Joana
Roberto Muniz Dias



 



Me senti apenas Joana mesmo. Levantei como se estivesse em casa de estrangeiro. Queria apenas um copo d’água, mas a casa toda parecia um país estranho. Aventurei sem perturbar o sono de ninguém- pois é, ninguém soaria tranqüilo nesse medo que invade a sede. A casa não era minha, mas o título me confere toda a intimidade com a mobília. -Não sou eu-, falei para ele antes de dormir. Quis fica sozinha no lado que me é de direito. Nada mais. – E a água? –, perguntava a mim mesma. – Onde está minha sede? – Aquela sede que mata a vontade física de algo ainda por complementar como tudo que ainda havia para descobrir ali dentro, mas que não queria suportar.

Antes de qualquer palavra vinha o beijo, mas naquele outro dia não houve o beijo. Levantei antes de tudo: da camisa passada, do elogio matinal, do café a dois. Quis apenas o meu pequeno pedaço de alguma coisa e isto o deixou triste, como o café frio que se fizera.Mas antes de levantar-me tinha de me mostrar mulher, esposa. E mesmo ainda inerte sobre os estímulos do amante, tinha que satisfazer seus prazeres recebendo sua morna alegria dentro de mim. Então, depois disso levantei-me pronta para mudar o sentido daquelas horas. Havia me tornado a mãe dos meninos. Assumia toda a responsabilidade para com eles, até mesmo o carinho competia a mim; ainda assim tinha que ser dividido pois sobre minhas pernas estava minha olliveti. Era lá onde eu sofregamente escrevia meus livros. Tinha virado uma mulher fria, preocupada com o ritmo que imprimia as teclas e a necessidade de satisfazer outras responsabilidades.

Na última carta eu entendia minha hesitação; o medo que toda mulher tem de ser aquilo que não pode ser. Me esforçava para não sentir culpada. Essa culpa cristã para com as convenções humanas. Mas estava lá a carta. Certo que era pelo livro o elogio da narrativa longa, densa. Assim como minha nuvem que criava sobre minha razão de ser. Mas havia um medo que apenas eu sentia nos olhos do meu marido. A carta era simples. Talvez ele não quisesse algo maior, senão meu interesse pelos seus livros, pela literatura que nos unia como seres estranhos. Ali de novo perdendo o olhar sobre os olhares solitários dos meninos e minha máquina suplicante. Eu devia continuar. Havia pensado em parar tudo de uma vez e sumir, assumir essa culpa não caracterizada de querer mudar, de ser uma mulher mais altiva sem essa permissividade atribuída. Sei lá. Era apenas uma mudança pequena. Voltar para minha terra, entender minha voz entre outros iguais. Aqui tudo parece muito estranho.  O que mais queria era voltar para mim mesmo perto daquela areia do mar, da brisa quente do calor humano. Era isso. Queria voltar a ser o  humano em mim. Noite passada fiquei horas sentada , pernas cruzadas, a língua inventada como natural que permitia a conversa. Mas todas estavam mudas e como falavam dos maridos. Mas minhas pernas sentiam falta do peso da máquina. Minha cabeça andava em círculos ao redor daquelas senhoras, ampliava-se, saía da órbita imaginária daquelas mulheres-júpter, pesadas, que permaneciam paradas e eu me permitia flutuar sobre aqueles pensamentos pequenos, deixando de ser atraída por aquele magnetismo fraco e vão. Minha cabeça rodava por entre as pipas coloridas. Parecia não pertencer àquelas condições de existência. – Mas como poderia haver existência dentro daquele espaço pequeno de vida que tinha? Era muito pequeno esse mundo meu, criado nas expectativas de que a vida de uma mulher tinha que ser ao lado do marido. Mas eu sonhava com as criaturas que criava em meus livros. Invariavelmente terminava sempre dormindo com eles. E lá vinha a culpa novamente. Eu não poderia sonhar. Minhas mulheres eram extremamente solitárias. O pensamento delas rodeavam as informações com o pensamento no novo, na claridade do dia renovado. Elas se permitiam sentir um pouco o calor do sol, mas como um preso, deveriam voltar as suas casas para sentir o calor morno dos maridos, dos parentes, das paredes. De vez em quando, elas davam saltos como nos últimos rabiscos:

Ela olhava longinquamente para o desenho da fumaça que fazia com o cigarro. O pensamento contornava aquela fumaça que não se dissipava dentro do quarto de dormir. Fitava o desenho de suas inseguranças, e, às vezes, via-o a distância; via-o como fantasma- ou como as personagens do livro que compunha. Eram verdadeiros fantasmas esses desenhos aleatórios de sua mente. Ela imaginava qual seria a condição para se sentir mulher. “Um homem?”, perguntava-se, ao mesmo tempo que dava a resposta a si, desfazendo com o dedo o desenho do homem sonhado. Era Camargo a noção de homem que queria, que fazia parte de sua vida reclusa; que entendia seu isolamento, a fala solitária com as paredes e aquele olhar perdido nas vozes.

