entrevista

“Minha vivência acaba se transformando na poesia que construo”

entrevista com Thiago E

 


Durante o mês de outubro, entrevistei o poeta e músico Thiago E, que assim costuma apresentar-se: “músico em reabilitação labiríntica – professor com problemas de visão – ator driblador autodidata da própria gagueira – maravilhíssimo o pôr-do-sol na av. joão xxiii – integrante da banda validuaté, com a qual lançou 2 discos: pelos pátios partidos em festa |2007| e alegria girar |2009| – maiores informações no site www.myspace.com/validuate – com o grupo academia onírica, gravou o cd veículo q.s.p. |2010| – não se sabe se a pressa é um acúmulo de menos ou uma soma que abrevia a vida – as árvores da av. santos dummont são lindas – autor do livro cabeça de sol em cima do trem, ainda inédito – seu comportamento não presta para o capitalismo – poeta e vai ver viver é vrum! incompreendigo:” A seguir, segue a conversa...



Adriano Lobão Aragão - Como surgiu seu envolvimento com a poesia?

Thiago E. - Eu não sei responder direito a essa pergunta. Só tenho hipóteses. Porque, durante minha infância e adolescência, no convívio com as pessoas, nada apontava pra poesia, não havia um ambiente de leitores. Em casa, se ouvia basicamente Amado Batista e Roberto Carlos. No meio dos anos 90, gostei da moda dos pagodes e aprendi a tocar pandeiro e cavaquinho. Daí, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Agepê, Exaltasamba, Grupo Raça, Kiloucura, Só Pra Contrariar, Fundo de Quintal, Raça Negra e Molejo se tornaram meus ídolos e tocava tudo aquilo – inclusive swingueira e chorinhos do Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Pixinguinha. Nunca tive preconceito musical – onde tinha um músico bom, eu absorvia. Mas paralelamente a isso, no meu ensino fundamental, meu professor de português, Alzimar Alvarenga, obrigava a gente a ler paradidáticos semanalmente. Na época, claro, eu ficava furioso de ódio em ser obrigado a ler 90 páginas numa semana - mas isso foi o que me fez gostar de ler! Até que, no ensino médio, me impressionei com o Álvares de Azevedo e, sobretudo, com o Augusto dos Anjos. Outro professor, Cláudio Vasconcelos, me deu o livro Eu impresso e vi que a poesia era boa! Nessa época, também aprendi a tocar violão e migrei um pouco do samba pra dita ‘mpb’. Eu andava com um caderno no qual escrevia as poesias que mais gostava. Aí, Gregório de Matos, José Paulo Paes, Augusto dos Anjos, Adriana Calcanhotto, Decio Pignatari, muitos outros, e até Padre Antonio Vieira estava nas minhas anotações. A primeira vez que fui numa lan house, acho que em 2003, 2004, eu fui pra ver poemas. Soube que o Arnaldo Antunes tinha um site, levei meu caderno e copiei muitos poemas em verso e desenhava os poemas visuais. Também comecei a escrever meus primeiros poemas ruins. Meu professor A. Jota mentia pra mim e dizia que estava bom [risos]. Isso foi maravilhoso porque me motivou a escrever [risos]. E outro professor importante foi o Laércio Damaceno – que me ensinou a importância das bibliotecas. Fui percebendo que aquela linguagem poderia ser investigada e aprendida. Em 2004, iniciei o curso de Letras na UFPI. Eu nem pensava em ser professor – fiz o vestibular pra letras só pra ter o pretexto de estudar literatura. Depois é que eu vi que professor ganha uma miséria e fiquei triste [gargalhadas]. Na universidade, conheci o Demetrios Galvão, que fazia os varais de poesia e me aproximei dele. Demetrios freqüentava a Roda de Poesia e Tambores, no Clube dos Diários, organizada pelo prof. Elio Ferreira, e me chamou pra participar. Mas eu não tinha poemas pra falar. Aí, de tarde, antes de ir pro evento, escrevi um poema com escrita automática, pegando o mote de um personagem poético do Demetrios – o peixe amarelo. Lá, quando abriu a rodada de poesia falada, falei a carta ao peixe amarelo. Várias pessoas acharam engraçado esse texto e acabei ganhando o primeiro lugar na categoria poesia falada. A partir daí me senti cada vez mais à vontade pra experimentar, errar, ler, escrever e sentir prazer com a linguagem da poesia.

