tradução

a voz surrealista de LUDWIG ZELLER

Breve diálogo & poemas


Tradução de Floriano Martins





Ludwig Zeller (Chile, 1927). Poeta e artista plástico. Em 1968 funda, no Chile, a Casa de la Luna, café cultural e revista. Dois anos depois organiza a mostra “Surrealismo no Chile”. No início dos anos 70 emigra para o Canadá, onde funda, ao lado de Susana Wald, a Oasis Publications, casa editorial que edita livros em três idiomas, além de promover inúmeras exposições plásticas. Em 1993 se muda para o México, ali criando a Oasis Oaxaca, em seguida criando também a revista Vaso Comunicante. Publicou mais de 50 livros de poesia e colagens, dentre eles: Mujer en sueño (1972), Salvar la poesía quemar las naves (1988), e Los engranajes del encantamiento (1996).


FM | Como referir-se ao surrealismo avaliando tua produção poética?

LZ | Para mim o surrealismo é uma concepção total da vida na qual me sinto absolutamente pleno.

FM | Existe algum conflito entre a maneira como te sentes surrealista hoje e sua inspiração inaugural?

LZ | Eu venho do romantismo, porém o surrealismo também vem do romantismo. Minhas primeiras obras me resultam mais ingênuas.

FM | Como se dá teu convívio com outros poetas surrealistas?

LZ | Eu me relaciono muito bem com outros surrealistas e sempre pude colaborar com eles.

FM | Quais as tuas eventuais restrições ao surrealismo?

LZ | Um problema, que na primeira etapa do surrealismo já o tinha Breton, é que o surrealismo não é um projeto político, é uma concepção de vida. Em alguns casos os surrealistas se politizaram em excesso.

FM | Sob quais aspectos é possível estimar uma atualidade do surrealismo neste princípio de século?

LZ | Sob a proposta de uma liberdade sem restrições.






A ABANDONADA AOS ESPELHOS

Por vinte anos busquei os polidos
cristais, os puros que vibraram
ao rumor das asas que acaricia o silêncio,
os lábios que se entreabriram à linguagem impossível
da Divina Imagem.

E ela se dobra murcha, pobre fibra de poeira
que cai sem piedade em adormecidos estames.
Pássaro-ontem, cobiçada serpente, abri,
cortai os fios que atravesso tremendo,
pupilas que florescem para impenetráveis signos.

Que máscara devo usar? Que fios sulcam a têmpora
do adormecido que grita? Corvo que se desprende até o abismo,
grasnido que ilumina as janelas do cárcere de sombras,
oh destroçada pele, o Labirinto! – Ali, tremendo, sozinha,
jaz a abandonada aos espelhos.

Decifrarei tua sede? O sonho será ouvido?
Não movas mais os fios com que choca na sombra,
buscai, buscai novamente na estância sedenta.

[Las marionetas, 1957]





IMAGENS AO SOL

Do centro misterioso da espira que move o horizonte,
debulham-se os seres como sementes, sumidos
no sonho, encerrados atrás da pele de suas marés.

O impulso nos move – planeta de harmonia –
onde flui e reflui o equilíbrio, latejar
de invisíveis relógios, imagens ao sol.
Descem os ganchos, sobem as espinhas,
o que separa os homens perdidos no próprio labirinto?
Delira o separado de sua fonte, enquanto o satisfeito
está impassível, lambido pela vida, encadeado
ao ser vertiginoso, ídolo celebrante em sua engrenagem.

Descemos à entranha do fôlego; a chama contra o mono,
a cobra contra o Fênix, bandos de aves que passaram rompendo-se
nas arestas da noite. Onde está a resposta? Onde
se o misterioso move um enxame de élitros ao fundo?

Agora e em miríades, sobre nossas cabeças
rompe-se o elo perdido, giram as pálpebras, o céu
sem a rede se abre aos fortes e o portador de paz,
liberado no tempo examina o limite:
na areia
a semente sagrada canta ao sol.

[Del mantantial, 1962]





UMA VIAGEM INEVITÁVEL

Os relógios golpearam os carvões a noite
fecha para enfiar seus fios para esconder-se nos buracos,
ofegando gole a gole sinto que se aproximam passos
enquanto cresce a córnea de pelos em sua mão.

Não há saída, não entendo, as águas nos arrastam
Partimos, com um gancho nos puxam desde o ventre,
Arranhamos, golpeando contra o muro nos cravam animais
Ventrílocos, escutemos a faixa já sem voz vai cantando.