A bandeira vermelha tremulava diante de suas expectativas, assim como da personagem ainda imprecisa. Sua revolta se juntava as manifestações antecipatórias, ao medo que se anunciava. Pelo menos era assim que se sentia. E a fumaça continuava a povoar o espaço denso daquela tarde. Mas ainda os desenhos se transformavam em fantasmas. Ela deveria deixar aqueles pensamentos de lado. No entanto, Camargo continuava em sua visão. A sua concentração se perdia nas lembranças do olhar dele. A máquina ficara muda, consentindo sua impaciência. Não tinha mais tempo para dedilhar porque o tempo dela havia se perdido. A fumaça desenhava o perfil de Camargo, ao mesmo tempo em que desenhava palavras diversas. Sem sentido, sem entendimento completo. Apenas percebia o quanto perdia de tempo para aquela paixão errada. Sim, todos diziam ser errada, somente seu sonho não percebia a impossibilidade. A fumaça se dissipava enquanto a idéia em Camargo perdia força, e novamente seu pensamento voltava para a trajetória da mulher perdida.

O tempo oscilava entre as branduras antecipatórias de uma atmosfera morna nos idos de 1960 e o pensamento frio nas ruas de Paris. Ela se sentia quente na sala solitária. O cigarro não parava de acabar. Pensou novamente em Camargo com a carta nas mãos; nas palavras dele podia sentir seu cheiro, sua transpiração nos dedos, a caligrafia. O livro era bom e isso era mais que um elogio para suas pretensões. Talvez o fosse, ela pensava sempre. Mas pensava sempre nas palavras como uma resposta a sua timidez; aos seus olhos silenciosos. E assim, nesses pensamentos de memórias, imaginava-se a mulher perfeita: esposa, mãe… sozinha. O tédio funcionava como inspiração para o desabafo contras as palavras alinhadas, o toque sôfrego das máquinas, o raciocínio dividido nas letras catadas, escolhidas. O ritmo imprimido de uma vida de rostos falsos, pessoas estranhamente solícitas, valores diferentes. No entanto, o sabor da vida era recobrado na história que surgia, nos personagens que criava como filhos, no desenlace da felicidade prometida; da sua felicidade roubada. Era muito seco aquele ambiente lívido. Não tinha terra viva para criar seus filhos, o calor do Rio…

Elas se pareciam comigo. Eu queria ser como elas. Mas ficara muito tempo entretida com a vida do outro e, às vezes, a vida imitava os planos dos outros. Por exemplo, os filhos vieram como conseqüência natural deste destino não programado. Eu não podia dar mais meus saltos. E por isso acho que deixei de dar a todas elas os saltos em suas vidas. Como não tirar de mim e colocar nelas todas minhas frustrações e alegrias. As mulheres que inventava deveriam ser felizes, ou pelo menos encontrar a felicidade. Era simples encontrar a felicidade. Eu sabia como era, como criar, mas na minha vida real nada tinha ainda para se descobrir. De alguma forma eu sabia como encontrá-la. Estava nas minhas mãos de certa forma perdida nas linhas tracejadas, aleatórias; aquelas que indicam caminhos os destinos premeditados desde o começo- estava nas mãos, nas linhas da vida desde o começo.

Foi assim com a mãe também presa ao relacionamento arranjado. Sentia-se mulher na companhia de um homem. Perdia-se tudo nessa relação desde a liberdade até a virgindade. Mas eu queria mesmo era falar dessa solidão. Esse lugar vazio na sala de cinema. Até a última sessão, eu não sabia o que era esse espaço vazio do meu lado. Eu parei de viver o convívio das coisas simples; dos espaços. Deixei morrer um pouco com o adeus. Mas não quero falar dos motivos, pois sempre somos culpados e inocentes. O que me cabe agora é a inocência da solidão. Por que pode sim ser solidário com a solidão, mas ser inocente a seu respeito, era raro pra mim. Eu sabia dela- por essa razão sinto-me apenas Joana-, mas não como convite, como nova possibilidade. Era apenas uma nova idéia a me seguir nesses caminhos que agora trilho sozinha.

