ensaio

Coquetel de Abricó[1]

Carlos Felipe Moisés

 

 

 

1

Meu interesse por Existencialismo poderia remontar à infância, embora eu então igno­rasse não só o nome da coisa, como tudo o mais. Início dos anos 50, meu primeiro baile de Carnaval. Sur­pre­endeu-me a animação invulgar com que as pessoas cantavam certa marchinha, que eu desco­nhecia. Atraiu-me sobretudo uma passagem enigmática, que às vezes soava “existe e se alista”, às vezes “existe sem a lista”, eu não conseguia en­tender. Mas entendia bem a aura de debo­che e atre­vimento que pairava no ar. Os car­navais daquele tempo eram extremamente pudicos, mas a mar­chinha não deixava dúvidas quanto a estar lidando com matéria proibida. Falava de uma tal Chi­quita Ba­cana, que não usava vestido nem calção, vestia-se com uma casca de banana e – pro­messa de liberdades infinitas! – só fazia o que o coração mandava.

Soube depois que a marcha é de Alberto Ribeiro e João de Barro, o Braguinha, e fez su­cesso anos a fio, desde 1949, quando foi gravada pela primeira vez por Emilinha Borba. A passa­gem enigmática dizia simplesmente “existencialista”:

 

Chiquita bacana
lá da Martinica
se veste co’uma casca
de banana nanica.

 

Não usa vestido, oi,
não usa calção,
inverno pra ela
é pleno verão.

 

Existencialista
com toda a razão,
só faz o que manda
o seu coração.

 

Só bem mais tarde ocorreu-me associá-la ao filósofo, romancista, contista, tea­tró­logo e ati­vista político Jean-Paul Sartre, que eu tinha aprendido a admirar, já nos anos de faculdade, a partir de romances como A náusea, passando depois pelos con­tos, pelo teatro, pelo ensaio famoso sobre Baudelaire, os textos de divulgação filo­sófica, como O Existencialismo é um Humanismo, os textos mais densos como O ser e o nada, ou a obra que marcou mais de uma geração, Que é a literatura?

Sartre andou pelo Brasil no início dos anos 60, mas, que eu saiba, ninguém se lembrou de lhe apresentar a musa tropical do Existencialismo, a nossa Chiquita Baca­na. Teria sido, creio, um encontro memorável. O Existencialismo teve sua musa pari­siense, a cantora e atriz Juliette Greco (um de seus sucessos, nos anos 50, foi a canção “Déshabillez-moi”, “Dispam-me”, que os adolescentes de então ouviam, diga­mos, em transe), mas a nossa Chiquita teria ido mais dire­tamente ao ponto.

Guiar-se pelo coração, como apregoa a marchinha, tem que ver com a “auten­ti­cidade”, a ideia da existência como jogo limpo, sem trapaças, ideal buscado pela mai­oria das personagens sar­trianas, e por ele próprio, enquanto intelectual comprometido com as causas do seu tempo; abdi­car de vestido e calção remete ao sentido pro­fundo da “liberdade” com que o indivíduo autêntico assume e usa o seu próprio corpo, ligan­do pouca ou nenhuma importância aos preconceitos de or­dem moral. Chiquita é irre­verente, insubmissa, revolucionária. Anuncia uma nova moral, uma nova ordem de coi­sas, não por meio de doutrinas complicadas, mas do exemplo. E, acima de tudo, não abre mão da capacidade de raciocinar e refletir; suas atitudes são determinadas pela consciência: ela é existencialista “com toda a razão”.

Durante muito tempo, “existencialista” foi sinônimo de moderno e avançado. Mais (ou menos?) do que uma “filosofia”, foi um estilo de vida, e virou moda. Em vá­rias partes do mundo, as pessoas, antes de tomar suas decisões, ficavam à espera do que Sartre e companheiros diriam. No caso de Que é a literatura? (a primeira edição em livro é de 1948), Sartre defende o princípio da responsabilidade social do escritor, isto é, o escritor como cidadão consciente e participante, que põe o seu talento a ser­viço das aspirações comuns a toda a sociedade, e muita literatura passou a ser produ­zida, em todo o mundo, para atender aos preceitos do pensador francês.

