No pé da cidade

Amailton Magno Azevedo

 

 



Eu não gostava de acordar de madrugada para ir com minha mãe ao trabalho. Era sempre muito frio e tinha que subir na carroceria do caminhão para chegar à plantação de café. Minha mãe era justa comigo, não me deixava trabalhar até o sol deixar o dia bem quente. Enquanto eu, quase sempre dormia debaixo dos pés de café. Ela colhia, peneirava e ensacava o café. Trabalho horroroso. Nunca mais quero voltar ao campo. Odeio essas histórias de que no campo encontramos a paz, a harmonia, a frescura do dia, o reencontro com nosso interior. Mentira, conversa fiada, isso tudo é pura baboseira. A vida no campo, pra mim e pra minha mãe, foi acordar de madrugada, passar um frio desgraçado, encarar aquela plantação de café ainda molhada do orvalho que congelava as mãos e ganhar uma porcaria de salário que mal dava pra comer. A vida no campo é uma farsa. Sertões, matas, canaviais, montanhas, cobras não gosto nem de pensar. Me dá arrepios. Ainda mais quando lembro nas cobras que atormentavam minha imaginação e perturbavam meu sono. Minha mãe dizia: “tome cuidado com as cobras”. Malditas, odeio cobras. Ainda bem que nunca fui picado por uma delas. Já imaginou? Se eu as odeio por perturbar meu sono, como seria se fosse envenenado por uma? Não me lembro de outras crianças nas plantações de café, apenas eu? Estou pensando agora, como minha mãe fazia para que minhas irmãs não ficassem sozinhas em casa? Devia pedir para alguma vizinha. Não sei, não estou certo disso, preciso perguntar pra minha mãe. Me lembro que um dia levei minha mãe pra ver um show da Daúde. Minha mãe sempre foi protestante, mas ficou encantada com a imagem de Daúde, que estava mais para um orixá feminino do que para Lutero. Eu vi o encantamento nos olhos dela, ela sorriu, mexeu as cadeiras na cadeira do teatro, talvez deva ter sentido alguma inveja de Daúde, por lembrar que um dia já havia desejado aquela vida pra ela. Ela, minha mãe, sabia fazer perfeitamente os acordes Dó, Ré, Mi e Fá. Ela também não gosta da vida no campo, eu tenho certeza disso, ela nunca me disse nada, mas eu sei. Ainda bem que ela não precisa mais carregar latas d´água na cabeça para beber e lavar roupa. Também não precisa trabalhar em casa alheia, não amamenta mais a prole dos outros. Ela não gosta do seu tempo de juventude. Quanto a minha juventude? Ah! Não tenho do que reclamar, nunca comi tanta menina na minha vida como o tempo em que estive na Universidade. Adoro a Universidade, conversas, mentiras, boatos, leituras, cachecóis, música, transas, Black Power, dreads locks, MPB, Caetanos, Gils, Chicos, Cartolas, bares, festas, transas, namoros, fuxicos, pesquisas, transas, amores, desencontros, filmes, palestras, perfumes, passeatas, mentiras, transas, debates, conferências, nada de cobra, nem de plantação de café, nada de humilhação sem saber se defender. Adoro a Universidade, aprendi a me defender melhor no pé da cidade. Eu gosto é de cidade grande, da Universidade, de Spike Lee, Cornel West, Anthony Kwame Appiah, transas, encontros, desencontros, olhares, mentiras, falsidades, mas muito melhor do que aquelas cobras me atormentando. Quem gosta do campo é cobra, eu gosto é da cidade.


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Amailton Magno Azevedo é professor do Depto de História da PUC-SP. Pós-Doutorado pela Universidade do Texas em Austin.


 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2012]

 
 
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