prosa

Pânico

Bruna Maria

 

 


 

Trago dentro do meu coração,  
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,  
Todos os lugares onde estive,  
Todos os portos a que cheguei,  
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,  
Ou de tombadilhos, sonhando,  
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.


(Trecho. Álvaro de Campos. In: Passagem das horas)




A caneca deve estar pela metade. Seu conteúdo, a uma hora dessas, frio. Sigo pela noite, parada, esperando ver alguma coisa passar.
A janela está entreaberta. Pela brecha entra uma brisa fria, úmida, misturada com sereno. Pela brecha saem os meus olhos que se movem, flamejantes como depois que se chora às escondidas. Eles saem porque eu não posso sair e eu espero ver alguma coisa passar.

Qualquer coisa.


Quero ver alguma coisa passar e quero que seja num instante.
Que passe.

 
Que passe e que me deixe depois descansar com os fantasmas que recontam as minhas mesmas estórias, aquelas mesmas: de sempre.
Com os olhos já fugidos para o lado de fora, fazendo uma varredura pela rua, espicharia o braço automaticamente para o lado da caneca.
Quero beber. Não posso.


Preciso beber um bocadinho do chá, para curar o estômago e o gênio. Para curar – como é que se cura?

A pergunta reverbera sozinha no vazio da noite que está lá fora e na qual eu queria entrar. (Há noite aqui dentro; noite que joga os meus olhos para fora, lá na rua, de onde eu gostaria de nunca de sair.)
Quando volto para casa é quando volto; e se formam na penumbra aquelas imagens deformadas de pessoas humanas cujos nomes nunca sei. Eu as conheço. Dão-me a mão, temporariamente. Nos amamos: porque somos assim tão iguais; naquele momento dividimos os anseios e as conquistas e eu beberia o meu chá
, antes da crise.


Vejo tudo isso: 

como um lampejo pesado e fugaz,
como se alguém com uma capa e um chapéu magicamente passasse correndo de uma extremidade a outra da rua e se metesse pelo absurdo de uma viela qualquer, apenas para fugir; fugir.

Meus olhos não podem muito, eu mesma não posso muito: sequer levantar para aumentar o campo de visão, para ver e dar crédito a este espaço escrito; a imaginação e o sonho. Que vejo! Que vejo! Chego a me animar momentaneamente
 
– e então eu tenho alma,
fui preenchida –,

 
porque na fuga da silhueta macabra por entre becos eu penso ter sido convidada a fugir junto.

Mas fico sentada porque só posso ficar sentada: querendo tomar o chá para curar a minha vida, para curar o meu corpo, para limar o sofrimento.
Qual seja?
Ser.


Estou ainda sentadinha espiando pela brecha da janela e umas gotículas frias caem na minha cara momentaneamente.

O ambiente de fora... se eu pudesse!
O ambiente do lado de fora, meu deus, o mundo! Até que alguém aqui chegasse e, por recomendação, fechasse a minha janela.

- Que olhos, estes! Está preocupadinha minha filha?


(Move-me da cadeira e me deita sobre a cama.)

- Vim para dar o teu chá da noite.


***

Tudo o que vejo agora é o teto. O corpo parado não reconhece nada que não seja aquela imagem da rua que imaginei,
supus,

ver.


Alguém que escapou de capa e de chapéu; que a cada noite é uma possibilidade diferente e que eu mesma não tenho.

Com os olhos tampados com teto reflito por dentro: que estou triste. Muito triste. Mas em nada esboçando o que se passa comigo, ela me dá na boca o chá, porque é paga para isso.
Depois, vou ser virada para o lado e parecerá que durmo. Mas seguirei acordada, esperando, esperando. E na manhã seguinte ela voltará:

- Dormiu bem, filhinha?,


e me porá sentada diante da janela por muitas horas, por quase todo o dia. Até a noite.

Sonho: olhos abertos.
Sonho: vislumbrando no teto um relógio enorme, pesado, rodando lentamente o ponteiro das horas para me levar ao meu sonho.

Ela enfim me beija a testa, e sai.
Fecha a porta.


E é como se eu levantasse da cama sorrindo, brincando com a gravidade da situação. Pois de algum modo, sem mover, volto a me sentar à janela, que agora está fechada.

Espero ver alguma coisa.
Espero: sem ver nada.


___________________

Bruna Maria é mestranda em Literatura Portuguesa (UERJ). Acaba de escrever seu primeiro romance (selecionado, em 2010, pela Fundação Biblioteca Nacional para receber fomento durante o término de sua escritura). Bloga em: http://blog.brunamaria.com


 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
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