6 poemas de
Heberto Padilla
Tradução de Márcio Freire






poética

Diga a verdade.
Diga, ao menos, sua verdade.
E depois
deixe que qualquer coisa ocorra:
que lhe rasgue a página querida,
que lhe derrube a porta a pedradas,
que o povo
se amontoe diante de seu corpo
como se fosse
um prodígio ou um morto.

poética
Di la verdad.
Di, al menos, tu verdad.
Y después
deja que cualquier cosa ocurra:
que te rompan la página querida,
que te tumben a pedradas la puerta,
que la gente
se amontone delante de tu cuerpo
como si fueras
un prodigio o un muerto.



hábitos

Cada manhã
me levanto, banho-me,
faço correr a água
                          e sempre uma palavra
                          feroz
me surge ao caminhar
inunda a torneira onde meu olhar resvala.

hábitos

Cada mañana
me levanto, me baño,
hago correr el agua
                                  y siempre una palabra
                                  feroz
me sale al paso
inunda el grifo donde mi ojo resbala.



para escrever no álbum de um tirano

Proteja-se dos vacilantes,
porque um dia saberão o que não querem.
Proteja-se dos balbuciantes,
de João o gago, Pedro o mudo,
porque descobrirão um dia sua voz forte.
Proteja-se dos tímidos e dos impressionados,
porque um dia deixarão de colocar-se de pé quando entrares.

para escribir en el álbum de un tirano
           
Protégete de los vacilantes,
porque un día sabrán lo que no quieren.
Protégete de los balbucientes,
de Juan-el-gago, Pedro-el-mudo,
porque descubrirán un día su voz fuerte.
Protégete de los tímidos y los apabullados,
porque un día dejarán de ponerse de pie cuando entres.



o único poema

Entre a realidade e o impossível
bamboleia-se o único poema. Retenho-o
com as mãos, ou com as unhas, ou com os olhos
(se é que se pode) ou a respiração ansiosa.
Dotá-lo, com paciência, de seu amor
(que ele vive só entre as coisas).
Dá-lo rejeições a vencer
e outra exigência
muito maior que um limite,
que um gozo.
Que o descubra destro, porque é ágil;
com os ouvidos alertas, porque é surdo;
com os olhos bastante abertos, porque é cego. 

el único poema          

Entre la realidad y el imposible
se bambolea el único poema. Retenlo
con las manos, o con las uñas, o con los ojos
(si es que puedes) o la respiración ansiosa.
Dótalo, con paciencia, de tu amor
(que él vive solo entre las cosas).
Dale rechazos que vencer
y otra exigencia
mucho mayor que un límite,
que un goce.
Que te descubra diestro, porque es ágil;
con los oídos alertas, porque es sordo;
con los ojos muy abiertos, porque es ciego.



estado de sítio

Por que esses pássaros estão cantando
se o milhafre e a raposa se fizeram donos da situação
e estão pedindo silêncio?

Muito rápido o guarda florestal terá que se dar conta
senão será muito tarde.

As crianças não souberam manter o segredo de seus pais
e o lugar em que se escondia a família
foi descoberto antes do cantar do galo.

Ditosos os que olham com pedras
mais eloquente que uma pedra, porque os dias são terríveis.

A vida há que vivê-la nos refúgios,
debaixo da terra.
As insígnias mais belas que desenhamos nos cadernos
escolares sempre conduzem à morte.
E a coragem, o que é sem uma metralhadora?
   


estado de sitio

¿Por qré están esos pájaros cantando
si el milano y la zorra se han hecho dueños de la situación
y están pidiendo silencio?
Muy pronto el guardabosques tendrá que darse cuenta,
pero será muy tarde.
Los niños no supieron mantener el secreto de sus padres
y el sitio en que se ocultaba la familia
fue descubierto en menos de lo que canta un gallo.
Dichosos los que miran como piedras,
más elocuentes que una piedra, porque la época es terrible.
La vida hay que vivirla en los refugios,
debajo de la tierra.
Las insignias más bellas que dibujamos en los cuadernos
escolares siempre conducen a la muerte.
Y el coraje, ¿qué es sin una ametralladora?


arte e ofício
                    Aos censores

Passaram a vida desenhando um patíbulo
que recobrasse – depois de cada execução –
sua inocência perdida.
E apareceu o patíbulo,
destro como um operário idoso.
Um milhão de cabeças toda noite!
E no outro dia mais inocente
que um condutor na estação de trem,
verdugo e com tarefas de poeta.


arte y oficio
             A los censores
Se pasaron la vida diseñando un patíbulo
que recobrase —después de cada ejecución¬—
su inocencia perdida.
Y apareció el patíbulo,
diestro como un obrero de avanzada.
¡Un millón de cabezas cada noche!>
Y al otro día más inocente
que un conductor en la estación de trenes,>
verdugo y con tareas de poeta.




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Heberto Padilla é um poeta, prosador e tradutor cubano, nascido em Puerta del Golpe em 1932 e falecido nos Estados Unidos em 2000. Em 1968, publica o livro Fora de jogo, que recebe o Prêmio Nacional de Poesia Julián del Casal, com poemas marcadamente políticos e com severas críticas ao regime cubano. Censurado pelas autoridades, o poeta é levado ao constrangimento de uma vexatória reparação pública. Recebe o apoio de intelectuais cubanos exilados e de intelectuais estrangeiros. De todo esse imbróglio origina-se o “Caso Padilla” que tem enorme repercussão na Europa e nos Estados Unidos. Da publicação do livro e de seus desdobramentos resultam seus problemas com o governo cubano, a prisão e o posterior exílio, a partir de 1980, nos Estados Unidos. O poeta é autor de outros livros de poesia, como Em meu jardim caminham os herois, Justo tempo humano, Provocações.


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Márcio Freire é doutorando em Letras - UNESP.



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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010] 
 
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