 

Adriano - Em que outros aspectos Poesia e Vivência se encontram?

Thiago E. - Minha vivência acaba se transformando na poesia que construo, naturalmente. Como eu acredito que seja com quase todo poeta. Digo quase todo porque cada um tem seu modo de produção. Mas esse limite entre poesia e vivência não pode ser definido. Não dá pra ser definido. É excessivamente brumoso. Uma vez li uma frase do poeta-filósofo Wittgenstein que nunca esquecerei: os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem. E ele ainda diz que quando se tem algo em mente, se tem a si mesmo em mente. Então você pode tomar a linguagem poética como sua vida e explodir essa fronteira que separaria as duas. Você investiga, por exemplo, uma orelha e começa a escrever: é uma casa na cabeça – encerada e sem madeira não tem porta para entrar: recebe a ressonância e esse som reside lá. clareia o ir do cego – seu sentido mais aberto. e mostra-lhe a cara do barulho ali por perto [...]. Nesse momento você escreve uma nova realidade, sua nova realidade, e, conseqüentemente, vive esse novo também. O poeta Roberto Piva diz que só acredita em poeta experimental que tenha vida experimental. Eu acho essa afirmação perigosa. Depende do que se entenda por vida e por experimental. O que é experimental? Poderia ser usar uma droga para tentar escrever diferenciadamente? Aprender uma nova língua? Se masturbar com a mão esquerda? Educar uma criança? Poderia ser traduzir textos tidos como intraduzíveis? Experimental varia de acordo com seu referencial e tudo pode ser diferente. Enfim, dou essa volta filosófica pra lembrar que, de vez em quando, é bom prestarmos atenção em alguns conceitos e preconceitos por aqui. Recentemente comecei a escrever sobre alguns problemas que tenho: problema de visão, transtorno de equilíbrio, gagueira, etc. Se eu não passasse por essas dificuldades e revelações e aprendizados, talvez esses temas não fossem abordados por mim. E agora isso começou a virar substância de poemas também.

 

Adriano - E em relação à música, a experiência é semelhante?

