A peste
Maria do Carmo




 

O percurso era vasto e beirava o infinito.

E foi assim que me vi caminhando.

Caminhei, caminhei até o vale, onde me encontrei na imensidão de um paradoxo.

Indissolúvel.

Insustentável. Era o assombro diante à liberdade.

Ali, reiniciava o ciclo dos elementos primários. Como numa mandala; como numa távora e seus contornos, que entristeciam a singularidade das imperfeições.

No vale, havia um altar em forma de círculo e ele estava posto. E uma luz brilhava, libertando-se de sua própria ausência.

O momento era o próprio ciclo.

Havia uma escada a subir, no rompimento do percurso que incide em apenas mais um começo. E, após vencer os degraus da magnífica escada de mármore límpido, cheguei ao centro do círculo. Ao redor haviam quatro pilares, postos em posições que proporcionavam a simetria; logo, se ficasse inerte, seria possível ver apenas dois pilares, ao mesmo tempo.

Os pilares traziam em sua composição os elementos da natureza em essência: Fogo, Ar, Terra e Água.

O primeiro dos pilares que busquei foi o Fogo, e apenas senti, pois ceguei ao tentar vê-lo. Em seguida busquei o Ar, me pareceu conveniente continuar respirando para chegar àquele que me concederia descanso: Terra. E por um momento, a tranqüilidade me trouxe a excentricidade da dúvida. E, por fim, dirigi-me ao quarto pilar, Água; e nele pude contemplar, em sua reflexão, as imagens dos três outros, e a minha própria!

E por esse ângulo de observação, expôs-se a armadilha da contemplação. E na ordem, se instaurou o caos:

- Transparente, como a arrogância dos tolos.

- Seco, como a covardia dos santos.

- Sufocante, como a surpresa da dor.

- Fatal, como a terceira punhalada.

E vi que cada escolha trazia uma, ou várias perdas; e não tomar uma atitude, já era uma atitude. E inverti as posições dos pilares, até que elas não importassem mais, até fazer girar o círculo. E ele girou... E eu também girei...até não haver mais ciclo, nem círculos, nem pilares, nem escadas, nem luz, nem paradoxo, nem dúvida:

A morte, era tudo que sabia do céu; e tudo, que  precisava do inferno.



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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]

 
 
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