entrevista

Regionalismo, Modernismo e Literaturas Locais:

uma conversa com Humberto Hermenegildo

 



Humberto Hermenegildo de Araújo, natural de Acari-RN, é professor de Literatura da UFRN, em Natal, onde reside desde o início dos anos de 1970. Também é pesquisador no Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-Rio-Grandenses. Publicou, entre outros, os estudos Modernismo: anos 20 no Rio Grande do Norte (Natal: EDUFRN, 1995) e Asas de Sófia: ensaios cascudianos (Natal: FIERN; SESI, 1998). Com Irenísia Torres de Oliveira organizou, em 2010, o volume Regionalismo, modernização e crítica social na literatura brasileira (São Paulo, Nankin Editorial). Mais informações em: http://sites.google.com/site/humbertohermenegildo/home



Wanderson Lima: Considerando a dimensão do país, os problemas de acesso às obras e a dificuldade de se mapear amplamente os autores que estão produzindo em várias latitudes do país, como você encara a denominação "literatura brasileira"? Existem fatores que unificam a literatura inscrita nos limites políticos desse país ou o rótulo “literatura brasileira” é mera convenção ou fator de manutenção da hegemonia cultural de determinados estados?

Humberto Hermenegildo: Encaro a questão nos limites do que Antonio Candido considera como “sistema literário”, o que implica discutir o rótulo a partir de um ponto de vista concreto: a formação desse sistema em um território historicamente constituído. A língua e a cultura unificam essa literatura, o que não significa um processo de homogeneização absoluta, uma vez que a variedade linguística e cultural age sobre o sistema. Mais forte do que a hegemonia cultural de determinados estados é a possibilidade de estandardização da cultura que é promovida pela globalização e pode apagar essas diferenças. Em um país como o nosso, tudo é muito complexo. Por isso, se há estados – como São Paulo – que determinam rumos, por exemplo, do mercado editorial, há regiões – como o Nordeste – que conseguem, graças a uma forte tradição cultural, manter uma continuidade de elementos que reagem à estandardização da cultura. Nessas condições, “literatura brasileira” deixa de ser um rótulo e passa a ser fator de resistência. Infelizmente e contraditoriamente, os departamentos de Letras das universidades tentam gradativamente diminuir a carga horária da disciplina “Literatura Brasileira” nos cursos de graduação, ou diluir, nos concursos para professores, o conteúdo da disciplina em rótulos mais amplos como “Teoria da Literatura” ou “Literaturas de Língua Portuguesa”. Apesar desse movimento, há um interesse crescente, por parte de mestrandos e doutorandos, em projetos de estudo da literatura brasileira. Eu diria, então, que a grande luta da nossa área hoje é contra o inespecífico da cultura globalizante. Afirmar uma literatura brasileira composta de problemas germinados na complexidade das regiões culturais significa reagir a esse “inespecífico”.

 

Wanderson: O hercúleo trabalho de mapeamento da poesia brasileira do século XX levado a cabo pelo escritor piauiense Assis Brasil tomou por diretiva dividir as antologias por estado. Um dos argumentos do autor em defesa desse critério é que, segundo ele, “a nossa literatura [a literatura brasileira] é feita em ‘guetos’ culturais estanques”. Gostaria que você comentasse a frase de Assis Brasil bem como a importância das antologias organizadas por ele.

Humberto: É muito interessante a tentativa de se fazer o mapeamento nos locais onde se produz e onde circula uma literatura que tem dificuldade de aparecer nacionalmente. O resultado de uma antologia desse tipo deve ser avaliado a partir dos critérios de inclusão e exclusão dos textos poéticos selecionados, além de outros fatores como a existência de outras antologias já publicadas e reconhecidas em cada estado. Interessa também, mais do que o mero registro de textos seguidos de dados biográficos dos poetas, o trabalho crítico de quem organizou. à parte essa avaliação, um dos méritos das antologias é servir como referência para quem se interessa pela pesquisa das produções locais, cuja inclusão nas histórias da literatura nacional é sempre problemática. Essas antologias dão visibilidade a quem, ausente do cânone, colaborou de alguma forma para o estabelecimento desse mesmo cânone. No entanto, não é apenas a publicação de uma antologia o fator de superação ou enfrentamento dos possíveis guetos culturais estanques. Um país de fortes desigualdades não poderia ter um perfil cultural diferente do nosso. Se fosse mais homogênea a nossa política educacional, assim como a nossa economia, as nossas condições básicas de cidadania, etc., seriam mais heterogêneas as nossas possibilidades de produção cultural e, assim, os chamados guetos culturais estanques não teriam condições de sobrevivência, implodidos que seriam pela diversidade.