Thiago E. - Sim, na música se dá da mesma forma. O que ouço vejo leio escuto persigo estudo sinto vai ficando por dentro e numa composição, o que for cabível naquele som, acaba vindo à tona e fará parte daquilo. Lembro da música Plaina Maravalha. Desde criança, eu assistia ao canal 2 – TVE e TV Cultura | ainda hoje assisto |. Aliás esse canal foi importantíssimo na minha educação. Um dia, via Arte com Sérgio Britto. Na abertura antiga, apareciam epígrafes de grandes autores. Era tão rápido que você só podia escolher uma pra ler. Aí a primeira que li foi uma do Tchekhov: um cão faminto só tem fé na carne. Gostei da frase, repeti na cabeça, ri e deixei pra lá. Tempos depois, na biblioteca central da UFPI, peguei um livro da editora companhia das letras que falava sobre desejo, paixão. Folheei o livro e observei uma fotografia de uma mulher sentada, com as mãos no queixo, meio cínica e os ossos de um homem aos pés dela – o esqueleto inteiro. E uma legenda embaixo: Theda Bara – a devoradora de homens dos anos 20. Achei massa a imagem e tudo bem. E eu já ouvia o Jorge Mautner. Ele citava Rainer Maria Rilke e dizia todo anjo é terrível. Meses depois, nós da Validuaté fomos tocar em Oeiras. Na van, entre papos nada a ver, o Quaresma estava me falando sobre um amigo dele carpinteiro que especificou quais eram os conceitos de plaina e maravalha – plaina é o instrumento usado pra tirar lascas da madeira e assim afinar uma porta ou uma janela. E maravalha é aquela lasquinha de madeira enrolada que resta. Guardei que eram duas metáforas interessantes pra sexo (tirar pedaços de um pau, grosar, etc) e, poucas semanas depois, compus Plaina Maravalha – e Quaresma me deu alguns toques pra melhorar a melodia: Plaina Maravalha é devoradora de homens / um anjo, um azougue / e todo anjo é terrível / não vê vantagem em receber flores / pois flores mortas não deliram [...] mas depois que acordou Dante não viu ninguém e foi ler coisas do Tchekhov / Plaina Maravalha quando come alguém não quer saber de nada só saliva de tarada / Dante lembrou de toda conversa eles não tinham nada a ver e viu na página em que lia: / um cão faminto só tem fé na carne e lembrou daquela moça que só lambe morde e arde / Plaina Maravalha / só tem fé na carne / é pior que Theda Bara / Plaina Maravalha / por mais corpos que consuma / nunca finda sua tara [...]. Esse é um exemplo de como a gente vai vivendo e, num momento propício, tudo vem num caudal. Posso contar outro caso: em 2004, na UFPI, eu assistia a aulas de história, arte e cultura com o prof. Edwar Castelo Branco e a gente leu uns artigos sobre pós-modernidade. Eu achei curioso aquele conceito que as identidades estão fragmentadas, os individualismos e os hedonismos exacerbados, um niilismo e os grupos não fazem mais sentido – pois o interesse na coletividade era quase nenhum... enfim. Tratei aquilo com humor e fiz um samba-jingle-sátira em clichê harmônico – só com 4 acordes – chamado Superbonder: um hino para a pós-modernidade. Meio que vendendo a cola superbonder [risos] como uma solução para essa fragmentação toda: lá vem da esquina da quitanda ou do mercado / colorido caos pós-moderno de uma civilização / e a gente grita super super superbonder! / e no mundo não há mais separação [...] que cola tudo: o chão rachado do sertão, os cinco dedos da mãos, as bolhinhas da água em ebulição / esse negócio de desconstrução nunca foi uma boa não / superbonder é um mutirão pela epopéia do unitário / pra que tudo vire um! [...] para o parafuso solto – superbonder! / pra desunião mundial – superbonder! / para os cacos de amor – superbonder! / para o big-bang-pós-modernidade – superbonder! [...] E nessa composição fiz uma homenagem a Jorge Mautner. Eu havia ouvido uma canção dele, Tataraneto do Inseto, na qual ele faz longos discursos durante o samba contando aforismos, poesias, anedotas políticas – que é uma marca singular no trabalho de Mautner. Fui nessa mesma linha e criei um casamento sem alianças – os noivos se unem com superbonder. No final, é dito: Ei mãe, ei mãe! Já tem criança dizendo que, quando crescer, quer ser o Jorge Mautner. Ei mãe, quando eu crescer, quero ser o Jorge Mautner! Fazendo referência à minha fonte de inspiração nessa composição. Sobre esse samba ter sido em feito em clichê harmônico, é o seguinte – compor e escrever poesia são processos parecidos. Quando eu componho com clichê harmônico, é como se eu estivesse escrevendo um poema metrificado: tenho que dizer o que penso nesse espaço de 4 acordes; cada acorde dura 2 tempos e se repetirá 2 vezes por estrofe; em 16 tempos, tenho de chegar ao refrão e este também durará 16 tempos. Num poema, se escolher escrever um soneto em hendecassílabos heróicos, terei de ter a mesma disciplina pra organizar o pensamento para que ele comece, seja bom e termine nesse espaço de 14 versos e, em cada linha, pôr as tônicas nas 6ª e 10ª sílabas poéticas e ainda respeitar o parâmetro grave – terminando, heroicamente, com palavras paroxítonas | graves | – para que haja a sílaba átona do fim. Quem cria ou compõe sem refletir sobre o processo, muitas vezes, faz isso e nem percebe. Mas os caminhos são siamesmos. Já fazer música com uma harmonia diferente, inusitada, é como escrever com versos livres. Aí você que diz o tamanho da frase, o percurso imprevisível e tudo mais. Não acho um modo melhor que o outro. Você pode engendrar poema ou música maravilhosos de modo livre (e sabemos que esse “livre” não é tão livre assim) ou, como diz o Camões, estar preso por vontade num gênero e ter sucesso da mesma maneira.

