entrevista

 

DE POEMAS E DE POESIA II:

Uma entrevista com Ranieri Ribas

 

 

por Adriano Lobão Aragão,

 Sebastião Edson Macedo

e Wanderson Lima

 

 

Na edição anterior de dEsEnrEdoS, estas mesmas foram respondidas pelos poetas Alfredo Fressia, Casé Lontra Marques, Danilo Bueno, Maiara Gouveia e Paulo Franchetti. Seguem, agora, as respostas de Ranieri Ribas, nascido na Bahia (Barreiras) e radicado no Piauí há anos. Ribas publicou Os Cactos de Lakatus (poesia, Amálgama, Teresina, 2004) e brevemente lançará Aos Renovos da Erva (poesia).

 

1. Considerando a dimensão do país, os problemas de acesso às obras e a dificuldade de se mapear amplamente os autores que estão escrevendo neste momento, como você encara a denominação "poesia brasileira"? Existe tal coisa que acaso unifique a poesia inscrita nos limites políticos desse país além da própria denominação catalográfica?

Falar em uma "poesia brasileira", se formos refletir acerca do rótulo em si, é falar de um cânon nacional de leitura. Todo cânon é uma política de leitura, e nesse aspecto, pauta-se menos nos critérios de excelência e mais nos critérios de afirmação de uma identidade coletiva. Esta criação do romantismo teria, em sua origem, uma função paidêutica, e seria, portanto, a expressão mais evidente da Bildung em sua designação originária, isto é, como formação da pessoa. Estamos falando, portanto, de uma espécie de humanismo vernacular. Esta foi, talvez, a grande idéia da semana de 1922, seguindo o projeto político de afirmação dos Brasis por José de Alencar: pensar a literatura brasileira para além de seu caráter heterônomo, lusitano, romper com o sermo nobilis da tradição portuguesa. Para mim, como poeta, isso não tem a menor relevância. Os cânones nacionais têm para mim uma função pedagógica e taxonômica. Para quem escreve poesia, a lógica deste tipo de reflexão é inócua, estéril. Se estou tentando ler a poesia pastoril de Eichendorff, pouco me importa se ele cabe ou não no rótulo "poeta alemão" ou "poeta romântico". Me interessa o espírito que ali se encerra, o rigor da versificação, as faturas poéticas como um todo.

No caso do Brasil, considero que há uma subversão dos critérios de eleição dos melhores, ou dos mais relevantes poetas brasileiros nos últimos anos. A geografia brasileira tornou-se uma espécie de geopolítica da arte. Como um poeta da grandeza de Nauro Machado é tão pouco reverenciado? Ninguém faz sonetos melhor que ele desde Fernando Pessoa, quiçá, desde Bocage. Uma obra imensa, um poeta que estabeleceu um pacto mefistofélico com a poesia. Não é estudado, não é lido. Em contrapartida, vejo vários poetas liliputianos do eixo Rio-São Paulo grassando em revistas com entrevistas como se fossem sumidades literárias. Há amontoados de teses acadêmicas sobre poetas e prosadores sem mérito, porém célebres. Esquecemos de Nauro Machado, Alberto da Cunha Melo, H.Dobal, Max Martins, Zila Mamede, Henriqueta Lisboa. Alguns críticos, como Ivan Junqueira, perceberam que a melhor poesia brasileira hoje está no Nordeste. Mas há poetas no Norte, no Centro-Oeste. Seria um trabalho hercúleo fazer este levantamento. Com a internet tudo ficou mais fácil, mas é preciso romper com o monopólio geopolítico e artístico do Sudeste. Isto ocorrerá, e estou sendo otimista, à medida que o Nordeste se desenvolver econômica e culturalmente. O mercado editorial se expandirá, sobretudo se o Brasil encampar um projeto sério para a educação.

