prosa

Polêmica?

Carlos Felipe Moisés

 

 


 


Começo pelo título. O substantivo designa o tema; o ponto de interrogação, o tratamento. É que nessa matéria, como em outras, tenho mais perguntas do que respostas, ou mais dúvidas do que certezas. Caso contrário, não perderia tempo escrevendo a respeito de “polêmica”, estaria travando uma, com alguém armado de munição à altura, ou seja, alguém forrado de muitas certezas e poucas dúvidas. Se levássemos adiante a refrega, eu e meu contendor nos empenharíamos em vincar as diferenças entre as nossas “certezas”, ainda que precisássemos exagerar um pouco. Se partíssemos logo no encalço das semelhanças (sempre existe alguma), seriam dois tirinhos de pólvora seca e não os devastadores morteiros que se espera de uma prolongada troca de desaforos.

Uma boa polêmica estimula a verve estilística dos combatentes, antes de requerer sua capacidade de analisar fatos ou de desfiar argumentos bem tramados. Das polêmicas de outrora, pelo menos, sempre sobrava um dito engenhoso, uma frase de efeito, como o célebre trocadilho – nos tempos da Confeitaria Colombo – com que alguém (esqueci-lhe o nome, mas garanto que não estou inventando) deu por encerrada a sua refrega com Guimarães Passos, anunciando que o parceiro de Bilac andou meio doente, mas agora tem tratado de ver se fica são. Mas é muito pouco, dirão os mais exigentes: por que tão longa polêmica para tão curto calembur?

Isto posto, vamos às perguntas cabíveis.  

Primeira: existe alguma condição básica para que uma polêmica seja deflagrada? Parece que sim. Os oponentes precisam exagerar, radicalizar, quaisquer que sejam as certezas ou verdades em disputa – as quais, aliás, não passam de pretexto para que os envolvidos marquem posição. Só assim será possível, a cada um, demonstrar que o outro é um asno total. Nunca se sabe se ambos o conseguem, mas é o de que ambos, igualmente, se vangloriam. Não conheço ninguém que, saído de uma polêmica, declarasse: pois é, perdi; meu adversário mostrou-se superior.

A condição básica, afinal, é óbvia: radicalizar, exagerar. Indivíduos ponderados e tolerantes não entram em polêmicas. Não porque fujam da briga, mas porque não veem razão para brigar. E porque, se entrarem numa, perderão ao mesmo tempo a tolerância, a ponderação e a razão. Fernando Pessoa tem palavras definitivas a respeito: “Numa disputa, sinto prazer em ser vencido, quando quem me vence é a Razão, não importa quem seja o seu procurador”. Se todos pensassem e agissem dessa forma, nunca teria havido uma só polêmica que prestasse.

Segunda pergunta: a polêmica é um gênero literário? Não necessariamente. Além das literárias, há belas polêmicas políticas, religiosas, gramaticais e outras. As melhores são as que envolvam tudo isso, numa bordoada só. O ideal do bom polemista é provar que seu desafeto é literária, política, religiosa e gramaticalmente incorreto. Mas a polêmica está mais para as artes cênicas do que para qualquer dessas áreas de conhecimento, já que, como sem dificuldade deduzimos, “conhecimento” é o que menos conta, no caso. Por que artes cênicas? Porque o polemista representa um papel, o do radical inflamado, máquina mortífera do pensamento a ser pulverizado – o alheio, claro está, mas o risco é o briguento acabar por aniquilar o seu próprio, caso tenha entrado com algum.

Para isso, o que conta, antes do conhecimento, é o temperamento, vale dizer a capacidade histriônica e a gesticulação furiosa. Jogo de cena, em suma. Além do quê, polêmica exige público, que prorrompa em vaias ou aplausos, tão mais estridentes e prolongados quanto mais elevada for a importância atribuída à discórdia. Ou aos discordantes. Você é capaz de imaginar uma polêmica sigilosa, discretamente travada entre A e B, sem plateia?

Terceira pergunta: o prestígio do polemista é que garante a qualidade da polê¬mica ou esta é que garante a qualidade daquele? Resposta: as duas coisas. Se Fulaninho brigar com Fulanico, nem a Sociedade Amigos de Bairro ligará a mínima. Eles travarão sua querela por algum tempo, até se darem conta de que o teatro está vazio. Aí farão como Macunaíma, que, ao abrir os olhos, e tendo percebido que os irmãos já não estavam por perto, imediatamente parou de chorar e foi cuidar da vida.