 

Adriano - E na criação poética, como é a tua relação com a forma?

Thiago E. - Sempre procuro investigar os vários modos de se fazer um poema. Seja no suposto verso livre ou no verso metrificado ou poema visual ou escrita automática ou outro jeito. Não vejo o metro com preconceito, ou como um vilão, ou algo ultrapassado, ou uma velharia inadmissível. Não penso assim. É claro que eu entendo que, em alguns momentos da história, alguns movimentos literários precisaram ser radicais e execraram o verso metrificado – ou super-defenderam como único caminho possível. Como ainda não precisei ser unilateral, pra mim é apenas mais um veículo da comunicação. Me interessa percorrer as singularidades dessas vertentes todas. Não há dúvida que uma grande vantagem que o verso formal, metrificado, tem é a facilidade pra ser decorado pelo leitor-ouvinte. Você entra naquele compasso do poema e lembra mais fácil. Freqüentemente, a publicidade usa isso com precisão de atirador de elite! E aí a gente novamente presta atenção na grande importância do ritmo do texto. Um poema com um ritmo legal, musical, mesmo que não obedeça ao metro, estabelece um contato mais agradável com o leitor. Ninguém gosta de ler um poema duro, que não flui. A primeira coisa que presto atenção num poema é a música: as ressonâncias das letras, das palavras, a dicção, as assonâncias, as aliterações, a sintaxe de tudo. Pego, por exemplo, a banda The Smiths – especificamente as letras do Morrissey. A linda música Reel Around The Fountain começa com it’s time the tale were toldA maneira como o Morrissey escreveu e interpretou esse começo é perfeita! Não tem como esquecer: a repetição dos t’s e a dicção mais acentuada em cada sílaba com t – enfatizando a passagem do tempo... poeta presta atenção nessas coisas. Quando fiz o curso de Letras da UFPI, conheci a maravilhosa professora Maria do Socorro Fernandes de Carvalho – a Só. Eu já lia muita coisa sobre Concretismo, poesia visual, poesia marginal, outras contemporaneidades. A Só já havia estudado isso, mas passou a estudar poesia seiscentista e todas as suas divertidas complexidades históricas e retóricas. Em 2007, resolvi fazer um trabalho nesse campo poético menos visitado e aprender algumas antigüidades(?) da poesia que não eram comuns pra mim. E estudei velhas boas novas. Nesse período, li e reli a Arte Poética, e da Pintura, e Symmetria, com Princípios da Perspectiva do português Philippe Nunes, de 1615, e o Luzes da Poesia, do Manoel da Fonseca Borralho, de 1724. Esses dois foram trazidos de Portugal em fac-símile pela Só. Também conheci trechos do Said Ali, M. Cavalcante Proença, o Tratado de Versificação do Olavo Bilac e Guimaraens Passos e, o mais recente, o grande livro Teoria do Verso, de 1974, do professor Rogério Chociay. Pra quem quer se inteirar de ritmo poético formal, o Teoria do Verso é fantástico! E agora eu tô lendo O Sexo do Verso, do Glauco Matoso – também excepcional! Que inclusive pode ser baixado inteiro da internet. O amigo poeta Ranieri Ribas que me indicou O Sexo do Verso. Essas várias experiências tidas criam um bom repertório na minha cabeça e, num determinado poema, resolvo usar uma ferramenta ou outra. Depende do que quero dizer – de como a mensagem vem. Acho legal aprender essas estruturas rítmicas – já são células musicais para o baldrame de uma poesia. Resta adaptar um ao outro. Percebo que muitos poetas falam mal do metro na poesia, mas gostam de música pop – como se a música pop não tivesse uma fôrma, um fórmula também. Basta perceber que o som pop tem uma introdução, geralmente 2 estrofes, um trechinho chamado de ‘ponte’ que prepara pro refrão envolvente, um solo ou rife e tudo repete novamente. E é ruim? Não. É só se preocupar com uma boa construção naqueles limites. Na poesia é parecido.