Há muito, o Existencialismo deixou de ser moda, ninguém mais se lembra de Ju­liette Gre­co ou de Chiquita Bacana. O modelo internacional de “boêmio respon­sável”, que Sartre exibiu pelas vitrinas do mundo durante cerca de três décadas, pa­rece que não tem mais o mesmo poder de sedu­ção.

Algo se perdeu?

 

 

2

O ano, 1932. O cenário, uma das mesas do Bec de Gaz, discreto café de Montparnasse, bairro de Paris, frequentado por intelectuais, escritores e boêmios em geral. Três jo­vens na faixa dos vinte e poucos (Raymond Aron, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre), estudantes de filo­sofia formados havia pouco, reúnem-se ali, em torno dos seus cálices de coquetel de abricó, espe­cialidade da casa, e discutem madrugada afora os destinos do mundo. Recém-chegado de Berlim, onde pas­sara o ano estudando feno­menologia com Ed­mund Husserl, Raymond a certa altura empu­nha o seu cálice e, en­tu­siasmado, dirige-se a Jean-Paul: “Veja só, meu amigo. Se você for fenome­no­logista, poderá falar deste coquetel e fará filosofia”.

Alguns anos depois, começa a chegar uma leva de curiosos e turistas, obrigando os fre­quen­tadores habituais a trocar o Bec de Gaz pelo Le Flore e depois pelo Coupole. Mas a cena que celebra o casamento da fenomenologia com o coquetel de abricó será gravada para a posteridade por Simone de Beauvoir, uns anos mais tarde, em um de seus livros de memórias. Ela esclarece que Jean-Paul ficou pálido de emoção, pois o que Raymond anunciava, com tanta simplicidade, era exa­tamente o que o amigo vinha buscando, havia anos: falar das coisas como se as tocasse, e ainda assim fazer filosofia. Estava nascendo aí, do encontro entre a inquietude de Jean-Paul e o método fenome­nológico de Husserl, uma das mais controvertidas correntes filosóficas do século xx, o Exis­tencialismo, em sua versão francesa.

A inquietude de Sartre, partilhada pelos companheiros de geração (além de Si­mone e Raymond: George Pulitzer, Paul Nizan, Maurice Merleau-Ponti, Jean Hyppo­lite e outros), decorria da frustração que quase todos sentiam em relação à filosofia con­servadora que lhes tinha sido ensi­nada na École Normale Supérieure, de Paris, uma das mais prestigiadas de toda a Europa, à qual Nizan se referia como “dita normal e pre­ten­samente superior”. Sartre não aceitava que a filosofia devesse limitar-se à espe­culação meramente abstrata, alheia aos fatos da vida, às circunstâncias his­tóricas em redor. Do ponto de vista teórico, o grupo se debatia com o impasse clássico entre rea­lismo e idealismo.

Para os adeptos do primeiro, a realidade é a soma de dados objetivos, que têm existência autônoma, independente do sujeito que os observa; já para os idealistas, a realidade é a somatória dos conteúdos da consciência, isto é, as “essências”, que o su­jeito apreende por trás da “aparência” objetiva das coisas. Sartre não se conformava em ter de optar por uma dessas posições: nenhuma o satisfazia. Ele “sabia” que devia existir uma saída, uma terceira via, e foi encontrá-la na fenomeno­logia de Husserl, se­gundo a qual “toda consciência é consciência de alguma coisa”. A fórmula revela­dora chamou a atenção do jovem Sartre para a possibilidade de superar o dualismo real x ideal, conciliando aparência e essência. Para Husserl, a realidade não deve ser en­ten­dida só como dados objetivos nem só como conteúdos da consciência, mas como fenô­menos. O ato de conhe­ci­mento vem a ser, então, o aproximar-se intencional­mente de cada fenômeno, tal como este apa­rece para a consciência, e tentar descre­vê-lo em sua singularidade. A fenomenologia é um método essen­cialmente descritivo.