 

Wanderson: As literaturas locais devem ser estudadas como movimentos autônomos ou o crítico deve se esforçar para integrá-las umas às outras, de modo a oferecer um quadro amplo do que seria a “literatura brasileira”?

Humberto: O esforço da integração é salutar. No entanto, o quadro não deve partir de uma “soma” e sim do reconhecimento da complexidade de fatores que fazem dessa literatura um sistema. Faz-se necessário, antes de tudo, considerar o conhecimento acumulado sobre a literatura brasileira e sobre as produções locais. Um bom ponto de partida é a verificação do modo como essas produções se articularam historicamente ao processo formativo e como se deu essa articulação na fase de consolidação do sistema literário, como os movimentos locais responderam aos movimentos mais amplos, nacionais ou mesmo regionais. Não é possível desconsiderar pelo menos dois grandes momentos do nosso sistema literário: o romantismo e o modernismo, pelas suas abrangências e poder de mobilização de grupos ou de valores individuais. A lição de Antonio Candido, sobre os momentos decisivos e fundamentais da nossa literatura, pode ser um eixo para questionamentos dessa complexidade. Da mesma forma, a contribuição do crítico uruguaio Angel Rama pode iluminar o estudo de formações regionais, como a gaúcha na fronteira de várias literaturas nacionais.

 

Wanderson: A tentativa de construir o campo discursivo das literaturas locais sempre me pareceu um empreendimento ambíguo, trazendo benefícios para a vida intelectual do estado, e também nacional, mas também gerando equívocos. Reportando-me especificamente à “literatura piauiense”, e concentrando-me nos equívocos, constato que a construção desse campo – que começa a ser melhor visibilizado a partir de Literatura piauiense: escorço histórico, de 1937, escrito por João Pinheiro – produziu em muitos autores um bairrismo ferrenho que, perscrutado a fundo, releva um profundo ressentimento pelo não reconhecimento foras de suas fronteiras. Essa conformação algo amarga com a “glória” local não teria maior ressonância e não influiria tanto no sistema literário local não fosse por uma conseqüência: ela quase sempre leva a uma valorização excessiva dos autores locais e à conseqüente recusa, às vezes explicitada publicamente, de se ler autores de outras plagas. O sistema literário tende a tornar-se, então, um sistema autofágico e a crítica literária, a fim de fortalecê-lo, começa a produzir as mais esdrúxulas e desproporcionais comparações. É aí que surgem o “Goethe do Sertão”, o fulano que é maior que Drummond etc. Gostaria de saber se você concorda a respeito desse caráter ambíguo que marca a emergência das literaturas locais, reportando seus exemplos à “literatura potiguar”.