Dão um número, o monstro apaga sua nudez, não temos
Cigarros, em meu bolso guardo apenas comissuras murchas,
Não há regresso, no fundo do copo os gritos se repetem.

[Las reglas del juego, 1968]





PAISAGEM PARA CEGOS

Já não me lembro quando me afastei dessas chagas.
Vou gritando às escuras, com a cabeça escarvo
No muro os anos multiplicam seu enxame,
Não sei se estou desperto se me dão leite ou vinagre.

Abro em unhas minhas gemas, porém elas se prolongam
Bem além onde latejam suas vozes crepitando,
Regressará com as chuvas comi a própria língua
Os globos dando volta ajustavam as contas.

Onde estamos às tontas buscamos um caminho
Sob o sol os tocos inscrições com ira,
De gelos acesos nos levamos nos metemos carvões
Nos olhos – docemente se lambem os olhares.

O que vês tu? Eu te vejo bocejar como peixe em outro ar.
O que vês tu? Apenas um ermo de espelhos e a faca.
O que vês tu? Minha raiz arrancada das plumas tuas entranhas.
O que vês tu? Eu não vejo. Eu apenas te pressinto.

[Las reglas del juego, 1968]





INSÔNIA COM ESCAMAS

Um peixe cruza meu sonho a cada noite
E abre um túnel de incenso nos travesseiros,
Sobre o vidro que é pele, que corta o ar
Cola depois suas pálpebras, escuta: as águas me rodeiam
De uma parede a outra sinto tremer suas folhas cristalinas.

Tudo está aqui? Responde-me! Onda de ventre
Escuro, signos que alguém desenha ali no fundo
Como estrias do mesmo espelho sempre.
Se viemos do peixe, do osso ardente
Empenhado em abrir-se em suas espinhas, se não há piedade
Se no tanque passam a rede dia após dia,
Onde estão os olhos que nos vêem, onde a raiz
Desse lamento, as brasas da insônia nas guelras
Que se inflam, se prolongam, buscam um metal frio?

Desse país que lentamente se ergue nas paredes
Secas do dia e as semanas saem a me receber as escamas,
Entre chagas me incorporo, indago por amigos
Que não existem, que são pó moído pela chuva,
Cada pedaço me pesa, cada porção da alma que recordo.

Estás ali?, indago. Estás ali? Invisíveis
Golpeiam as agulhas no sedento tear
Da imagem e os vidros se quebram, endurecem
Sobre a cicatriz da corrente. Vejo lágrimas
No rosto final, o peixe que retorna a cada noite em sangue
Que respira em meu travesseiro, que se queima em meu oxigênio
E desperta…
Por trás do vidro estou só,
Talvez em outro sonho, dando gritos.

[Cuando el animal de fondo sube la cabeza estalla, 1976]





DELÍRIO AUTOMÁTICO

Um desejo se acende e mil bocas se entreabrem
Em palavras, florescem as imagens essa locomotiva da noite
Que avança soa a vertigem se tu apertas o travesseiro
Onde ferve o sangue percebes que não existem os limites.

As lembranças são guardadas em caixinhas, afasta os ossos
Enroscando os gritos que sobem pelas costas aos borbotões
Essa raiz vulcânica que devora os homens
Por trás de teu coração abre um ramo de veias o relâmpago.

Sobre a geografia dos corpos pestaneja aquele olho
Vão as aves que portam a semente infinita, rompe em ti
Abre-te em dois em quatro cobre-nos a maré
Como a esses endemoninhados no baile buscando a meada.

Tudo em sentido inverso aquele ventre de lontra
Vibra ao pranto em enxames multiplica a torrente
As pedras do prazer vibram ao tique-taque da chuva
As víboras despertam no relógio. Por que te dói o pranto?

Esse violão fervente que delira é teu corpo
Febre de framboesa é a delícia de voltar a sonhar contigo
Estende nas areias aquelas coxas brancas do almíscar
O desejo te encurrala, quando gritas goteja o mel de teus mamilos.

[Piel de los delirios, 2008]






***
NOTA
Este material integra a edição em preparação do livro Um novo Continente – Surrealismo & Poesia na América, de Floriano Martins, gentilmente cedido pelo autor para a presente edição.



 

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí - julho agosto setembro de 2011]

 
 
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