No caso da cena lembrada por Simone, Sartre – coquetel de abricó na mão –  de­ve­­ria indagar: o que torna este cálice um objeto singular, único, distinto dos demais fenômenos que me rodeiam, in­cluindo todos os outros cálices? De acordo com o mé­todo proposto por Husserl, Sartre deveria colocar “entre parênteses” o seu cálice, ou qualquer outro fenômeno que estivesse interessado em conhecer, a fim de que os as­pec­tos acidentais fossem deixados de lado e sua essência, ou seu “ei­dos”, se revelasse em plenitude, como ensinava a “redução eidética” do método husserliano.

Sartre, é claro, não tencionava passar o resto da vida reunido com os amigos em mesas de bar, analisando fenomenologicamente objetos como um cálice, uma garrafa ou um maço de cigar­ros. No entanto, o Existencialismo ganhou desde o início uma acen­tuada aura boêmia. Os mais con­servadores consideravam-no uma “desculpa” pseu­­­dofilosófica para beber e passar as noites jogando conversa fora, em ambientes enfumaçados e pretensamente rebeldes. Na altura da Segunda Guerra (1938-1945), a fama do Existencialismo já se espalhara, e o movimento era visto mais como estilo de vida do que como filosofia, um estilo anticonvencional, adotado pelas pessoas como for­ma os­ten­siva de contestação da moral burguesa, dos valores vigentes, de todo o sistema. Mas o que Sartre tinha em mente era mais ambicioso: compreender o mundo em redor; investigar, por exemplo, as causas e as razões possíveis da crise que se aba­teu sobre a Europa, em seguida à guerra. Mais do que compreender, ele pre­tendia in­terferir na realidade, dar sua contribuição para que o destino da sociedade não ficasse entregue ao capricho dos governantes e aos interesses imperialistas das gran­des po­tên­cias, sempre ávidas de mais lucro e mais poder, indiferentes aos anseios da socie­dade como um todo.

Desde a juventude, ele tinha sido um ativista radical, simpatizante do movimento anar­quista, à procura de novos rumos para uma sociedade que ele considerava deca­dente e esgotada. Por isso encaminhou-se para a filosofia, certo de ali poder encontrar pelo menos os sinais que lhe indi­cassem onde procurar esses novos rumos. E logo decepcionou-se, vindo a adquirir funda aversão à ideia do “filósofo de gabinete”, que a École Normale tentava impor a seus alunos. O que ele alme­java era ser um filósofo do seu tempo, empenhado nas questões concretas da sociedade; sua ambi­ção era uma filosofia que ajudasse a melhorar a qualidade de vida das pessoas, tornando-as mais conscientes, mais livres e mais humanas, e não uma disciplina acadêmica, voltada a es­peculações meramente teóricas.

E o tempo vivido por Sartre, desde a juventude, nos anos 20, até a morte, em 1980, foi um tempo dos mais conturbados, marcado sobretudo por guerras, revolu­ções e desastres coletivos, cujos intervalos não passavam de pausas breves, durante as quais rondava a ameaça de mais de­sastres e mais guerras. Ainda que tivesse mudado de ideia, teria sido praticamente impossível para ele ficar trancado num gabinete. Seu tempo foi um tempo de lutas e ele desde cedo entendeu que seu papel, como inte­lectual, era o de um lutador e não o de alguém que observa à distância. Mas an­tes de ir à luta era preciso munir-se do instrumental teórico necessário, construir os funda­mentos filosóficos que servissem de base à sua atuação como intelectual participante.

Por isso os anos dedicados ao estudo de Husserl e da fenomenologia, assim co­mo à onto­logia existencial de Martin Heidegger, outro pensador alemão, em quem Sar­tre encontra estimu­lantes análises de temas como o vazio, o nada, a angústia, e a mor­te – esta encarada como a única cer­teza que acompanha o ser humano, em meio ao absurdo da existência. Sartre encontra em Hei­degger a confirmação do seu ate­ísmo, e a ideia de que o mundo sem Deus é um mundo sem sentido.

