ensaio

 

Segregação e gozo em Ensaio sobre a cegueira

Heloisa Caldas

 

 

 

Além de prestar mais uma homenagem póstuma a José Saramago, autor que tanto se distinguiu em nossa época pela análise poética e perspicaz do humano, o objetivo desse trabalho pretende uma articulação entre seu romance Ensaio sobre a cegueira[1] e a questão da segregação, segundo uma leitura psicanalítica lacaniana.

A obra de Saramago foi visivelmente dedicada aos problemas de nossos tempos. Seus romances tocam questões cruciais convidando-nos ao despertar e não ao sono. Ensaio sobre a cegueira, bastante divulgado pela sua adaptação ao cinema, sob direção de Fernando Meirelles, é um romance exemplar por denunciar as formas contemporâneas de mal-estar e permitir tratar aspectos que destacam a segregação em seus paradoxos.

Isolamos dois desses aspectos sob o ponto de vista da psicanálise. Primeiramente, o olhar como campo primordial para a identificação constitutiva do eu; em segundo lugar, a segregação como o efeito da identificação na qual se procura extirpar o gozo mortífero do próprio corpo atribuindo-o, pela sua radical alteridade, ao Outro. De fato, o gozo do mal é experimentado como estrangeiro. Sua localização subjetiva topológica o coloca em uma relação êxtima: o gozo mais íntimo é subjetivado como externo. Logo o gozo é Outro para cada um, em si mesmo[2].

 

O olhar que não pode ver

Como ponto de partida desse romance, Saramago propõe uma estranha cegueira que, subitamente, acomete um sujeito ao retornar do trabalho. Trata-se de uma cegueira que impede a visão pelo excesso de luz; uma espécie de mancha leitosa que ofusca e impede o olhar.

O autor nos coloca assim diante da condição humana de desamparo que percorrerá todo o romance tecendo um campo escópico no qual, simultâneo à privação dos personagens da visão, o leitor é capturado e obrigado a um olhar ácido, por vezes incômodo, que focaliza a violência e a estupidez humanas. A cegueira funciona assim como a castração para o sujeito, tanto personagem como leitor. A estranha luz que a todos vai cegando vai, também, transformando o mais familiar em assustador e sinistro. Na base de todas as referências que sustentam o arcabouço simbólico e representativo de cada sujeito, irrompe uma aterrorizadora estranheza, como a denunciar o caráter falso de toda significação. Saramago nos convida a entrar nessa história lembrando-nos a fragilidade de nossa condição, como Freud assinala em seu artigo O estranho:

 

Sabemos, pela experiência psicanalítica, que o medo de ferir ou perder os olhos é um dos mais terríveis temores das crianças. [...] O estudo dos sonhos, das fantasias e dos mitos ensinou-nos que a angústia em relação aos próprios olhos, o medo de ficar cego, é muitas vezes um substituto do temor de ser castrado[3].

 

Assim como Freud ressalta o caráter paradoxal do termo alemão unheimlich aquilo que é tanto conhecido como enigmático –, Saramago assinala, nessa cegueira, a excessiva luminosidade, o brilho que ofusca. Da mesma forma, tudo o que havia de mais cotidiano na vida desses novos cegos demanda novo enquadre, deixa de ser hábito para se configurar como problema ou adversidade.

 

O que é um olhar?

 “Não é fácil de definir o que é um olhar”[4], comenta Lacan. A partir do que já se insinuava nas indicações de Freud sobre o circuito escópico da pulsão no voyeurismo e no exibicionismo[5], ele vai distinguir o olhar do olho e da função visual orgânica. Não se confundindo com o visível, nem com a função visual, o olhar, para Lacan, é um objeto de gozo[6]. Para promover essa distinção entre olhar e visão, ele destaca uma função que denomina de mancha.

