Materia Obscura

Alcebíades Diniz Miguel


“PK”. BibliOdyssey: Archival Images From the Internet. London: FUEL, 2007, 164p.





Lendo um sítio de uma revista virtual na Internet, podemos ver, através de seus links e matérias, a mais heteróclita das misturas. Na revista de peridiocidade variável Things Magazine, por exemplo, podemos ver em sua edição de 14 de junho de 2008, matérias telegráficas catalogando links para livros sobre arquitetura; mapas de bases militares; artigos jornalísticos sobre a influência da Internet na atual capacidade de leitura; um gerador de publicidade para bandas de punk rock; hipotéticas dicas de sobrevivência caso, por algum motivo, o leitor seja enviado para a Idade Média ou tenha de enfrentar o vácuo espacial. E outras coisas mais, relacionadas ou não ao tema central da revista – que versa, essencialmente, sobre arquitetura, tecnologia, arte e urbanismo –, pois fizemos um rápido resumo, que não abarca todos os links enumerados. A alucinante coletânea citada acima provavelmente agradaria a Jorge Luis Borges, apreciador de listagens arbitrárias e delirantes que, com ironia sistemática, desmontou essas classificações taxonômicas, fruto da estranha compulsão do homem de manter a Natureza e a Cultura dentro de limites apertados e firmemente estabelecidos. A Internet transformada em máquina borgeana, curiosa imagem e metáfora de um universo inexistente fora das telas, discos magnéticos e conexões – mais uma ironia que o escritor argentino autor de contos que antecipam algo do espírito da rede mundial de computadores – é o caso de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, narrativa de como um universo rigoroso ficcional provoca o colapso do sempre não tão rigoroso universo real – perceberia como saborosa.

Mas toda essa atividade de trazer à superfície, de disponibilizar sem custo, no imenso bazar virtual, a liquidação definitiva dos Cultura codificada em produto trouxe aos usuários/consumidores, em grande medida, mais do mesmo. Não que inexista originalidade nos produtos virtuais, ou que tal originalidade devesse ser obrigatória, mas nos sítios e portais mais visitados temos as imagens cotidianas que vemos em nossas televisões e mídias impressas. A capacidade borgeana da Internet, de sacudir a superfície para trazer obscuras formas do fundo, fica portanto neutralizada, e a isso soma-se um agravante: como é muito fácil divulgar os links através de mensagens eletrônicas de diversos meios, a banalidade cotidiana, na Internet, é replicada até o limite da náusea provocada pela repetição. A materialização desse processo torna-se facilmente perceptível na imensa vulgaridade/banalidade que é a essência e objeto do Virtual em boa parte dos casos. É perceptível a importância de um novo Curador, modelo atualizado do Sábio medieval, que realize exatamente o processo de sacudir as bases do frágil universo digital não para destruí-lo, coisa por demais utópica, mas para trazer à tona imagens, significados, textos e idéias diluídos na maçaroca da repetição do Mesmo.

Não por acaso, a introdução desse maravilhoso catálogo do incomum, do irredutível traduzido em imagens que é o livro BibliOdyssey, nascido a partir do blog de mesmo nome, seja um brilhante ataque do artista plástico Dinos Chapman ao Império do Superficial na Internet. Chapman sequer menciona o trabalho do livro e de seu autor, garantindo que deveria ser “um esplêndido esforço”, para lançar um “olhar de alerta” sobre a Internet, “ao menos em parte o assunto” do livro. Pode parecer um paradoxo ou um despropósito, dependendo do ponto de vista, mas o fascinante universo descortinado pelo blog e pelo livro BibliOdyssey é exatamente aquele que testemunhamos diante dos paradoxos irredutíveis, das fusões que desafiam e fascinam a lógica pela arbitrariedade escandalosa de seu artifício – um pouco como a Linguagem ou, pensando em termos mais modestos, a Arte. O blog e o livro são de autoria de uma cifra, um “curador desconhecido” do qual temos esparsas informações e uma assinatura em forma de sigla: “PK”. No universo da celebridade instantânea, no qual usuários do mundo todo abarrotam servidores de fotos e home videos espalhados por links em proporção endêmica, “PK” optou pelo apagamento de sua identidade e pela confusão de seus traços. A radicalização da anonimia dos meios de comunicação de massas, vista muitas vezes como negativa, ganha no peculiar universo de BibliOdyssey o estatuto de uma revolta contra a tirania do fluído e do in-significante, que toma de assalto não apenas na Internet nos dias que correm.

