poemas de

Dora Gago

 




Aves de Ahmerst

Migratórios são os pássaros
que sulcam o vento,
Inscritos no céu
E os desejos
Que me cobrem o rosto
Como um véu.




Outono

As folhas que este Outono trouxe
Promessas de vento escarlate
A escorrer
Pelas margens da alegria.




Tríptico de neve

  I

O frio branco
Desliza-me pelos dedos

Matéria suave
etérea,
a desfazer-se lentamente
no calor da minha pele,
Orvalho ainda em promessa
ou meros farrapos de ilusão,
pela luz do sol
dissolvidos.


  II

Guardo na alma
O segredo oculto,

a fórmula mágica
Que vive no ventre na neve
E cavalga no dorso do vento
Nos dias
Em que a tempestade
É tão só e apenas
O eco distante dos teus passos
A esmagar no chão
folhas serenas.


  III

Escrevo poemas
De sol
Em cada lágrima
De neve
Pelo rosto do tempo
Escorrida.



(Ahmerst, Massachussets, Estados Unidos, Outubro-Novembro de 2011-12-06)





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Nascida  em S. Brás de Alportel (Portugal), Dora Gago é Professora , doutorada em Línguas e Literaturas Românicas Comparadas, foi investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Aveiro. Publicou: Planície de Memória (poesia, 1997); Sete Histórias de Gatos (em co-autoria com Arlinda Mártires), 1ªed. 2004, 2ª ed. 2005; A Sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, 2007); Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga, Fundação Calouste Gulbenkian/FCT, 2008.
Além disso, tem poemas, contos e ensaios em diversos jornais, revistas e antologias. Tem apresentado igualmente diversas comunicações sobre as “imagens do estrangeiro na Literatura Portuguesa” em Congressos Internacionais.
Contacto: doragago@sapo.pt


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2012]

 
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