Da vida que não vivi
Mariana Musa




 

Queria muito ter tido a vida que não teve. Amigos que não conheceu, amores que não rejeitou. Pensar em tudo diferente acalmava a sua ansiedade. Sentado há horas em frente do computador, olhando o traço vertical e negro piscar na tela, lancinante evidência do texto a ser escrito e que ele não conseguia escrever. Desde que sua professora da sexta série lhe dissera que sua escrita era elegante, ele se convenceu de que seria um escritor. Vida elegante, com intenções dignas e finalidade importante. Para isso, entendeu que deveria cursar alguma faculdade em Ciências Humanas, nas Letras, na área das Literaturas. Prestou e ingressou. “Escritor”, ele dizia, “hei de ser conhecido”. Ainda melhor se não nessa vida, é parte importante das intenções dignas não se preocupar com o sincronismo do reconhecimento de qualquer produção artística. Ele tinha ouvido, em qualquer seminário, que um poeta bem velho, um tal de Horácio, tinha escrito alguma coisa em bronze, ou seria mais resistente que o bronze? Não sabia direito, mas a palestrante falava sobre a imortalidade da obra de arte e ele achou bonito. Queria contar histórias. Animava-lhe a idéia de que haveria leitores, ávidos, em filas de livrarias. Esperou até o final da graduação (durante a qual se dividia entre a sala e o trabalho, uma vez que, mesmo recebendo todos os tipos de auxílios da universidade, ainda assim precisava trabalhar, se pensasse em comprar os livros que tinha que ler, e que também não leu, porque precisava trabalhar!), quando juntou algum dinheiro e pôde rumar pro interior, onde pretendia dedicar-se exclusivamente ao ofício de escrever. Sempre se confundia se era do Bilac ou do Drummond aquela frase da porcentagem de inspiração e de transpiração de que se precisa para se fazer boa poesia (confundia-se também quanto a quanto ia com qual, mas lembrava que era muito boa!). Nova Europa era o nome do lugar escolhido, perfeito, absolutamente inspiratório para se compor uma obra de arte. Mudou-se e logo o primeiro móvel que comprou (seminovo, de um brechó que também vendia coisas novas) foi essa escrivaninha, sobre a qual se inclina agora, pensando se fuma ou não mais um cigarro antes de começar. Era antiga, saía-lhe um cheiro como o que vem das páginas abandonadas dos livros que não se folheiam mais. Cheiro de árvore, madeira morta de onde também vem o papel. Pensou, a princípio, em escrever em papel. Mais tradicional, nada de mouse e teclado onde deveria haver apenas a tinta e as idéias. Mas como faltavam ainda as idéias, passou boa parte do seu tempo perambulando pela cidade à procura do que comprar para certificar-se de que nada lhe perturbaria o momento epifânico da escrita. Imaginou-se com a bic subitamente sem tinta, o papel esgotando-se depois de tanto escreve-não-gosta-e-amassa, as idéias perdidas porque faltou, depois de uma tempestade, a luz. Não. Diante de uma loja de eletrônicos, antes mesmo de entrar, foi convencido pelo vendedor da imprescindibilidade de se possuir um computador de colo (enquanto o homem falava, ele pensava na curiosidade do seu nome inglês). Perdido nessa tradução esdrúxula, não viu outra opção a não ser levar o aparelho. Imaginou que a troca do suporte seria crucial para desenrolar o momento travado em que se encontrava. Sem as futuras folhas espalhadas pelo chão, estaria livre das evidências pungentes de que a escrita não ia bem. não contou com o traço negro e vertical, pulsando incessantemente na réplica da folha branca a sua frente. Infinitamente mais angustiante, porque nem a impressão de que se fez alguma coisa (que as folhas amassadas no chão invariavelmente dão) existia.

Voltou. Começou a pensar nas histórias que conhecia, material seguro para a sua arte. Nada lhe vinha à cabeça a não ser os fatos da sua própria vida. Ora, não queria escrever sobre si mesmo, nem sobre as pessoas do seu convívio. Como bom aluno medíocre que fora entendeu, em algum momento, que a vida e a obra do autor não são necessariamente a mesma coisa. Os versos podem ser devassos, mesmo que o poeta seja pio, não era isso? Enfim, não importava. Queria uma narrativa universal, que não se restringisse a uma época ou a um grupo de leitores que se identificassem com a história. No fundo buscava expurgar alguma coisa que sentia universal em si, mas não tinha idéia do que isso viesse a ser. Intrigado quanto ao enredo (queria explorar os recônditos da sociedade? Descrever comportamentos? Vícios e virtudes?), começou a elucubrar o tom, o tipo da sua obra (queria fazer rir? Verter lágrimas? Filosofar?). Não sabia... considerou, então, o público. Porque era a única coisa que restava. E se lembrou da discussão sobre a categoria de leitor. O leitor ideal, o ser imaginário capaz de reconhecer todas as alusões presentes no texto e, por trás dele, de recuperar a intenção do autor. Mas que intenção? Ele nem argumento tinha ainda. Mas e daí? O leitor é quem decide se gosta ou não, se é pertinente a narrativa, se a história faz qualquer sentido, se você é um péssimo ou um exímio escritor e, por fim, se é merecedor da vida importante, de intenções dignas e finalidade elegante que você almeja. Imediatamente começou a se perguntar porque essas pessoas não gostariam das suas histórias. Quem eles pensam que seriam? O que tem contra ele e o seu texto? Algozes!

Num súbito ataque histérico, derrubou os livros, e o computador, sobre a escrivaninha velha do brechó fajuto. Sentado no chão, as pernas entre os braços, condenou a própria vida... enquanto desistia, notou que o traço na tela semi-acesa ainda piscava, compassado ao pulso intermitente da sua veia de não-autor.

 



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Mariana Musa de Paula e Silva é doutoranda da área de Letras Clássicas do IEL/ Unicamp. Mestre em literatura latina, atualmente trabalha na tradução do primeiro livro da obra Metamorfoses do poeta latino Ovídio (43 a.C - 17/18 d.C). 
Email: musadepaula@yahoo.com.br 



[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]

 
 
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