A mancha indica o limite do saber no olhar. Olha-se e até certo ponto o tratamento do significante é elucidativo. No entanto, além do que se sabe e se pode traduzir em significantes há outra coisa, há o gozo. Nessa fronteira daquilo que a imagem e o simbólico dão a ver, situa-se, então, a mancha. Litoral entre o saber da linguagem e o gozo que se experimenta, ela revela o ponto de castração no qual o olhar se constitui como objeto a. O objeto a é paradoxal: ele atrai, seduz, reveste algo de valor. Após sua serventia, porém, ele não serve para mais nada. Passa a ser resto, lixo.

O ponto de aparição da mancha depende do corte significante traumático para cada sujeito. Uns podem sustentar mais o olhar, outros menos. A mancha é, conseqüentemente, correlata àquilo que, como objeto, depende da determinação do sujeito. O olhar vai até onde o sujeito o suporta. Essa reciprocidade entre o sujeito do olhar e o objeto olhar indica a subordinação de ambos a uma identificação, que governa o olhar de tal forma que, longe de assegurar a possibilidade da visão, ela é justamente o que impede sua realização. Para alguns, por exemplo, a imagem do sangue, impede que se continue a olhar. Há até os que desmaiam devido ao impacto traumático que olhar o sangue desencadeia.

 

O campo escópico da identificação

O olhar situa-se em um campo privilegiado da operação de identificação. No especular forma-se a imagem primordial do eu, dada por seu reflexo no campo do Outro. Além dessa faceta imaginária, o olhar submete-se na identificação às coordenadas simbólicas do Outro. Pela identificação a um traço forma-se o Ideal do Eu a partir do qual o Eu deseja seja visto pelo Outro como amável. Quando do desejo passa-se à exigência de um ideal, o supereu toma o comando da situação. Vociferador e vigilante, ele não descansa em zelar por uma identificação inequívoca ao preço de afastar, de forma peremptória toda dúvida subjetiva. Nessa operação o ódio faz mancha.

É o gozo desse ódio o que encontramos, então, no cerne do processo de segregação, na contra face do processo de identificação. É preciso não deixar de ter isso em mente. Quanto mais alguém se identifica com X, mais odeia e se coloca contra Y. Para aplicar os significantes da genética atual a uma das mais antigas formas de segregação: a sexual. E muito dessa identificação/segregação se dá nas primeiras impressões, à primeira vista. A cor da pele, um traço racial característico, um sotaque, a maneira de vestir, a forma de falar, os gestos indicadores de origem e classe social, são esses os pequenos detalhes que desencadeiam, quase que de imediato e em suas mais variadas nuances, tanto o amor como o ódio.

A identificação leva assim um sujeito a segregar as formas de gozo que não estejam reguladas em seu protocolo ideal. Entenda-se ainda que tal protocolo pretenda banir formas de gozo que ele inclusive experimenta, mas não subjetiva como suas. Esse é o maior paradoxo. Elas restam como gozo Outro. Logo o sujeito as odeia mais ainda, nos outros. Para a psicanálise lacaniana, esse gozo Outro, excessivo e rebelde ao protocolo do falo, constitui o feminino.

 

A segregação

No romance de Saramago, como a cegueira demonstra ser contagiosa, os contaminado são encaminhados a um hospital para serem lá abandonados, pois ninguém que ainda enxergava queria se aproximar deles. O que a princípio devia ser uma quarentena, por precaução médica, transforma-se rapidamente em segregação movida pelo medo e repulsão. O mundo divide-se entre os cegos e os que ainda vêem. Os cegos ficam a mercê de si mesmos para decidirem como se instalar nos leitos das enfermarias, como encontrar os banheiros, como desempacotar e distribuir a comida que lhes era entregue diariamente, com rituais de precaução que evitavam a aproximação. Em poucos dias a falta regular de limpeza e higiene transforma o ambiente em um grotesco espaço fétido. Rapidamente passa-se à luta pelo bocado de comida; formam-se grupos que procuram liderar e monopolizar o acesso às caixas de mantimentos largadas no pátio; os cegos mais fortes e sequiosos decidem cobrar dos demais pela comida; dá-se início a um comércio bizarro de relógios, cordões, moedas, carteiras, enfim os pertences pessoais que cada um trazia consigo quando se contagiara. Por fim, chega-se ao abuso sexual propriamente dito e as mulheres começam a ser violentadas. Há lutas, feridos e, entre outros tantos crimes, há morte - por recreio e por defesa.  