Dessa forma, a missão do filósofo, o filósofo prático que Sartre ambicionava ser, consistia em denunciar as falsas verdades e a hipocrisia com que as pessoas se iludem, buscando fugir aos compromissos da consciência. Um tema caro, a Sartre e a Heide­g­ger, é o da “inauten­ti­cidade”, característica do homem superficial, que não assume a sua condição de ser livre, e res­pon­sável. (Para Sartre, o homem está conde­nado a ser livre.) Em seguida, o propósito é colaborar para a construção de um novo sentido para este mundo esvaziado de sentido. Com isso em mente, Sartre participou com grande empenho, até pouco antes de morrer, em 1980, de todos os magnos acon­te­cimentos do seu tempo, no plano nacional e internacional. Mais de meio século de atuação exem­plar, sobre um período dos mais conturbados da história contempo­râ­nea.

 

 

3

Foi em meio ao cenário desolador da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) que Sartre fez sua educação básica e formou seu espírito pacifista, amante da liberdade, em que entrou boa par­cela da apreensão e do ceticismo que tomaram conta das consciências nesses anos. Em 1932, en­quan­to Sartre e Aron se interessavam por fenomenologia, reiniciava-se na Alemanha a escalada ar­mamentista, com a ascensão de Hitler e do par­tido nazista. Mais cedo do que os mais pessimistas poderiam esperar, a Europa é assolada por outra guerra, que se estende até 1945. O poder de des­truição, dessa vez, será muito maior: calcula-se em mais de 40 milhões o número de mortos – oito mi­lhões de chineses (desde a guerra com o Japão), seis milhões de judeus, cinco milhões de po­lo­neses, quatro milhões e quinhentos mil alemães, dois milhões de japoneses, um milhão e meio de iugoslavos e assim por diante.

Chamado a servir, em 1939, Sartre engaja-se no exército como meteorologista, achando que a guerra seria de curta duração. (Quando teve conhecimento do pacto germano-soviético, logo após a invasão da Polônia, anotou num caderno: “Eis-me cura­do do socialismo, se tal era neces­sá­rio”.) Em 1940, é capturado pelos alemães, em Padoux, na Lorena, nordeste da França, e em se­guida é levado para um campo de con­centração, em Trèves ou Trier, já em território alemão, onde permanece quase um ano, detido. Ocupa o tempo estudando Heidegger, realizando montagens tea­trais com os demais prisioneiros e tramando a evasão. Falsifica seus documentos, faz-se passar por civil e, alegando problemas de saúde, consegue libertar-se, em 1941, retornando a Paris.

Logo depois, em novembro de 1942, Sartre e compatriotas começarão a viver uma expe­riência dramática: o exército alemão avança, Paris é ocupada, o país inteiro é submetido ao poder nazista. Os franceses não têm como defender-se e dividem-se. Par­te da população acompanha o pre­sidente Laval e o general Pétain, que formam o governo de Vichy, disposto a colaborar com os in­va­sores. Outra parte ingressa na clan­destinidade, como De Gaulle, que se exila na Inglaterra, e tenta organizar a Resis­tên­cia, passando a lutar ao mesmo tempo contra os alemães e contra os franceses co­la­­boracionistas. A ocupação alemã se prolonga até 1944, quando os aliados invadem a Nor­man­dia e forçam a rendição do exército nazista.

Esse período será de intensa atividade para Sartre: encena várias peças de su­cesso, publica o primeiro volume da trilogia de romances Os caminhos da liberdade, começa a escrever sua obra má­xima, no terreno filosófico, O ser e o nada, publicada em 1944, e em 1945 sai o primeiro número da revista idealizada e dirigida por ele, Les temps modernes. Toda essa produção, direta ou indireta­mente, tem o caráter de lite­ratura de combate e denúncia, a sua colaboração à Resistência.

