O beijo das marmoramas

Rogério Newton





Ela passou meses insistindo. Quando viu que de mim não sairia nada, tomou a frente, acertou tudo. No dia seguinte, um homem e seu ajudante fizeram o serviço. Fixaram pequenos postes no muro: mais de trinta. Esticaram os fios quando o cimento secou. Cortaram sem piedade as folhas da carnaubeira, viçosa pelas chuvas. Não houve folhagem que ficasse no meio do caminho: o facão passou também no cajueiro, na mangueira e não perdoou as marmoramas que anseiam por beijar o muro. Deixaram rastros: cacos de tijolos dentro dos canteiros, restos de cimento sufocando a hera, hastes de metal - resquício do último São João - jogadas a esmo, um pé quebrado de mamão novo, talos da carnaubeira sobre as flores...

Ontem à tarde, testaram o alarme. Quando o som tomou de assalto a casa, quase tenho um ataque. Se há inferno, a trilha sonora deve ser aquela. Mas não existe. Ou pior, é aqui: a cidade que estamos construindo com o suor do rosto e parcas rações de alegria. Um lugar suportável, desde que transformemos nossas casas em bunkers.

A última coisa que imaginava era ter minha vivenda cercada por fios elétricos. Nosso único guarda por muitos anos foi um cachorrinho do tamanho da atual poodle, que mais late que morde. Já tivemos um pastor suíço, todo branco e de latido sonoro, mas morreu cedo. E uma cadela negra, afetuosa e fujona. Que me lembre, só dois ladrões nos importunaram. O primeiro levou uma lâmpada; o segundo cortou-se acidentalmente após pular o muro. Manhã cedo, vimos as marcas de sangue.

Mas agora, numa casa maior, em rua que é um doce de silêncio, minha mulher e minha sogra ficaram amedrontadas. Não lhes falta razão. Quase todos os vizinhos já foram assaltados. Outro dia, um rapazote veio arrancar tiriricas no jardim. Disse espantado:

__ Vocês têm muita coragem de viver aqui sem dois “pitibuls”!

Foi a gota d’água. Eu pensava que a cerca elétrica seria o limite, o ultimato pra cair fora, ou refletir, até às últimas consequências, a maneira de viver. Continuo achando a mesma coisa e, como Noel, vivo me perdendo.


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Rogério Newton nasceu em Oeiras (PI). Publicou: Ruínas da Memória (crônicas, 1994), Pescadores da Tribo (crônicas, 2001), Último Round (poesia, 2004), Conversa escrita n'Água (crônicas, 2006) e Grão (crônicas, 2011). Reside em Teresina.


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano IV - número 12 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2011]

 
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