 

Adriano - É difícil conciliar suas diversas atividades, como a banda Validuaté e a Academia Onírica, por exemplo?

Thiago E. - Não. As atividades com a Validuaté e a Academia Onírica quase nunca se chocam. Pra mim, é difícil conciliar é a atividade de professor e músico – porque nenhuma das duas me dá dinheiro e dou aulas também pela manhã e, devido a ensaios e apresentações tarde da noite, freqüentemente vou dormir 2, 3, 4 da manhã e preciso levantar às 6h e pouco! Aí é dureza! Mesmo com um público maravilhoso que a gente da Validuaté tem, a música só proporciona alguns trocados e ninguém da banda vive da Validuaté. Precisamos dos nossos empregos menos instáveis pra poder juntar e pagar alguma conta e tornar a arte menos difícil. E a gente, claro, nunca consegue tornar a arte menos difícil! [risos]. A ilusão é pensar que um dia conseguirei acabar os desajustes. Com a Validuaté, por ser um grupo de músicos, a poesia acaba tendo um espaço menor do que eu gostaria. Os amigos da banda não são tão viciados em poema como eu. A Academia Onírica é um suplemento para amenizar esse vício na linguagem. É... se eu não mexer com poesia, adoeço gravemente... É uma dependência, vício mesmo, de enlouquecer – é sério! Muita acha que é ‘bonitinho’. Vai tentar viver sem... adoeço... Um grupo completamente diferente, com atividades e alegrias diferentes e problemas diferentes. A AO tem diversas práticas: manufatura e distribui fanzines, se apresenta falando poemas, faz parceria com outros artistas | fotógrafos, músicos, artistas plásticos, vídeo-maker’s...| nas apresentações, mantém o blog www.poesiatarjapreta.blogspot.com e agora está editando a AO-revista. Tomara que eu consiga me manter financeiramente e ainda conciliando as atividades com a música e a poesia. Vamos ver...  

 

Adriano - Qual o lugar da poesia nos dias atuais?