Logo depois da guerra, ele começa a publicar uma série de ensaios e textos va­riados, sob o título geral Situations, cujo segundo volume, de 1948, contém um único e longo ensaio (que já tinha sido divulgado no ano anterior, em edições sucessivas da revista Les temps modernes), Que é a li­teratura?, em que ele sistematiza a concepção de literatura engajada que vinha pondo em prática fazia anos. O ensaio resulta da necessidade que Sartre sentiu de esclarecer seus pontos de vista e, ao mesmo tempo, responde a uma série de ataques que suas ideias e atitudes vinham suscitando. Em linhas gerais, o livro faz um diagnóstico apaixonado da situação do escritor em tempos de guerra, isto é, tempos em que os mais caros ideais humanos se veem seriamente ameaçados.

Terminada a guerra, já se anuncia a divisão de Berlim em dois setores, o oriental e o oci­dental, separados por um muro, e em seguida instala-se o que veio a chamar-se “Cortina de Ferro”, linha imaginária que passou a separar a União Soviética do bloco ocidental. Tem início a “Guerra Fria”, que força o mundo todo a optar entre socialismo e capitalismo, como esferas polarizadas e excludentes. Em 1949, tinha sido implantado na China o regime comunista, com apoio da urss. Mas em 1960, Mao Tsé-Tung, ho­mem forte do regime, rompe com a União Soviética, a cujos diri­gentes acusa de “revi­sionismo”, e em 1966 desencadeia a chamada Revolução Cultural, que radica­liza as diretrizes do comunismo de linha soviética. O movimento repercute em todo o mundo, ofere­cendo às esquerdas internacionais uma nova alternativa, o maoísmo.

Tendo optado pela participação política, desde o final da Segunda Guerra, Sartre vai-se empenhar, com estrita coerência, em praticamente todos esses acontecimentos, a fim de pôr em prá­tica a função do escritor, tal como a definira em Que é a litera­tura?, procurando manter-se sempre na crista da atualidade, em escala mundial. A imprensa internacional divulgou com destaque, por exemplo, o apoio que ele fez ques­tão de dar pessoalmente, em fevereiro de 1960, a Fidel Castro, em Havana, de onde enviou ao France-Soir uma entusiasmada reportagem sobre a revolução cubana. O escritor repetiu a dose em março de 1975, locomovendo-se a Lisboa, a fim de hipo­tecar solidarie­dade ao mfa, Movimento das Forças Armadas, que menos de um ano antes tinha dado fim à ditadura salazarista em Portugal. Mas nessa altura a imprensa já não deu ao gesto o mesmo des­taque, ou porque considerou a revolução dos Cravos menos relevante que a cubana, no plano inter­nacional, ou porque o prestígio de Sar­tre, que vinha declinando desde a rebelião estudantil de maio de 1968, já não era o mesmo.

No final dos anos 60, a Guerra Fria já dava mostras de esgotamento; o império soviético começava a ruir, com sinais ostensivos da crise econômica e política que vi­nha se desenrolando in­ter­namente desde a invasão da Hungria pelo exército verme­lho, em 1956, operação que se repete na Checoslováquia, em 1968, e vai repetir-se, mais tarde, em vários outros enclaves da ex-urss. Na­quela época, a opinião mundial começou a libertar-se do jogo maniqueísta a que fôra habituada por mais de duas décadas; as pessoas não se sentiam mais obrigadas a alinhar-se, imediata e resoluta­mente, à esquerda ou à direita. O xadrez político foi-se tornando cada vez mais com­plexo e globali­zado, cada vez menos ideologizado, pondo em questão as posições de­fendidas por Sartre em sua concepção do escritor engajado.

Tendo morrido em 1980, ele não chegou a presenciar o desfecho do ciclo histó­rico por ele vivido intensamente, um ciclo que ele próprio ajudou a consubs­tanciar, com sua obra e seu exemplo pessoal, e de que chegou a ser uma das figuras mais re­pre­sentativas. Em 1989 é derrubado o muro de Berlim e já não faz mais sentido falar-se em Guerra Fria; o mundo não está mais dividido em dois blocos monolíticos; a Cortina de Ferro – todo um estilo de época – passa a ser coisa do passado.