Humberto: É salutar o princípio de que o estudo das literaturas locais pode ser uma forma legítima de estudo da literatura brasileira. O bairrismo e o provincianismo são manifestações de uma desigualdade cultural, não há como evitar esses fenômenos, mas é possível tentar a superação dos seus entraves. Posso dar um exemplo reportando-me à leitura que faço do movimento modernista no Rio Grande do Norte. Nesse caso, ganha destaque a figura do poeta Jorge Fernandes, que publicou um único e valioso livro em 1927 (o Livro de poemas de Jorge Fernandes). Para compreender o aparecimento desse poeta, comecei a analisar o modo como o modernismo chegou ao Rio Grande do Norte ainda nos anos de 1920, passando pelo levantamento do noticiário na imprensa local, identificando o surgimento de certos periódicos de orientação modernista, até verificar a importância da figura de Câmara Cascudo na divulgação do movimento. O resultado foi muito interessante e avalio que esse estudo contribui para a compreensão do fenômeno “modernismo” como um todo no Brasil. Tinha consciência de que Jorge Fernandes já era uma espécie de unanimidade local, mas também sabia do seu valor, sabia que a sua poesia tinha o aval de leitores críticos como Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Sei que a minha leitura contribuiu, de algum modo, para fortalecer a imagem já existente do poeta como inovador, pioneiro, vanguardista, aspecto que é bastante forte na cultura do Rio Grande do Norte (pioneiro da aviação comercial, do voto feminino, etc). Esse reforço era inevitável, mas era um risco necessário. E sei também que o meu estudo enfrenta a resistência de quem faz a desconstrução do modernismo. O estudo do texto poético demonstrou, contudo, que a maioria absoluta dos poemas de Jorge Fernandes é construída com base no registro do elemento regional. Essa é uma indicação do “texto”, não do autor da tese que tinha como objetivo estudar as repercussões do modernismo no Rio Grande do Norte. E assim deve caminhar a pesquisa, pelo menos na área dos estudos literários. Para confirmar essa indicação do texto literário, foi preciso considerar o texto e a perspectiva do seu autor, assim como os “regionalismos” vigentes naquele momento, ou seja, reconhecer que não existia apenas “um” Nordeste, açucareiro, que se reinventava como forma de enfrentamento do processo modernizador do país na primeira metade do século XX. Exemplifico com a leitura do texto de Jorge Fernandes para chamar a atenção sobre a importância de dois aspectos a serem levados em conta para a história da literatura: a leitura do texto poético como princípio norteador de qualquer julgamento crítico (no caso da poesia do nosso poeta) e a análise do papel de determinadas personagens na vida literária de uma época (no caso da participação de Câmara Cascudo na vida cultural dos anos de 1920). Tudo o mais fica por conta das invenções provincianas, não há como evitar essas questões que se diluem gradativamente com o passar do tempo... Quanto à recepção dessa minha leitura, ela só terá sentido se gerar novas pesquisas – tudo o mais se diluirá com o tempo, ou seja, mito e verdade irão de mãos dadas para o rio da tradição e ela ficará à disposição do sistema, caso a barbárie permita...

 

Wanderson: É possível estabelecer pontos de contatos entre o projeto regionalista de Franklin Távora no século XIX e o de Gilberto Freyre no século XX?

Humberto: Sim. Os dois autores estavam aparentemente na contracorrente de dois grandes movimentos nacionalistas (o romantismo e o modernismo), hegemônicos, com tendências à homogeneização. Situados em dois momentos fundamentais do sistema literário, cada um deles respondeu de forma diferente ao mesmo problema. Ambos reagiram a essas tendências, o que permitiu a verificação de aspectos mais localistas da cultura brasileira que se manifestava ou se mantinha como tradição naqueles momentos distintos, em um mesmo espaço geográfico. Ambos responderam a questões políticas das suas épocas, entendendo-se aquelas questões como motivadoras das suas demonstrações de empenho nas lutas sociais. Segundo Antonio Candido, Franklin Távora promoveu um desvio no projeto romântico: “(...) levando-o a dissociar o que era uno e fazer de características regionais princípio de independência, traía de certo modo a grande tarefa romântica de definir uma literatura nacional” (Formação da literatura brasileira, 1975, p. 299). Parecem também contraditórias as reivindicações de Gilberto Freyre quanto à primazia de uma cultura regional em torno de Pernambuco, no momento em que se dava um amplo debate em torno da identidade nacional promovida pelo Modernismo e com eixo na brasilidade. Os dois projetos podem significar reações a uma ordem unificadora dominante, vitoriosa e irreversível, contrária à existência dos programas localistas. Ambos os programas tinham por base um passado de glória que era reivindicado para justificar a verdade idealizada: para Távora, um Norte mais brasileiro do que o resto do país, correspondendo praticamente à nação que poderia ter surgido da Confederação do Equador; para Gilberto Freyre, um Nordeste à imagem do mundo açucareiro pernambucano.

 

Wanderson: Há uma tendência, dentro da crítica literária brasileira, de usar o termo “regionalista” como qualificativo negativo, impingido à obra que o recebe o atestado de má obra, obra de pouco valor estético. Essa mesma crítica se esforça para, digamos, “purificar” as obras de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa de seus elementos regionais. O que você pensa a esse respeito?