Mas, se Fulaninho chamar Fulanão para o pau e este aceitar, o prestígio do primeiro estará garantido: é mais um que sai do anonimato. Já o do segundo... Por isso, é pouco provável que Fulanão aceite. Briga boa, como se sabe, é briga de cachorro grande: Fulanão topará, de bom grado, uma boa sessão de pancadaria com Fulanaço. Daí provém, aliás, a verdade angular da polêmica tradicional: o tamanho de um ho¬mem se mede pelo tamanho dos inimigos que tenha ou faça. Ou invente. Caso clássico (ou romântico?) é o do jovem candidato a escritor José de Alencar, que chamou para a briga ninguém menos que o imperador d. Pedro II. Tiro perfeito. O imperador, generosa ou inadvertidamente, aceitou, a polêmica se alastrou por meses, em toda a imprensa, e colocou de imediato o nome de Alencar no cenáculo do império. Ao estrear, logo depois, com O Guarani, o escritor continuou a desfrutar de um prestígio solidamente assegurado. Mas, no fim da carreira, foi obrigado a provar do mesmo veneno, quando certo desconhecido Franklin Távora o desafiou e ele aceitou, ajudando a comprovar que os jovens realistas começavam a desbancar os velhos românticos.

No teatro da vida literária & arredores, a polêmica se presta admiravelmente a erguer prestígios, conduzindo ao palco, por alguns momentos iluminado, figuras que quase sempre logo em seguida retornam ao anonimato da plateia, que por sua vez pode ser encarada como outra espécie de palco. Qual o espectador, vivamente interessado em polêmicas, que não saberia exatamente como reagir, caso fosse confrontado com a provocação de A ou B? E por aí vai. Nesse sentido, a polêmica seria um ramo semidisfarçado da Grande Divisão Geral de Marketing & Propaganda S.A., que leva tanta gente a engolir sapo por lebre. (O provérbio não é bem esse, mas serve.)
Quarta e última pergunta: a polêmica é, então, um gênero atual? Sim e não. De um lado, sim, pelo menos na expectativa dos que aí veem uma boa forma de aparecer ou de quebrar a suposta rotina, ainda que por tempo muito breve. Esses não se cansam de repetir, como se dizia nas cortes de antigamente: la polémique est morte, vive la polémique! De outro lado, pode-se dizer que foi um gênero poderoso nos tempos em que o jornal impresso em papel tinha o monopólio da repercussão, o que equivale, entre nós, aos cem anos que vão da metade do século XIX à metade do XX, ou pouco mais. Fulanaço terçava armas com Fulanão e, durante meses, a imprensa do País estampava, pelo menos uma vez por semana, petardos de variado calibre, sob o olhar atento, galvanizado das doze ou treze pessoas interessadas na coisa.

Hoje, não. Hoje são bem mais do que doze ou treze: são duas ou três centenas. Mas experimente você atiçar um feroz mastim contra o mais furibundo rottweiler de plantão e prepare-se para o resultado decepcionante: só dois ou três, desses duzentos ou trezentos indivíduos, estarão atentos. As mordidas se diluirão rapidamente, sem deixar vestígio, nem uma pequena cicatriz, incapazes de competir com a massa descomunal de informações e estímulos que se despejam sobre todos nós, a todo instante, nesta era pós-rádio, pós-TV, pós-cibernética, pós-mídia eletrônica, pós-internet, pós-etc. O jornal no papel perdeu o monopólio da repercussão e nenhum outro meio, até hoje, foi capaz de lhe ocupar o lugar.

É que esse lugar já não existe. Hoje, tudo repercute, em toda parte, mais ou menos com a mesma intensidade, por alguns segundos. Ou seja, nada repercute. Polêmica, ao que parece, é coisa de um tempo em que uma boa porrada repercutia, repercutia, repercutia... Se até Mike Tyson precisou morder uma orelha, que dirá de uma formidável diatribe entre, digamos, a turma da metáfora e a gangue da metonímia?

De minha parte, cumpri com o prometido, atendo-me mais às perguntas do que às respostas, e espero que estas últimas não sejam lidas como roman-à-la-clef: não me preocupei com pessoas, vivas ou mortas, só com as ideias das próprias, as vivas e as mortas. Se alguém chegou até aqui e, digamos, concordou assim-assim com as perguntas mas não com as respostas, ou vice-versa, sugiro que não perca mais tempo ainda cogitando de uma eventual réplica. Eu serei o primeiro a concordar e a lhe dar razão, embora “razão” não seja mercadoria que as pessoas possam manter em estoque, para depois ir distribuindo por aí, a seu bel-prazer.


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Carlos Felipe Moisés é poeta (Noite nula, 2008), ficcionista (Histórias mutiladas, 2010), crítico literário (Poesia & utopia, 2007), tradutor (O poder do mito, 1990) e autor de livros infanto-juvenis (Conversa com Fernando Pessoa, 2007). É mestre e doutor em Letras Clássicas pela USP, tendo lecionado teoria literária e literaturas de língua portuguesa em várias universidades, como a PUC SP, a USP e a Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA.


 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
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