 

 

4

No dia 22 de abril de 1980 The Boston Globe anunciava, na primeira página, o fale­ci­mento de Sartre. A notícia, breve, remetia para matéria específica, no segundo ca­derno, sob o título “A creator of our times”, de evi­dente sentido duplo: Sartre foi um cria­dor nos nossos tempos, ou criou esses tempos? O necrológio repetia o que todos sabiam: a infância triste, a juventude agi­tada, a par­ticipação na Resistência, a longa carreira de escritor e ativista polí­tico, com destaque para algumas obras e passagens marcantes. Um registro sóbrio e moderado, en­fim. Por isso surpreende, no fecho do artigo, a explicitação do duplo sentido, resul­tando num dos maiores elogios que Sartre poderia receber: “Sua visão define tão per­feita­mente a sociedade mo­derna que nos vemos forçados a indagar se ele apenas criou uma filosofia para os nossos tempos ou se os nossos tempos foram criados por sua fi­lo­sofia”. Há algum exagero nisso, mas o elogio não é de todo despropositado, e foi emitido por um insuspeito e prestigiado periódico norte-americano.

De fato, a ambição internacionalista parece ter sido a marca registrada da car­reira de Sar­tre. Antes de qualquer outro, ele já nos anos 40 intuiu que a vida moderna logo transformaria o mundo todo numa “aldeia global”, segundo a definição logo de­pois formulada por Marshall Mc­Luhan. Ao mesmo tempo em que se dedica a questões regionais francesas (funda jornais clan­des­tinos, ajuda a criar um Comitê Nacional de Escritores, manifesta-se contra a guerra na Argélia etc.), vai aos poucos estendendo sua atuação para fora da França. O resultado dessa atuação em vários países e em várias frentes é notável. Ainda em 1948, Sartre consegue a proeza de ser atacado ao mesmo tempo pela Igreja Católica (o Santo Ofício coloca toda a sua obra no index) e pelo Par­tido Comunista Soviético, sob a alegação de que As mãos sujas, uma de suas peças teatrais, fazia propaganda hostil à urss. A polarização típica desses tempos de Guerra Fria levava a radicalizar – esquerda ou direita – mas ser simultaneamente ama­do e odiado pelos dois blocos não era para qual­quer um. Sem deixar de ser enraizada­mente francês, mais do que francês, parisiense; mais do que parisiense, um habitante de Montparnasse, Sartre é cada vez mais um cidadão do mundo. Suas peças são tra­duzidas e encenadas em várias partes da Europa, nos Estados Unidos, na América La­tina, e ele continua a ser um crítico implacável tanto da direita quanto da esquerda.

Suas relações com o comunismo foram sempre atribuladas. Em 1948, participou da funda­ção de um novo partido político, o rdr (Ressemblement Démocratique Révo­lu­tionnaire), que pre­tendia reunir as esquerdas socialistas e neutralistas, não-sovié­ti­cas. Simone de Beauvoir, em um de seus livros de memórias, explica que “tratava-se de agrupar todas as forças socialistas não aderidas ao comunismo e de edificar com elas uma Europa independente dos dois blocos”. Mas já no ano seguinte Sartre entra em atrito principalmente com David Rousset, trotskista, e demite-se do par­tido. Em 1952, no entanto, começa a aproximar-se do Partido Comunista Francês e em 1954 faz a primeira de uma série de viagens à Rússia. No mesmo ano é nomeado vice-pre­si­dente da associação França-urss e os comunistas em redor do mundo exultam, certos de que finalmente ele teria ade­rido a Moscou. Mas em 1956 Sartre é dos primeiros a condenar a intervenção soviética na Hungria e em seguida rompe publicamente com o Partido. Tais oscilações, que ele justifica como preser­va­ção de sua independência, pro­vocam uma série de desentendimentos com antigos companheiros, como Raymond Aron, Merleau-Ponti, Albert Camus ou André Malraux. Este último, em 1959, chega a fazer uma grave insinuação: “Eu defrontei-me com a Gestapo. Sartre não. Durante esse pe­ríodo [ocupação nazista, entre 1942 e 1944] ele fazia representar as suas peças em Paris, com o aval da censura alemã”.