Humberto: O valor negativo que se dá ou deu ao termo regionalismo provém de circunstâncias históricas e de fatores externos à própria literatura. Assim, o regionalismo se manifesta em vários momentos da história do sistema literário nacional agregando ao seu conceito noções como “localismo”, “pitoresco” e “bairrismo”. Trata-se de uma tendência gerada no gosto pela expressão local e pelo sentimento do exótico. Daí, o qualificativo negativo. Em geral, a tendência regionalista abrange a ficção vinculada à descrição das regiões e dos costumes rurais e se relaciona às condições de desigualdade social de um país periférico. Mas essa regra geral carece de verificação caso a caso, pois do contrário o valor da obra de Coelho Neto, por exemplo, seria o mesmo da obra de Rachel de Queiroz... Um critério interessante para a crítica é a verificação de como a dimensão regional de determinadas obras adquire valor de elemento construtivo literário, de como essa dimensão permite igualmente a incorporação de valores universais de humanidade na obra artística. Por isso, sempre é necessário partir da análise do próprio texto literário, porque é lá onde as tensões se revelam, é na forma artística que os elementos se encontram e negam muitas respostas já sabidas de antemão.

 

Wanderson: Qual a sua posição acerca da tese do professor Durval Muniz de Albuquerque a respeito da “invenção do Nordeste”?

Humberto: Trata-se de um trabalho cuja referência ultrapassou os limites do campo da História e vem ganhando reconhecimento também no campo dos estudos literários, sobretudo no que diz respeito à leitura do chamado romance de 30. Como toda tese, há sempre uma generalização e por isso surge a necessidade de se verificar caso a caso a sua aplicabilidade. As condições de produção e de recepção de autores como Luís Gonzaga e Graciliano Ramos, por exemplo, determinam que, em termos comparativos, as suas produções literárias devem ser analisadas caso a caso, porque eles não ocupam o mesmo lugar dentro do sistema literário e as suas obras, inclusive em gêneros diferentes, tiveram desdobramentos diferentes, que nem dependem diretamente da vontade desses autores nem dos estudiosos de fenômenos mais amplos do que o literário. Concretamente, o estudioso da literatura deve ter consciência de que a “Invenção do Nordeste”, a sua teoria, permite uma boa análise dos textos programáticos relacionados ao regionalismo. Mas as obras literárias propriamente ditas, como realização inventiva, essas solicitam a análise prévia da forma artística antes de qualquer confronto com as teorias. Trata-se, portanto, de uma tese cuja aplicabilidade ao campo dos estudos literários ainda está em andamento.

 

Wanderson: Em um escrito seu a respeito de Câmara Cascudo – autor ao qual suas pesquisas têm dado especial relevo –, você afirma que “o procedimento formal encontrado pelo autor de Literatura Oral no Brasil (1952) aponta para a conciliação da aparente dicotomia entre o regional e o universal”. Poderia detalhar os termos dessa “conciliação” entre as tradições regionais e universais lograda nos escritos cascudianos?

Humberto: Antes de tudo, quero ressaltar, lembrar, que o verbo “apontar” indica uma tendência, uma possibilidade. Isto significa também que essa conciliação não está de todo resolvida, mas o fato é relevante para a sua superação por outros estudiosos que retomarem a questão. Para transpor os dados da cultura oral para a forma escrita, Câmara Cascudo operou inicialmente de forma empírica, elaborando registros que só posteriormente seriam objeto de um conhecimento teórico. Esses registros advêm, via de regra, das tradições regionais, são elaborações da própria cultura e Câmara Cascudo teve uma extraordinária capacidade de coleta das peças mais significativas geradas pelo conhecimento popular na forma da oralidade. Quando valoriza esse conhecimento a ponto de temer a sua perda, chegando a se colocar como praticante e testemunha dele, sem mediações e reivindicando para o lugar desse conhecimento a matriz da essência nacional ameaçada pelo progresso, neste sentido, o Câmara Cascudo folclorista é regionalista. Mas não se percebe nele o bairrismo, nem localismo, nem o gosto exagerado pelo pitoresco e pelo exótico. A obra Literatura Oral no Brasil representa uma tentativa de conciliação entre as tradições regionais e universais porque nela o autor busca a superação do que é estritamente empírico e encontra uma formulação teórica para as suas especulações em torno da formação do elemento brasileiro. Através de uma sistematização dos dados coletados ao longo de anos, aparece a hipótese de que o Bumba-Meu-Boi é a peça brasileira que resultou de um processo que, diríamos hoje, tem características híbridas e inscreve o Brasil em um contexto universal. Há, então, uma cultura que explica um povo, e não apenas uma região. A sua dimensão é nacional e se corresponde com outros processos e outras civilizações. A partir dessa descoberta, Câmara Cascudo passa a investigar, de forma até obsessiva, os processos regionais na sua ligação com os dados da cultura considerada universal, sobretudo com os mitos do mundo ocidental. O seu critério é o da “permanência”, ou seja, o critério do estudo da tradição. Nessa equação, qualquer regionalismo só tem validade se estiver inserido em uma tradição, através da qual se concilia com o dado universal.