Acredito que os grandes poetas raramente surgem em grandes centros urbanos, onde a experiência da cultura burguesa padroniza as visões de mundo, homogeneíza a experiência humana em um lugar vazio e soberano. Walter Benjamin refere-se em certo ensaio à ojeriza de Goethe por cidades com mais de 10.000 habitantes! Em verdade, a grande poesia nasce -- sobretudo em nossa época pós-moderna -- da experiência do processo de secularização. Quando uma determinada cosmovisão enfrenta seu próprio desfalecimento diante de uma nova ordem emergente, neste momento surgem os grandes poetas. Por isso quero estudar a poesia iraniana hoje. Acredito que estes países que ainda não completaram integralmente o processo de secularização e desencantamento do mundo irão nos dar grandes poetas. Os países do Oriente Médio, os países africanos e parte do Leste Europeu seriam os lugares onde surgirão estes poetas. Um poeta como Drummond, por exemplo, só pode ser entendido como homem mineiro, de família católica patriarcal ortodoxa em conflito permanente com a experiência de desfalecimento dessa cosmovisão. Aqueles que já nasceram no novo mundo, ou seja, nós, temos muito pouco a acrescentar poeticamente neste aspecto. É quase impossível criar boa arte, sobretudo poesia, sem o substrato da experiência vital.

Quando leio a maior parte dos poetas brasileiros de hoje me pergunto como eles se deixam ser presa fácil desta enfadonha repetição de faturas poéticas, essa estandardização. Na verdade, somos títeres do espírito epocal, do Zeitgeist. Creio ser mais fácil haver um grande poeta vindo de Itabira, Codisburgo ou da Serra da Barriga em Alagoas do que de São Paulo ou Tóquio.

Esta questão me remete ainda ao problema do regionalismo na literatura brasileira. Acredito que a questão regionalista é um engodo gramatical e que ela está sendo reavivada de forma ressentida por conta do contexto político brasileiro da era Lula, onde o acirramento da questão Nordeste (a questão setentrional para parodiarmos Gramsci) se tornou politicamente ativo. O que antes era latente, o embate entre o ressentimento nordestino e a soberba do Sudeste, agora se difundiu na luta política, eleitoral e cultural. Afirmo que esta questão é um engodo gramatical porque ela não tem procedência factual, é movida por estigmas e ressentimentos. Será que os americanos lêem Faulkner como um autor "regional"? E os ingleses, interpretam o substrato folclórico irlandês na obra de Joyce como "regionalismo"? Gilberto Freyre é um antropólogo "regionalista", pernambucano? Qual é a proficuidade da pergunta quanto a ser "regionalista" ou não? Ser regionalista significa negar uma literatura "cosmopolita"?

Pra mim estas questões são um subproduto da estupidez de uma luta política sem vencedores.

Mas acredito, da perspectiva de quem produz literatura, prosa ou poesia, que a bandeira do neo-regionalismo rendeu bons frutos. Me vem à memória o nome de Francisco J. C. Dantas. A ideologia regionalista pode ser vista como uma tentativa de salvaguardar a literatura brasileira de sua atual esterilidade urbanóide.


2. Já se tornou corriqueiro para o brasileiro assumir nossos profundos e perpetuados problemas de ordem varia na esfera macropolítica, social, bioeconômica, midíatica, e outras, mas sempre pareceu escapar desse conjunto problemático não só a produção artística quanto à inteligência crítica que a legitima. Até que ponto o que chamamos nosso legado artistico-cultural também faz parte de um complexo sistema de dominação neocolonial senão mesmo o duplicando na esfera da representação simbólica? O que você pensa sobre essa hipótese?

O problema é que a arte é inútil para aqueles que têm uma percepção vulgar do mundo. A arte é vista com um mero ornamento, muitas vezes despiciendo. O Brasil é hoje um país de rastaqüeras, não há mais uma elite cultural dentro da esfera política. Não podemos esperar uma visão cultural abrangente e invulgar de nossos legisladores ou de nossos policy-makers. E isso é um retrato do Brasil como um todo, não apenas da classe política. Não há mais lugar para um Otto Maria Carpeaux em nossos jornais diários ou em nossos hebdomadários. A inteligência brasileira está guetizada, segregada da grande mídia. Nossa esfera pública foi devorada pela indústria cultural e o capital cultural das periferias brasileiras colonizou as classes médias. Somos um país padronizado pelo gosto cultural da periferia; não há qualquer projeto político para tirar essas massas de sua situação de analfabetismo instrumental. 

