entrevista

As fronteiras de FREDRIC JAMESON

entrevista com Francisco Rüdiger

 

                                                                                                              Entrevista concedida a Caroline da Silva 


 


Caroline da Silva - No Fronteiras do Pensamento, de 2011, Jameson começou defendendo que a melhor designação da estrutura do presente é a pós-modernidade, e caracterizou esse tempo nas mais diversas áreas da vida cultural e social. A característica básica do pós-moderno seria a substituição do tempo pelo espaço. O tempo é abolido e a realidade política e estética do espaço ultrapassou a ênfase modernista sobre o tempo. Para o autor, o principal fenômeno espacial é a globalização. Pós-modernidade e globalização são a mesma coisa, a pós-modernidade é a face cultural da qual a globalização constitui a infraestrutura, a realidade econômica. Como pesquisador, tens a mesma observação do nosso tempo? A pós-modernidade ainda é um conceito em voga? Por que Jameson é pouco usado na economia? Com que áreas do conhecimento ele é mais identificado?

Francisco Rüdiger - Segundo Jameson, a pós-modernidade é uma espécie de superestrutura cultural do capitalismo avançado. No autor, o conceito tem um uso crítico, em vez de instrumental. Jameson é um pensador marxista que procura estar em dia com seu tempo, e não um pós-modernista. Para ele, a hegemonia que o capital financeiro foi adquirindo sobre os outros ramos do capital no último século se expressa, fora do âmbito econômico, no colapso da cultura burguesa tradicional e no aparecimento de um consumismo cultural, onde se fundem as formas de cultura erudita e cultura popular, de arte e vida. O pós-modernismo, para ele, é bem esta síntese entre as esferas do alto e do baixo, do folk e do cult,  que se vai constituindo, quando os mecanismos de intervenção estatal na economia retrocedem, a economia de volatiza em mercados financeiros globalizados e os fluxos do capital circulam mais ou menos livremente à escala mundial.

O principal em sua obra não é, porém, a teoria social, mas, antes, a crítica cultural, conforme dão conta seus importantes trabalhos sobre a produção literária, incluindo ficção científica, e cinematográfica, seja a de filmes de bilheteria, seja a de filmes alternativos.  A polêmica com os estudos culturais e a reflexão sobre os estudos literários também merecem destaque, não sendo o caso,  contudo, de se superestimar sua contribuição como teórico social. Quanto aos estudos mais filosóficos, sobre Adorno e Sartre, por exemplo, estes não costumam ser referidos na literatura especializada, embora seja claro o interesse do autor em se credenciar como comentarista da filosofia contemporânea.

Em síntese, afirmaríamos que se trata de uma obra ampla e importante, mas muito irregular, marcada por uma prosa truncada que, no caso, não se justifica pela dificuldade dos materiais em exame. Suas obras mais ambiciosas, por isso, talvez, não sejam as mais reveladoras, para quem deseja aproveitar suas reflexões. Em "O inconsciente político" (1981) ou em alguns ensaios de "As marcas do visível" (1990), "A estética geopolítica" (1992) e "Arqueologias do futuro" (2005), cremos, há análises muito mais profícuas do que as obscuramente  oferecidas em, por exemplo, "Pós-modernismo" (1991) ou "As sementes do tempo" (1994).

 

Caroline - A vanguarda artística foi substituída pelo curador, esta nova figura pós-moderna. Hoje existem objetos estranhos que ainda chamamos de arte. O dominante das artes visuais são as instalações, descendentes dos happenings da década de 60. Assim, a arte não é mais um objeto e sim um evento. Ela é para o agora, não para a posteridade.” Essa foi uma das afirmações de Fredric Jameson no Fronteiras do Pensamento. Portanto, ele não enxerga mais a ação da COMPRA no campo cultural, como ocorria no Modernismo, em que eram comercializadas as grandes pinturas. O crítico defende que o que se consome atualmente é a ideia de obra artística, não a experiência sensorial. Sendo assim, como fica a Economia da Cultura hoje? As “obras do momento” têm força para fazer o mercado girar?