Dia desses parei meu pensamento e me peguei acariciando meu dedo mindinho com o polegar. Eu sentia falta daquele carinho que ele fazia sempre antes de dormir. Eu me perdia naquela sensação de presença. Ele não falava nada, apenas se deixava envolver por aquele momento. Passava horas alisando, acariciando sem precisar falar nada. Eu sabia que ele estava lá perto de mim. Aquela fricção era além do que apenas um contato físico; era a permissão de entrada num mundo que era só nosso ainda que nos faltasse o que se dizia ser essencial; estávamos sempre saciados desse desejo primordial. E o toque suave; o roçar constante e atencioso me supria das coisas mais fortes, mais intensas e que, naquele momento específico, satisfazia minha condição humana mais medíocre. E eu estava feliz, mesmo que não soubesse o quanto sentiria falta desse ritual simplório. E bastava-me aquela sensação do dedo vibrando contra o meu para que eu sentisse o alcance de seu carinho; talvez fosse amor porque eu desejava que se repetisse por muito tempo. O tempo todo, sua atenção se dividia entre meu estar ali e sua necessidade de satisfazer meu ser. Relembro que não havia mau humor que registrasse sua perda de direção, e o que mais me machucava nesse momento de solidão é essa sensação de pura incompletude e a conseqüente ressignificação das coisas ao redor. Agora me lembro dessa necessidade de complemento; essa grande vagina tributária do receptáculo morno que existe no amor, o verdadeiro amor- raro- de um homem para uma mulher. E podia sentir essa falta de calor que agora se transformou em vontade amorfa, sem vida, que de vez em quando me lembra da condição feminina de existência, num eterno vagar entre essas oscilações entre o ser e estar sozinha. Foi-se embora tanta coisa; tanta memória do que se aproximava da felicidade, mas que agora ganha os desenhos de uma grande anomalia sem cura. Todo dia parece uma luta para a busca da cura.- Mas onde reside a cura nessa lástima de viver cada dia como se fosse momento de morte? Claro, porque deveria ser morte isso. A morte compreendida nesse sentido de morrer um pouco, a cada dia. Solidão é morte.

E os filhos? Estes já haviam partido. Os caminhos que conheciam antes na constância da família unida, não passavam de visitas esporádicas apenas para confirmar meu isolamento. E tudo fazia falta. Mas mais ainda fazia falta a minha parte completa que não mais existia. A porta ficava aberta porque ele gostava de sentir o vento que vinha do alto; vinha da janela que passava pelo grande basculante, descia pelas escadas, encontrava os quadros coloridos e mudos, depois se espalhava na sala e sem saída e ao encontro de nossos pés na cama. Por isso, a porta ficava aberta. Mas desde então, desde a saída pela porta última, ele se foi com toda a sua falta de bom senso e dentro da única bagagem do corpo levou sua insensatez consigo. Ela não me fazia falta, mas depois de tanto tempo o vento já não tinha mais o cheiro de antes. A casa vazia ainda parecia com aquela porta aberta; o vento ainda roçava aquelas paredes que agigantavam ainda mais minha vontade de largar isso tudo. Jogara os manuscritos contra a porta e pensava que o peso desse fardo- minha única obrigação com o mundo- pudesse cerrar aquela abertura para sempre.  A linha tênue já havia sido alcançada meu amor e meu ódio.

Queria desistir desse expurgo por meio das letras. Eu havia aprendido a falar por meio das palavras e usá-las como ferramenta de trabalho. A parceria tinha dado certo até agora. Eu criara todos os personagens e tinha dado o fim mais apropriado. Mas agora eu não sabia como acabar com meu personagem solitário. O vento ainda soprava como sempre, mas eu nunca tinha percebido o quão estava frio. No entanto, o que realmente não sabia é que eu ficara fria, sozinha e sem os pés dele, minha solidão era ainda mais contundente. A noite passava silenciosa sem eu saber que ela já havia ido. Ela ficava triste e sem sentido. Os olhos se perdiam mais uma vez num ponto do quarto; olhando para o ponto fixo e a imaginação ia fundo na memória. Não sei por que pensava nisso; nesse passado como redenção dessa minha sorte do momento. Era salutar pensar no passado neste momento? Então comecei a pensar num passado bom. Lá, naquele passado que fez algum sentido e que me retirasse do momento o pensamento na solidão que me angustiava.

