Recordo o que me disse e é mais pungente
Que a passagem na fronteira da morte
Na sua viagem sem regresso.



 

 

Maria Estela Guedes (1947, Britiande - Portugal). Diretora do TriploV (www.triplov.com)
ALGUNS LIVROS. “Herberto Helder, Poeta Obscuro”, Lisboa, 1979;  “Mário de Sá Carneiro”, Lisboa, 1985; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”, Lisboa, 1987; “à Sombra de Orpheu”, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”, Lisboa, 1993; “Tríptico a solo”, São Paulo, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”, Lisboa, 2008; “Chão de papel”, Lisboa. 2009; “Geisers”, Bembibre, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos portugueses”, São Paulo, 2010; "Tango Sebastião", Lisboa, 2010. "Risco da Terra", Lisboa, 2011. TEATRO. Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira.


 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
dEsEnrEdoS está indexada em:

  Site Map