Chegou o momento, portanto, de vermos qual o conteúdo do blog e do livro de “PK”. Não há, aqui, autoria: o autor ocupa, com modéstia mas não humildade fingida, a posição de curador, de divulgador de certo tesouro desprezado pela poeira do tempo em bibliotecas, museus e universidades. A coleta do material e o comentário são atividades copiosas, sistemáticas, complexas – o surgimento de uma visão científica do objeto, e a necessidade de construir para cada imagem um pequeno universo explicativo nos limites do espaço/tempo de leitura da Internet, alargando-o ao máximo. Claro que essa leitura é estimulada pelas imagens escolhidas por esse curador, advindas de fontes digitalizadas dos quatro cantos do mundo: imagens únicas, preciosas, com leves correções de cor ou tonalidade – afinal, um curador sabe não ser um autor, e assume essa condição. Aqui, ilustrações de tratados médicos da época de Montaigne. Ali, imagens de emblemas, com seu misterioso e suave surrealismo, emergindo de tratados específicos em pleno início do Iluminismo. Esplêndidas gravuras de cunho científico sobre as formas da natureza encontradas nos livros do evolucionista Ernst Haeckel. E muito outras imagens e formas obscuras, bizarras, exóticas – Matéria Obscura – emergem a cada página folheada do livro ou link clicado do site. E aqui temos mais um paradoxo: um livro atual que surge a partir de um blog virtual cujo foco são as imagens que causam estranhamento submergidas nos arquivos virtuais e reais renova o catálogo impresso e seus usos, funções e espaço. Influenciado pela Internet, o exercício de ler livro torna-se um folhear não-linear e descontínuo, no qual o prazer está justamente na descoberta repentina de uma imagem misteriosa, como o Oratório Del Fays de Nutka, fantasmagórica representação de um altar indígena na visão de um artista-etnógrafo europeu do século XIX. Entre a imagem e a explicação rigorosa e impessoal de “PK”, nosso curador do obscuro, existe um intervalo, um atraso, no qual nossa imaginação busca ou cria referências ou estabelece hipóteses que reduzam e normalizem nossa estranheza.

O trabalho de “PK”, como todo trabalho de arquivística, busca realizar a utopia de um museu universal e sem fim, que abarque um pequeno ou grande universo de elementos. A Internet fornece o meio ideal para esse projeto, essa – para ficarmos nas metáforas borgeanas – “biblioteca de Babel”, mas o instantâneo desse projeto, que funciona como emblema do projeto e de seu utópico fim, é o livro. Paradoxo final de um blog que documenta uma abstrusa e exótica produção gráfica com esmero científico e paixão agregadora, esse livro com capa dura e ornamentos dourados, produzidos por uma editora na vanguarda tecnológica do design, documenta a paixão definitiva pelo mundo dos livros e dos impressos, das artes em torno desses dois universos que são um só no curto horizonte histórico. A obsolescência desse mundo real declarada tantas vezes pelo mundo virtual pode ser invertida e subvertida, quando pela arte do anacronismo e do paradoxo um peculiar e perigoso – ao menos, sugestivo – mundo de imagens incatalogáveis surge à nossa frente. Essa estranha aventura, essa reedição do sábio medieval como o diletante do século XIX publicando suas reflexões e descobertas através de serviços do Google na Internet, é a aposta e o convite que nos faz “PK”, seja ele quem for, em sua pequena odisséia gráfica impressa.


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Alcebíades Diniz Miguel é doutorando em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (2006), com tese sobre as perplexidades da ficção científica de H. G. Wells.



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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]
 
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