[...]

Sentei a mesa observando o fio entrançado do caminho de mesa; alisando como se pudesse obter a magia de uma confissão. Alisava, alisava e pedia que as coisas pudessem se tornar reais. Queria sentir as mãos dele que sempre tocava no caminho de mesa para tirar do meio da mesa e poder usar o prato sem ter que sujar ou respingar na brancura do enfeite da mesa. E era enfeite; pois, para ele, aquelas coisas só serviam de enfeite; ele dizia que não tinha outra função. Mas logo terminasse sua refeição ele colocava tudo no mesmo lugar. A paciência de sua precisão contradizia sua ideia anterior de que era apenas um enfeite. Não era mais apenas isso. Era o momento exato para que demorássemos mais tempo sobre a mesa; para que eu pudesse falar do trabalho minucioso da renda; para saborear mais um gole de vinho e sua mão repousar sobre a minha. Ainda assim eu podia sentir sua presença e apenas o fato de fitar aquela mesa posta para um, me fazia pensar numa razão maior para o espaço vazio da casa. E ele não estava ali; então, de nada, adiantava alisar aquela tolha dos desejos. Meus desejos nunca seriam realizados.

Então me levantei pensando no que fazer naquela tarde morna. O vento de antes continuava soprar por toda a casa. Um barulho rondava a casa como voz de alma.  Seguia-me como se pudesse dizer outras coisas que não queria ouvir, assim como se a voz dele procedesse detrás de algum portarretrato, alguma porta; ou mesmo como se fosse um desvio do vento por entre as persianas da janela. Seria apenas o som do vazio perdido no eco de minha voz e a reverberação de meus pensamentos solitários ricocheteando em cada cômodo e retornando como bumerangue mortal; ou pelo menos se transformando numa paranóia doce, daquelas que alimentam a imaginação enquanto a razão se descansa numa praia distante. E não ficava tão longe o mar quando sentávamos na praia, os pés descalços entrelaçados e a água do mar tocava-os ligeiramente no ir e vir da constância de nossa paixão.  A água do mar oscilava na mesma frequencia em que palavras pequenas eram sussurradas ao meu ouvido, numa grande eloquência de poemas de amor. Ficava sobre os braços, as pernas estiradas e suavemente seus lábios se encostavam em minha pele como se quisessem conversar intimamente com cada parte de mim. E a água voltava mais forte; as palavras ficavam mais fortes, intensas e todo meu corpo se desfazia daquele medo de sentir sozinha novamente. Parecia que ele estava ali por perto.

Eu podia senti-lo parado, olhando para o horizonte. A praia deserta e seus pés ainda nus tocando suavemente a praia. Ali, como sempre, com as mãos para trás segurando todo seu corpo, o peito aberto ao sol, sentindo o calor do dia. Estava sozinho. O mar perdido no céu diante dele e um pensamento longínquo deixava-o parado. Não era mais aquele que sussurrava palavras ao ouvido. Continuava em silêncio e, às vezes, sentia que eu não existia naquele momento, como se eu fosse a areia inerte sob seus pés. E eu ficava horas nesse silêncio conjunto, dividido, esperando que ele pudesse se desvencilhar daquele olhar perdido e pudesse voltar a me dizer coisas simples e duradouras. Mas, então, eu voltava para casa e ainda podia sentir toda vida deixada pra trás; ouvia o bater da porta da frente e mais uma vez a sensação de beijos de despedidas. Sentei-me novamente olhando fixamente a renda branca sobre a mesa.

A noite já se avizinhava com o sol se despedindo por sobre os prédios lá de fora. A sombra delicada se apropriava das coisas e o frio vinha acompanhar aquele início de horas desesperadoras. Achei que ainda dava tempo de ler algum livro da estante da sala. Grande, alta, cheia de livros, porém, nenhum era meu. Detestava ver meu nome na vertical, nos livros emparelhados. Minha mente a contemplar o convite que cada um dava. Para isso tinha que virar a cabeça para o lado, tentando decifrar seus conteúdos. E não queria ver meu nome. E uma vez que tinha que dobrar a cabeça, que viesse qualquer outro título para aquele início de noite.