Rüdiger - Afirmando que o que se compra agora no mercado da cultura é a ideia de obra, em vez das obras mesmas, Jameson não está querendo dizer que não mais se façam negócios com os bens culturais, mas, sim, que a dinâmica desses negócios se alterou. Para os eventos artísticos e culturais, que se multiplicam sem parar, não falta toda uma indústria e um novo empresariado, que movimenta cada vez mais dinheiro, seja captando recursos junto ao poder público e à iniciativa privada (em geral, atuando em sinergia), seja vendendo ingressos, explorando espaços publicitários, fazendo marketing e criando copyrights. A economia da cultura está em alta, porque, agora, os negócios são culturais - e não tanto porque a cultura é praticada como negócio, como fora na época de formação da indústria cultural, analisada por Adorno. Quando você navega pela net e acessa os sites, você cai em uma rede potencial de negócios, que já começa com a venda de suas clicadas aos anunciantes por parte dos que mantém os sites, e se estende pelo mundo das compras virtuais, assinaturas de serviços online (jogos em rede, pesquisa de empregos, sites de relacionamentos amorosos, etc.). Em relação à "arte", vale o mesmo: a instalação ou performance que se vai assistir é uma situação pela qual se paga, comprando ingresso, ou o poder público e/ou a iniciativa privada bancam, para se promoverem mercadologicamente (atendimento de nicho eleitoral, no caso dos governos).

 

Caroline - Jameson analisou os três estágios do capitalismo com um desenvolvimento cíclico: a implantação do capitalismo, o desenvolvimento e a saturação (com especulação financeira). Conforme o pensador, o mercado não mais está conectado com os produtos e com o modo como são comercializados, e sim na especulação financeira, na movimentação de divisas e na circulação de capital. “Tudo que nos cerca abraça a ideia de efemeridade, de que o mais importante não é o objeto, e sim o evento”, argumentou. “Nossa frágil ligação com o produto espelha, na economia, o mesmo simulacro da comunicação”. Para ele, assim, surge um novo tipo de economia pós-moderna. Concordas?

Rüdiger - O acúmulo do capital, vale lembrar, não é linear, nem um jogo onde só um protagonista social sai ganhando. O processo é a forma a que a humanidade foi levada a produzir riquezas e estas, com o acúmulo, acabam por se distribuir, ainda que desigualmente. Se é certo que, em muitas partes, aumenta a pobreza, em muitas outras, progride o bem-estar e a riqueza material da coletividade. Atingindo um certo limiar, porém, o processo só logra avançar explorando-se a criação de novas necessidades, estimulando o surgimento de novos desejos, cada vez mais abstratos, efêmeros e sofisticados. A especulação financeira, creio, é apenas uma face desse processo,  um movimento fascinante, em que a sociedade rica explora loucamente suas paixões mais contagiosas, exerce abstratamente um desejo de poder sobre um mundo essencialmente virtual, mas cujos efeitos determinam a miséria e o sofrimento de milhões e milhões entre os setores pobres ou excluídos deste joguinho podre, comandado pela nossa economia de mercado e as forças empresariais que ela mobiliza como sua própria condição de sobrevivência. Por outro lado, não deveríamos esquecer que isso tudo só se viabiliza graças ao surgimento de uma economia pós-industrial, baseada na expansão do setor de serviços e, bem especificamente, das tecnologias informacionais de comunicação que, se bem promanam do movimento do capital, a ele não se reduzem, contendo uma inventividade e um potencial de abalo das estruturas sociais que, no futuro, talvez sejam um dos fatores de criação de um novo mundo (pós-moderno? pós-histórico?).   


Caroline - Outra opinião do filósofo é a da cozinha como forma de arte. Ele citou as criações do restaurante El Bulli, do chef Ferran Adrià. “Na cozinha molecular, o que se consome não é o prato em si, mas a forma dele. Não são mais objetos realistas. Uma berinjela não é mais uma berinjela. Os pratos são fotografados, se consome a ideia com a imagem, a composição delas.” Não estaria aí uma bela entrada para a teoria da comunicação, associada à era das imagens, propagada por Baitello e outros?