O saldo dessa fase de namoro com o pc soviético foi sua adesão ao marxismo, que ele vinha mantendo à distância, desde os tempos de juventude. Tendo publicado em 1957, numa revista polonesa, um artigo sob o título “Existencialismo e marxismo”, Sartre decide avançar na questão, dedicando os anos seguintes à redação de seu úl­timo trabalho filosófico de fôlego, Crítica da razão dialética (1960), uma tentativa de conciliar a filosofia existencial à ideologia marxista. Apesar das idas e vindas, suas posi­ções tendem cada vez mais a se desenhar, a médio e longo prazo, como pró-soviéticas. Seu prestígio internacional chega ao apogeu em 1964, quando a Academia Sueca lhe atri­bui o Prêmio Nobel. O que poderia ter sido a consagração definitiva, transforma-se em escân­dalo. Sartre volta a surpreender e recusa-se a receber o prêmio, alegando que isso lhe tiraria a liber­dade e a independência, interferindo em sua responsabi­li­dade perante os leitores. Em termos de pro­moção (involuntária?), foi um tiro certeiro: nenhum escritor agraciado com o Nobel teve tanto es­paço na imprensa quanto esse “francês excêntrico”, que ganhou e não quis receber.

A partir daí, ao mesmo tempo em que o prestígio começa a declinar, suas ati­tudes de re­beldia passam a ser mais insistentes: para protestar contra a Guerra do Vi­et­nã, recusa um convite da Cornell University para fazer uma série de conferências nos Estados Unidos; em 1966, aten­dendo a uma solicitação de Bertrand Russell, integra um “tribunal” internacional incumbido de jul­gar os cri­mes de guerra norte-ame­­ricanos; em maio de 1968, quando da revolta estudantil, em Paris, afirma, em entrevista à Rádio Luxemburgo: “A única relação que os estudantes podem ter com essa uni­ver­sidade é destruí-la”; criticado, em razão disso, pelo Partido Comunista, ele aproveita para con­denar, com veemência, a ocupação da Checoslováquia pelas tropas soviéticas. Suas po­si­ções se radica­lizam, suas aparições públicas ganham uma aura dra­mática, excessiva, inversamente propor­cio­nal à repercussão que causam, quase sem­pre efêmera. Nessa altura, Sartre parece ter perdido a flexibi­lidade e o brilho com que se mantivera, até então, equidistante da polarização e do dogma­tismo rei­nantes.

Em 1970 rompe definitivamente com a urss, no ano seguinte corta relações com Fidel Castro. No aparente afã de manter-se na vanguarda dos acontecimentos, adere à tendência mao­ísta, pas­sando a dirigir vários pequenos jornais radicais, como Tout!, Ré­vo­lution, La cause du peu­ple e ou­tros. Sartre já se aproxima dos 70 anos e a saúde começa a dar mostras de debilidade, em con­sequência da idade avançada, da ati­­vi­dade febril de anos e anos seguidos e outros excessos: inú­meras viagens, hábitos irre­gulares, noites e noites em claro, vários maços de Gauloises por dia e mui­tas doses de uísque. Em 1973 ele está semicego, já não pode ler nem escrever.

Mais adiante, um leve sinal de melhora e ele se reanima. Em 1977, enquanto o governo francês recebe Leonid Brejnev, com todas as honras de Estado, Sartre, em represália, une-se a vá­rios intelectuais no Teatro Récamier, para recepcionar um grupo de dissidentes soviéticos. Impos­sibilitado de ler e escrever, continua a conceder entre­vis­tas, como vinha fazendo desde 1973, e numa delas, em 1979, já perto do fim, re­concilia-se com Raymond Aron. No dia 20 de março de 1980 é hospitalizado, com um edema pulmonar e morre em seguida – tendo sobrevivido por cerca de dez anos ao fim do que a história contemporânea já se habituou a designar “A Era Sartre”. Mas voltemos ao ponto de partida.