Thiago E. - Um lugar pequeno e minoritário. Contudo, com a internet, passou a ocupar um espaço um pouco maior do que ocupava no passado. Antigamente, o seu papel era instruir e deleitar – o leitor gostava e ainda aprendia algo. Na minha vida, ela continua tendo esse papel, mas ocupa, sobretudo, o lugar do prazer com a língua. Quem gosta de poesia é porque sente prazer com essa forma de linguagem – gosta de ler, ver a construção, ouvir o som... – e são poucas pessoas, se compararmos com o público de outros prazeres no mundo. Sempre vai ser assim. A poesia tem isso de maldito mesmo – felizmente e infelizmente. Poesia não dá dinheiro – dá muito é prejuízo – tanto pro autor (que quase sempre se banca) como pras editoras |que precisam, antes, editar livros que vendem pra, depois, poder pagar uma edição de poesia|. Isso é ao mesmo tempo triste e feliz – feliste e trisliz – porque, de cara, estabelece com as pessoas uma relação de sinceridade e responsabilidade. O poeta sabe que não vai lucrar escrevendo poemas – ele sabe que vai ter é que se desdobrar em vários: entre algo que lhe dê uma grana pro sustento e o trabalho de escrever criativamente. Então, naturalmente, quem é poeta não vai perder esse tempo pra fazer qualquer coisa. Ele já sabe que terá que agir com responsabilidade em relação à linguagem. E a pessoa que compra um livro de poesia pensa: porra, o cara podia estar ganhando dinheiro e fazendo qualquer outra coisa... Mas, não! Resolveu gastar o tempo escrevendo um livro de poesia que não vai lhe resolver nenhum problema! Só pode é prestar – deixa eu ler isso... [risos]. Então a poesia pode estar em quase todo lugar. Depende do seu olhar. Falo quase todos porque não há poesia na FUNDAC (quando ela maltrata os artistas com desinformação e atrasando o cachê); na prefeitura de Teresina sendo piorada pelas irresponsabilidades do Elmano Férrer – aumentando o preço da passagem de ônibus, massacrando o trabalhador comum e enriquecendo ainda mais as elites. Outro detalhe: fui “contemplado” no edital da Lei A. Tito Filho, de 2009, para editar um livro meu e, 2 anos depois, eu e os outros artistas “contemplados”, não temos sequer previsão de cumprimento do nosso direito. Aliás, pra onde foram os r$ 500.000,00 (meio milhão de reais) que seriam destinados à cultura?! Se alguém souber, por favor, denuncie! A banda Validuaté havia posto outro projeto, há mais de 3 anos, e, em pleno 2011, falta a gente receber o que seria a última parcela do financiamento, referente à divulgação do cd alegria girar, que estávamos gravando com tanto afinco: o disco foi gravado em 2009, lançado, vendido e, 2 anos depois, esgotado! E o dinheiro? Faltou a última parcela! Em 2010, o prefeito Elmano Férrer ainda chegou a prometer para os artistas e para a imprensa | para se auto-promover! | que daria mais 100.000 reais para somar a esse meio milhão que seria usado na cultura em 2010... Só balela! Não fez nada pra dar um prumo na importante Lei A. Tito Filho! E agora só pensa na reeleição fazendo propaganda mentirosa – falando que as escolas públicas municipais têm ar-condicionado e um computador por aluno! Hahahaha! Como diz o poeta Rilke: quando a tristeza é demais, a gente ri... Eu sou professor em 2 escolas do município e sei que é só manobra política. Então, nesses lugares, não há poesia. Atrasam e sufocam qualquer linguagem criativa. Mas, vamos voltar às coisas boas. Com a internet, a poesia e os contos e as fotografias e os micro-contos e os vídeos e os haicais e tudo mais de artístico passou a chegar mais perto das pessoas. Pessoas que não têm condição de editar e imprimir livros, ou revistas, criam blogs e toda sorte de circulação virtual que é rápida e democrática. O público opina, fala bem, ou fala mal, e já se tem a repercussão de sucesso ou fracasso quase que instantaneamente. Eu adoro usar essa ferramenta chamada internet! Tudo fica perto e atomicamente acessível! Lembro que, há dez anos, na minha vida ainda não existia internet. Eu queria saber mais sobre os poetas, vê-los falando, ter contato com os poemas e ainda era complicado. Eu ficava assistindo à TVE e à TV Cultura em casa, com uma imagem péssima! ...na esperança de ver poesia. Aí, eu ficava muito feliz quando passava entrevista com o Ferreira Gullar, poemas do Leminski, shows do Tom Zé, Ná Ozzetti, poemas do Arnaldo Antunes, do Augusto de Campos... muita gente bacana! A imagem só melhorou em casa, depois, com a criação da TV Antares. Hoje, é só buscar pela internet que os poetas também estão lá! Grandes autores e poemas de todas as épocas em um click! Pra mim, é a glória! O máximo! A poesia, atualmente, boa e ruim, tá por aí, por aqui – ao alcance dos dedos.

 

Adriano - Você mencionou a "contemplação" em projeto de financiamento para edição de seu livro. O que se pode esperar desse livro?