Me parece bourdieusiano (ou talvez, para ser mais preciso, me parece sartreanismo pós-Fanon) em demasia enxergar em "nosso legado artistico-cultural" a reprodução de  um "complexo sistema de dominação neocolonial". As culturas locais como tradições construídas segundo uma dada macronarrativa estão, desde as grandes navegações, em permanente contato com as culturas eurocêntricas. Não vejo grande vantagem em almejar uma cultura autóctone em sentido puro, ou melhor, em um sentido calibânico. Quando li o último Husserl, entendi que as lições de Ariel, para usarmos esta metáfora, são um legado do qual não podemos nos evadir. Já estamos aculturados há pelos menos uns dois séculos. E enquanto civilização, usando licenciosamente este caro termo, o Brasil é um experiência histórica autêntica. Talvez a mais autêntica da América Latina. Somos uma cultura repleta de idiossincrasias, mas todas elas se exprimem no cerne de instituições oriundas do legado europeu. E esta simbiose cultural é nosso verdadeiro legado. Fusão de horizontes.

Como poeta, deveria eu recusar Ezra Pound como autor de referência porque ele era ítalo-americano fascista? Não concordo com essa busca da pureza. As identidades culturais devem enfrentar o processo de secularização eurocêntrico e devem subsistir autonomamente, e não pela intervenção do artifício do Estado, ou pela resistência de uma inteligência preservacionista.

E devo dizer, mais uma vez que, como poeta, esta consideração é-me irrelevante.



3. O livro impresso continua sendo o veículo fundamental da poesia?

Claro. O livro é uma tecnologia que não foi superada e talvez jamais o seja. Ele é concreto, tem forma, cheiro, é palpável, atrativo e facilmente transportável. As infovias são um canal de divulgação, mas a palavra impressa é insubstituível. O livro não precisa de download, atualização, PDF, Kindle ou computador. É uma tecnologia independente e permanente. Posso guardá-lo por anos a fio, sua resistência é comprovada pela experiência.  E a humanidade levou muito tempo para chegar a este formato, passando dos papiros ao códice. Com o livro prescindo de conexão e de qualquer outra plataforma ou interface. Ademais, as mídias eletrônicas são feitas para que a informação seja volátil, efêmera, e tudo se desfaça numa rápida obsolescência. Tudo se desmancha no ar, nada é sólido. São softwares. A informação se torna rápida, difusa e fácil, mas também fluída, fugidia e inconfiável. Posso baixar agora a poesia completa de Gregório de Matos, mas não posso confiar que a "edição" seja fidedigna. E amanhã, se meu computador queimar o HD, o que farei? Por isso, penso que estas novas plataformas de leitura da mídia eletrônica possam ser usadas como complemento da informação, mas não como fundamento desta. As tecnologias eletrônicas serão superadas em curto espaço de tempo, mas o livro cristalizará toda sabedoria humana por séculos.

 

4. Atualmente, o poeta deve necessariamente ser um teórico, um crítico de poesia? E até que ponto a preocupação teórica influencia sua produção literária?

Sempre escrevi crítica como autocrítica. Talvez por isso meu primeiro e segundo livros sejam completamente diferentes. Acredito que a hipertrofia crítica paralisa o processo criativo. Contudo, nem por isso o poeta deve se alienar. O poeta deve ler poesia, estudar poesia, exercitar suas técnicas de versificação da mesma forma que um pianista faz exercícios para apuração de sua técnica. Aliás, a exigência técnica de versificação e metrificação requeridas de um poeta são infinitamente menores que as exigências técnicas de um músico erudito, por exemplo. Admira-me o fato de que nossos poetas tenham hoje pouco domínio de versificação. Sequer já ouviram falar dos muitos tratados em língua portuguesa. Esse é um tipo de negligência que atinge mais a poesia do que as outras artes.