A luz se acendia como se ele tivesse chegado. Acendia a luz sentava na poltrona da sala, a qual ficava de frente para a estante. Tirava a roupa e ficava olhando para os livros- quando não trazia um novo entre suas sacolas- escolhia mesmo a distância; levantava-se e pegava o livro mais grosso. Abria-o sem pretensão em qualquer página- já havia lido todos eles-, mas queria sentir de novo aquela leitura, como se fosse nova ou como se pudesse sentir nova ideia sobre o que havia lido no passado. Eu podia vê-lo ali sentando, pés vestidos; as pernas cruzadas e, com vagar, continuava em seu silêncio. Enquanto eu o observava à distância adequada para aquele momento. Eu o entendia bem. Não gostava de interromper aquele status, e às vezes, seu silêncio era minha alegria, pois ele estava lá, e sendo assim meu sono era mais tranquilo. Mas não naquela noite. A luz ainda acesa. Eu procurava por aquele pensamento perdido dele, perdido na leitura. Tentava por vezes invadir seu mundo. Mas nós nos envolvíamos neste mundo insosso do imaginário. Todos os nossos mundos reais estavam de certa maneira relacionados a esse sentimento egoísta de um prazer solitário. E eu podia sentir isso no claro interesse despiciendo que minha presença provocava. Às vezes, por horas ficávamos nesse silêncio mútuo. E com o passar do tempo, esse espaço se aumentava. Como agora se agiganta nossa distância. A luz acesa. A noite fria. Os corpos separados por uma ideia fixa no aprimoramento de uma prática que já se tornara um mister. De nada adiantava esse aprimoramento porque havíamos aprendido bastante. A psicóloga havia falado dessa necessidade em mim latente para a conversa, o diálogo. Eu controlei aquela vontade de tudo falar. Mas agora, restava-me uma mulher menos sôfrega e irrequieta com o silêncio. Podia lidar facilmente com a minha fase calada, mas não suportava lidar com o silêncio dos dois. Principalmente, não sabia lidar com esse jogo de esconde-esconde.

Onde ele estava agora?- era a pergunta mais frequente que me fazia esses dias. Agora, restava este grande espaço de memórias; cheiros e fantasmas. Podia ver as crianças correndo pela escada; as prateleiras cheias de portarretratos; o barulho da água enchendo a piscina; o abre e fecha da geladeira; o videogame ligado; as rolhas compiladas na enorme taça de vinhos; a porta do guarda-roupa aberta; a mesa ainda cheia de pratos. E eis que a sala se esvaziava de som. Todas as luzes se apagavam à medida que a poeira da atmosfera abafada da casa se acalmava. E a noite me abraçava nua. Já não sabia o que fazer com o tempo e me deixei levar por uma espera demorada até que a luz se acendesse e pudesse vê-lo mais uma vez.

Mas a espera não tinha mais razão de ser. Onde residia a sanidade nessa espera. Eu sabia que ele não viria; meu sono não viria. Eu deveria seguir meu caminho. Passaram-se 7anos e continuo aqui, como o pé na mesma pedra de granito, o rosto encostado no canto da porta e a visão de que ele sempre estaria com as costas encostadas no sofá, a tez branca, o olhar fixo na estante; o livro. E quanto a mim? De nada valeria essa espera. Ele sempre vinha na mesma hora. Eu tinha apenas alguns minutos para olhá-lo. Quando ele se juntaria a mim aqui neste limbo insosso; nessa vaguidão das horas? Quando eles e chamariam definitivamente? Eu não sabia nada. Não podia tocá-lo novamente. O que me restaria?

Eu me lembro de suas mãos em meu rosto ensanguentado ; minha voz já longe e o seu rosto ainda a falar palavras inteligíveis. Saí de mim como se fosse alma. Voei para longe mas acabei caindo aqui perto dele, mas em silêncio absoluto, em carne transparente, em forma de vida apartada do corpo. E já não me suportava nessa alma errante. Não poderia mais esperar, senão levar comigo toda a recordação do todo. Deveria escrever a última linha dessa história e parar de dar continuidade a uma história sem emendas. A última parte chegou ao fim, o capítulo final e a moral da história também.

 


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Roberto Muniz Dias é escritor, artista plástico, bacharel em Direito e Licenciado em Letras Português-Inglês.
Escreveu Adeus A Aleto, livro premiado pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves no Concurso Novos Autores de 2009.
Também escreve poesias e assina o blog: http://noposthumousparty.wordpress.com
Nascido em Teresina, atualmente, mora em Brasília.
 




[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]
 
 
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