Thiago E. - Adriano, talvez eu não seja a pessoa mais adequada pra dizer o que tem no livro. O autor muitas vezes faz algo achando que está num rumo e, quando o livro é lido, e co-enunciado pelos interessados, vira outra engrenagem. CABEÇA DE SOL EM CIMA DO TREM é meu primeiro álbum. Pus nele minhas primeiras experiências com o ritmo da linguagem. Acredito que a musicalidade da língua já vale a viagem – e isso já é sugerido pela cadência do título: a frase é uma soma de dois versos em redondilha menor |de cinco sílabas poéticas| e tem acentuação – tempo forte – na 2ª e 5ª sílabas, já sugerindo o som do próprio trem. Ou então pode ser um verso decassílabo desajustado. Esse título foi meu apelido há uns 8 anos. Letícia mora em frente à minha casa. Até ela completar o seu terceiro aniversário, nós dois sempre nos encontrávamos. Meu cabelo estava grande e, raramente, via pente. A coisa que Letícia mais sabia era aprender – falava um idioma que esquecemos ao crescer. Um dia, não nos vimos. Quando houve o reencontro, a pequena reclamou: thiago, eu nunca te vi ontem! [risos] Ela tinha essa infância da língua, como diz o Manoel de Barros. Nesse mesmo dia, ela me desenhou e disse que era eu – e eu era o cabeça de sol em cima do trem. Porque meu cabelo desgrenhado lembrava um sol. Saquei na hora a graça da frase e continuei a perseguir naturalmente os fazeres dessa escrita musicada, dessa pintura que fala. O livro é pontuado basicamente pela musicalidade. Vários poemas do livro tratam sobre o escuro – eu sou cego do olho direito e, desde criança, os médicos diziam pra minha mãe que não tem cura e eu tinha que ter muito cuidado, não podia fazer esporte de luta, brigar... porque não iria ver o golpe vindo de lado e ainda poderia ter problemas com o olho bom. Mesmo assim fiz anos de judô e capoeira, contudo, sempre fui mais sensível a esses assuntos de perca total. [risos] Estou fazendo, no livro, um intertexto também com o braille – minha prima, Adriana, tua xará, é cega e me ajuda com reglete e punção – transcrevendo pra essa outra linguagem maravilhosa! Todo mundo deve se pôr no lugar de uma pessoa com deficiência. Se você não enxergasse, ou não ouvisse, ou não falasse, ou não andasse... o que você faria? O que você seria? É inacreditável como as possibilidades de comunicação e tipos de linguagem são infindas. Nesses tempos de tanta informação pra vermos, entenderíamos melhor nossa vida se aprendêssemos braille. Fora isso, percebo que no livro há uma espécie de escrita que personifica coisas – uma tentativa de revelar-criar uma narrativa sobre objetos, partes ou conceitos aparentemente pequenos ou limitados. Tudo arranjado em poemas de versos heptassílabos, octossílabos, decassílabos, hendecassílabos ou organizados de forma livre. Gosto de usar esse repertório de possibilidades rítmicas ‘clássicas’ misturado com versos sem métrica – pra tentar variar o ritmo buscando sonoridades interessantes. Aqueles livros e tratados poéticos que já citei me ajudaram a gostar tanto de uma construção formalmente mais rigorosa, como gostar da escrita mais vagabunda que diverte. Mais uma vez: não entendo o pessoal que tem preconceito com esse aprendizado formal da poesia. Quem faz samba, forró, chorinho, música pop ou rock sempre presta atenção no andamento da música, nos tempos fortes do bumbo na bateria – e como o baixo acentua o grave aliado à bateria – isso sem falar na prosódia que a própria letra requer cuidado. São atenções necessárias à construção musical. A poesia, sendo música, tem o caminho análogo a isso. Cabeça de sol em cima do trem conta também com várias imagens do músico, professor e artista plástico Joniel Veras – amigo-parceiro livresco e musical. Ele desenhou para o livro fazendo uma soma de significados aos textos – narrando paralelamente. Acho que é isso e mais um pouco. Mas, quando o livro sair, tudo pode mudar. [risos]

 

 

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Adriano Lobão Aragão é poeta e professor. Blog: ágora da taba.


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2012] 
 
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