 

 

5

Tendo nascido no dia 21 de junho de 1905, em Paris, Sartre praticamente não conhe­ceu o pai, falecido no ano seguinte. Passou a infância na Alsácia, sob as ordens do avô ma­terno, Charles Schweitzer, um austero professor de línguas, de formação protes­tante, adepto da disciplina e da severidade de costu­mes. Foi o avô quem incutiu nele, desde cedo, o hábito da leitura. Nessa fase, é estreito seu rela­cionamento com a jo­vem mãe, Anne-Marie, já que o velho Schweitzer os tratava como duas crian­ças. Sartre consi­derou uma “traição” o segundo casamento da mãe, em 1917.

Nessa data ele interrompe os estudos no liceu Henri iv e vai viver em La Rochelle, onde o padrasto era diretor dos estaleiros navais. O escritor descreve esse período como “os três ou quatro piores anos de [sua] vida”. Em 1920, está de volta ao liceu Henri iv, onde reforça a amizade com Paul Nizan, que o acompanhará por anos e anos. Nessa altura, já havia descoberto sua vocação lite­rária. Lê e escreve abundantemente, procurando imitar seus autores prediletos: Flaubert, Rabelais, Voltaire, Gide, Dostoi­evski, Tolstoi e muitos outros. Dos tempos de École Normale Supérieure (1924-1928), ele declara, em seu livro de memórias As palavras: “Foi para mim, desde o primeiro dia, o começo da independência, quatro anos de felicidade”. Foi uma fase de intensa ati­vidade inte­lectual, que lhe permitiu firmar reputação como jovem brilhante, indi­vidualista e anárquico. Ter­mi­nado o curso, ele presta os exames finais e, para surpresa geral, é reprovado, ficando em 50o lu­gar. No ano seguinte, é apresentado a uma ex-colega, formada na mesma École Normale, com quem não tinha tido antes nenhum contato: Simone de Beauvoir. Em julho, ambos se submetem, Sartre pela segunda vez, aos exames finais. Ele passa em primeiro lugar, ela em segundo. Anos depois, Si­mone anotará em suas memórias: “Quando o deixei, em agosto, sabia que ele nunca mais sairia da minha vida”.

Entre 1929 e 1930, Sartre serve ao exército, por dezoito meses, tendo Raymond Aron, ex-colega de faculdade, como sargento instrutor. Terminado o serviço militar, Aron parte para a Ale­manha e Sartre é nomeado professor de filosofia no liceu do Havre, enquanto Simone vai lecionar em Marselha. Em 1932, os três amigos se reen­contram no Bec de Gaz, em Paris, o ponto onde ini­ciamos este relato: Husserl, a feno­me­nologia, falar das coisas como que a tocá-las e, ainda assim, fazer filosofia...

A cena – o cálice de abricó, erguido no ar com maliciosa simplicidade, a refratar a irisada luz cambiante de dois ou três candeeiros, no instante em que tudo começou – pode bem ser o dese­nho-emblema antecipado de uma era extinta.

 

 

Carlos Felipe Moisés é poeta (Noite nula, 2008), ficcionista (Histórias mutiladas, 2010), crítico literário (Poesia & utopia, 2007), tradutor (O poder do mito, 1990) e autor de livros infanto-juvenis (Conversa com Fernando Pessoa, 2007). É mestre e doutor em Letras Clássicas pela USP, tendo lecionado teoria literária e literaturas de língua portuguesa em várias universidades, como a PUC SP, a USP e a Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA. É o curador da mostra “Fernando Pessoa: plural como o universo”, em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, SP, de agosto 2010 a janeiro 2011.

 

[1] Capítulo do livro em preparo Dialética da transgressão: ensaios de crítica, teoria e história literária.

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 8 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2011]

 

 
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