 

Wanderson: A republicação de grande parte da obra de Câmara Cascudo nos últimos anos afetou positivamente a recepção das idéias cascudianas no meio acadêmico?

Humberto: Eu diria que a releitura da sua obra e do seu papel na vida cultural afetou mais a sua recepção atual do que propriamente a publicação das novas edições. As teses geradas no âmbito da universidade brasileira têm esse mérito. O anseio pelo conhecimento do Brasil como um modo de resistência à globalização desenfreada tem esse mérito. O desejo de revisar um conhecimento acumulado, por mais equivocado que seja considerado esse conhecimento, em um contexto democrático, tem esse mérito. Tal movimento termina alimentando a demanda por novas edições de uma obra que é matriz de registros de peças fundamentais da nossa cultura, para regozijo do mercado editorial...

 

Wanderson: Você vem estudando a correspondência trocada entre Câmara Cascudo e Joaquim Inojosa. Que aspectos sua pesquisa, no ponto em que se encontra, já iluminou e pode ser revelado aqui?

Humberto: A análise da correspondência entre Joaquim Inojosa e Câmara Cascudo tem, até o presente momento, mais confirmado do que revelado novos aspectos relacionados às repercussões do movimento modernista no Nordeste, ao longo dos anos de 1920. A partir do ano de 1924, Câmara Cascudo iniciou intensa troca de cartas com Mário de Andrade e com o pernambucano Joaquim Inojosa. Evidencia-se, nesse conjunto de missivas, o caráter de divulgação do modernismo como um desafio posto aos dois intelectuais nordestinos no sentido de abrir a realidade regional para o diálogo franco com as perspectivas modernistas da época. As cartas analisadas chamam a atenção sobre a situação dos centros culturais do país (especialmente São Paulo e Recife), implicando aí a definição do papel dos produtores e a formação de públicos, bem como uma organicidade de linguagem e estilo que solicitam leituras sobre modos e tempos diferentes nas diversas regiões e estados, sob a influência e a pressão dos grandes centros nacionais. De Recife, onde os dois intelectuais missivistas se encontravam na Faculdade de Direito, Joaquim Inojosa lança a carta-manifesto A arte moderna, dirigida aos intelectuais paraibanos e “nortistas”. As cartas do ano de 1924, por exemplo, demonstram também uma vontade de interferência de Câmara Cascudo, que dá a Joaquim Inojosa a missão de “educar” os conterrâneos: “Resta explicar aos poetas de Recife o que vem ser arte moderna” (carta de 22 de agosto de 1924). Observa-se, nos textos das cartas, um grande desejo direcionado à superação da realidade provinciana da região, como se estivesse dado a esses intelectuais uma espécie de missão civilizatória destinada a atualizar a vida literária de então. Já em outro conjunto de cartas, trocadas nos anos de 1970, verifica-se o desejo de revisitação, pela memória, dos anos modernistas. Nesse segundo momento, Joaquim Inojosa publicou o livro O movimento modernista em Pernambuco, espécie de documentário do movimento e base de ataque às pretensões modernistas de Gilberto Freyre. Como se percebe, o conjunto das missivas pode ser considerado um conjunto de missivas “modernistas.


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Wanderson Lima é escritor e professor de literatura na Uespi. Mantém o blog O fazedor.


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2012] 
 
 
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