Enquanto a segregação se dá entre os ainda não contaminados em relação aos contaminados ficamos propensos, como leitores, a cair na armadilha de nos apiedar dos pobres cegos, deixados à mercê de sua sorte. Responsabilizamos o Estado que pouco pode fazer e parece não demonstrar interesse, a medicina que não consegue atinar com tão inusitada forma de cegueira, enfim buscamos em figuras intangíveis do Outro social a quem se possa atribuir a responsabilidade e a culpa pelo fracasso. No entanto, quando entre os próprios cegos, os mesmos que a princípio formaram grupos e se solidarizaram na falta, surgem quadrilhas para explorar e abusar, começamos a tocar no que Freud é levado a teorizar a partir do momento em que postula a pulsão de morte - o mal-estar de estrutura que encontramos em todo o tecido cultural. 

Não se trata de uma segregação que possa ser eficiente em erradicar seja lá qual for o traço identificado como nocivo. O traço nocivo não é passível de ser expulso, ele é intrínseco à condição humana. Faz parte da constituição do sujeito a extração do objeto pela via do prazer e do abjeto pelo que o real não se presta à domesticação. Nesse sentido uma ética subjetiva implica em prescindir dos engodos narcisistas que pretendem situar o bem e mal em relação excludente e que, consequentemente, fomentam a fantasia da segregação do mal.

 

O feminino

Para concluir, trago ainda uma consideração sobre a questão do feminino. Em Ensaio sobre a cegueira, Saramago insere uma única pessoa, dentre os contaminados, que não perde a visão. Trata-se da mulher de um médico que se finge de cega como os demais para poder acompanhar o marido na quarentena. Pelo olhar dessa personagem podemos ver o que se passa em todos esses processos de desamparo, segregação, crueldade e barbárie. Como sabemos a norma tende a ser, na cultural dominante do planeta, o masculino, o fálico, o adulto, o branco, o europeu. Podemos criar novas. Mas toda norma opera como critério de segregação. Ela será mais segregadora quanto maior for sua exigência.

Essa personagem feminina que o autor nos apresenta permite, nesse romance, outra localização para o estranho. O feminino, de fato, pode ser pensado como diferença, alteridade; como Outro sexo, outro modo de gozo, outra raça, outro país, outra língua. O feminino é o Outro que se opõe ao mesmo, resiste ao um da norma, faz objeção ao todo e se contrapõe a ordem dominante.  Ele pode ser pensado também como o olhar que permite avançar o limite que a mancha traça; um olhar que, por suportar melhor o real, é capaz de levar o trabalho significante adiante ao redor do furo de saber sobre o humano, o sexo e a morte.

 

 

 

Heloísa Caldas é psicanalista. Membro da Associação Mundial de Psicanálise – AMP;  e da Escola Brasileira de Psicanálise – EBP. Profª. Adjunta do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise – UERJ. Editora de Opção Lacaniana online nova sériewww.opcaolacaniana.com.br

 

 

[1] Saramago, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

[2] Miller, J.-A. Extimidad. Os cursos psicanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2010.

[3] Freud, S., O estranho, (1919), ESB, Vol. XVII, Rio de Janeiro, Imago, 1969, p.289.

[4] Lacan, J. O seminário, livro 16: de um Outro ao outro (1968-1969). Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2008, p. 245.

[5] Freud, S. “Os instintos e suas vicissitudes” (1915). Obras psicológicas completas. Edição Standard Brasileira, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

[6] Lacan, J. (1964) O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1988 pp. 69-78.

 

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 8 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2011]

 

 

 
 
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