Embora o poeta não deva atingir esta hipertrofia crítica a que me referi, entrando nesse imenso labirinto que é a teoria literária, creio que deva ter certo nível crítico. Afinal, o artista exerce seu ofício pela consciência e não pela alienação. Muitos poetas hoje escrevem para dar satisfação às demandas da teoria literária. A beleza não pode ser extorquida pelos conceitos. Este é o risco do demônio da teoria. A consciência crítica repousa sobre a superfície dos entes, a criação poética é que dispõe-nos à presença do Ser. A consciência crítica quer capturar o Ser, mas o Ser não está à disposição da vontade, ele é soberano, incapturável. Por isso, quanto maior a hipertrofia da consciência crítico-teórica, mais estéril o artista. Não podemos capturar o Ser por gesto da consciência. A ingenuidade é uma das condições mais relevantes do processo artístico criativo. Acho que já entrei num acordo com meu demônio teórico. Ele lá, e eu cá. Mas eu tive que passar por um longo processo de desintoxicação, sobretudo dos vícios do concretismo. Hoje posso dizer que estou reabilitado.

 

5. O fato de a poesia ser pouca lida (em comparação com gêneros como o conto e romance) é um fator positivo ou negativo à criação poética? 

O velho tema da abolição do sufrágio do número. Talvez Paul Valéry tenha explorado pouco o fato de que há um caráter aurático nessa abolição. Mas todo poeta gostaria de ser lido. A poesia brasileira sempre teve seus poetas carismáticos: Drummond, Vinícius, Bandeira, Augusto dos Anjos, Castro Alves.

Entre nós, esta abolição tem causado desconforto, exceto pelo caráter aurático que ela espraia. Só o difícil é estímulo para o poeta, concordo, mas não podemos abdicar da busca da intersubjetividade, da alteridade e da comunicação. Acredito que, no caso da poesia brasileira contemporânea, nossa baixíssima taxa de leitores decorre não apenas do deslocamento da arte poética de seu lugar soberano na cultura brasileira, como fora desde o romantismo (a música popular brasileira expropriou dos poetas este lugar), como também do fato de que nossos poetas hoje não têm sabedoria, são homens que não tem o que dizer, o que acrescentar. A poesia de Drummond é a poesia de um sábio, de alguém que fala como porta-voz de uma experiência partilhada pela comunidade de leitores. O mesmo pode ser dito de Bandeira. Em matéria de poesia, só a sabedoria cativa.

Como a sabedoria perdeu seu lugar soberano entre os poetas brasileiros, nossa poesia passou a ser um jogo lúdico-semântico auto-referente. A poesia portuguesa, em comparação, não perdeu essa tradição, a reforçou. Podemos ver sabedoria em Herberto Helder, em Daniel Faria, em Fernando Echevarría, em Fiamma Hasse, em Al Berto, em Ramos Rosa.

A última edição de "Ou o poema contínuo" de Helder esgotou-se em dois meses em 2009. Ele é lido, e isso não menoscaba sua poesia, pelo contrário, a engrandece. A escrita sempre é um gesto eucarístico, uma partilha. Ninguém escreve para se reservar, mas para ser lido. Ser lido é fazer amigos, é desdobrar os laços da amizade.

A poesia brasileira precisa reencontrar seu lugar soberano. E para ser soberano é preciso ser lido.

 

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Ranieri Ribas é cientista político e poeta. Autor de Os Cactos de Lakatus (Amálgama, 2003) e de Ezra Pound – As máscaras doutrinárias do esteta (Fundac, 2003). Professor da Universidade Federal do Piauí. [ranieriribas@yahoo.com.br].

 

Adriano Lobão Aragão é poeta e professor. Autor de Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, Yone de Safo e as cinzas as palavras. blog: Ágora da Taba

Sebastião Edson Macedo é poeta e ensaísta, autor de: para apascentar o tamanho do mundo (Oficina Raquel: 2006); e cego puro sol (UFRJ/FL: 2004). Nasceu no interior do Piauí em 1974. Atualmente mora no Rio de Janeiro, onde se tornou Mestre em Estudos Literários Portugueses pela UFRJ. 

Wanderson Lima é poeta e ensaísta. Professor da Universidade Estadual do Piauí  - UESPI e doutorando em Literatura Comparada pela UFRN. Autor, entre outros, de Reencantamento do mundo: notas sobre cinema (amálgama, 2008), em co-autoria com Alfredo Werney. blog: O Fazedor

 

 

 [revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 8 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2011]


 
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