Rüdiger - Baudrillard e Debord, para ficarmos não muito distantes em relação a nosso tempo, anunciaram, bem antes de Jameson, nosso ingresso em uma sociedade do espetáculo ou cultura do simulacro, em que as os signos e as imagens, as representações e vivências espirituais e estéticas, processadas tecnica e eletronicamente, tomam o lugar da práxis objetiva e da ação transformadora em relação a nossas circunstâncias. A volatização da experiência concreta, a perda de contato direto com as coisas, o esquecimento de si mesmo como sujeito político, moral e intelectual - tudo isso nada tem de novo, já tendo sido antevisto, há mais de um século,  por críticos culturais como Georg Simmel. Jameson em nada inova, salvo o exemplo dado, no tocante a este assunto, que ele, todavia, talvez colabore para classificar, empregando o rótulo de pós-modernismo.  Em vez de se pensar numa entrada para uma nova teoria da comunicação, seguir essa linha de raciocínio nos levaria antes a perguntar se o pensamento comunicacional que tanto fascina alguns intelectuais, em especial os intelectuais midiáticos, não é um efeito histórico e uma emanação intelectual de todo este processo, que se inicia com o colapso da era burguesa e se expande com o capitalismo de massas.


Caroline - Ao final, o palestrante também esclareceu que suas constatações sobre a pós-modernidade tentam descrever uma realidade e não fazer uma avaliação ou julgamento. Assim, já lhe tacharam de entusiasta e também como crítico desse tempo. A Escola de Frankfurt também é chamada como Teoria Crítica da Comunicação. Jameson bebeu muito nessa fonte. Alguns acadêmicos chegam a afirmar que ele rompeu com o ortodoxismo da Escola. Qual seria a tua definição: crítico ou entusiasta?

Rüdiger - Segundo penso, Jameson pertence a esta geração de pensadores que se conscientizou da orfandade em que se encontra a crítica na atual hora histórica e que, sem dúvida, iniciou com alguns dos primeiros frankfurtianos, ainda à época da II Guerra Mundial. O fracasso da experiência socialista e a hegemonia conquistada pelo capitalismo entre as massas, viram eles, privaram a teoria crítica de seus sujeitos históricos. A revolução social e política é uma tese que saiu da agenda dos movimentos civis, na maior parte do mundo. A transformação da sociedade se processa de modo cada vez mais sistêmico e tecnológico. A contestação é localizada e se manifesta de forma anárquica, virtualmente regressiva. O capital se consolidou como forma de relação social dominante, e as alternativas existentes olham para trás, como sinalizam os fundamentalismos religiosos. Os próprios intelectuais dignos do nome são agora poucos, substituídos que são por fabricantes de modismos conceituais, mercadores de esqueminhas intelectuais  e promoters de ideias pretensamente aplicáveis às empresas, aos negócios, ao terceiro setor e, às vezes, até no serviço público. A reflexão crítica sobrevive constrangida em meio a um oba-oba que tem de repetir quem deseja sobreviver  de acordo com os parâmetros dominantes, e um dos porta-vozes desta forma de reflexão, necessariamente histórica e capaz de autorreflexão contextual, sem dúvida é Fredric Jameson. 

  



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Francisco Rüdiger é Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1995) e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1987). Professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), também leciona no Departamento de Filosofia e nos Cursos de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (nesse caso, desde 1990). Em 2000, recebeu o prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação (Intercom).  Dedica-se academicamente à história das ideias e à reflexão crítica nos campos da indústria cultural, da teoria social e dos estudos sobre pensamento tecnológico e cibercultura, incluindo-se aí trabalhos sobre cultura de massas, filosofia da técnica, teoria da comunicação, etc. Dentre suas principais obras, pode-se mencionar "As Teorias da cibercultura" (2011), "Cibercultura e pós-humanismo" (2008), "Martin Heidegger e a questão da técnica" (2006), "Theodor Adorno e a crítica à indústria cultural" (1998/2003) e "Literatura de auto-ajuda e individualismo" (1996).


Caroline da Silva é jornalista pela UFRGS (2006) e mestre em Ciências da Comunicação, com ênfase em Mídias audiovisuais, pela Unisinos (2009). Profissionalmente, atua como repórter no Jornal da Universidade e como editora-assistente de Cultura no Jornal do Comércio, em Porto Alegre.




[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2012] 
 
 
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