poesia

 3 poemas de

Alberto Lacet

 

 

A SOMA DE TODOS

Algum vento soprará destas montanhas

Trazendo dias de longo pavoroso sofrer

Espalhando esverdeado ocluso sofrer

Do enregelado deixado à própria sorte

Que por cáfilas e cáfilas de anos

Sibilou entre penedos irmão da névoa

 

Viu as engrenagens do luar solidão de picos

Praticou alongada fome foi fiel à sede

Soube estar só alcançado na febre

E alcançou aderência às rochas fincas

Até que encurvado insensível se fez 

Sob madrigal desejosa névoa vã

 

Descerá gelo na lavoura amesquinhada

Terra banida de sais limpa de profetas

Sobre estranhas nossas searas veios de fogo

Chuva rica de ursos selvas arrancadas

Nenhuma imagem ou som articulados

Visões de um instante coro sem voz

 

Apagará os desenhos fibrilas da terra

Outros fará clássicos nítidos terríveis

Formalismos severos volúveis da água

Rápidos croquis abstratos do fogo

Exposição solar antros de sombra

(Até que um silêncio seja a soma de todos)

     

 

 

A FUGA

Houvesse então aquela rua que não ia dar em nada

Aí estaria o moço e o molhe de chaves pego ao acaso

Quem sabe com alguma idéia germinando na cabeça

E a percepção de que nenhuma migalha lhe bastaria

Numa cena inundada de vento frio soando palavras

Na ação aferrada ao tempo e seu perfeito quadrante

Com uma carroça passando ao longe, além da ponte.

 

E depois acontecendo quando nada é o que se espera

Ai não estaria aquele moço aonde o fossem procurar

Não seria visto balançando pernas na aba da ponte

E apressados tentariam chegar antes dele e da noite

Ao que seria seu plano apenas vagamente percebido

Até quase um vento entrando em portas escancaradas

O homem da bomba de gasolina traz afinal uma pista

 

Outros só interessados em ficar sentados nos batentes

Entre eles o hábito de calar ou de não medir palavras

Colher gesto maduro de ser uma fruta suspensa no ar

Com a notícia prosperando e fazendo que o tempo voe

Os abstraindo assim das piruetas do vento na calçada

É bem vinda se traz forma alheia, difusa de sofrimento

Alegre é a corda pendendo de caibros nus da garagem

 

E anos depois sob sol e chuva ela havia de permanecer

Largada entre monstrengos férreos relegados à neblina

Via-se a carcaça carbonizada da boléia de caminhonete

Apeada ao chão, num jazigo de perguntas sem respostas

à margem do caminho onde passavam, e ela sempre ali

Desde que dele separada e trazida do aonde fora levada

Por aquele nunca mais visto em nenhum lado da ponte

 

 

 

EXPLICAÇÕES DO FOGO

Eu sou o fogo

Eis aqui algumas

explicações: Matéria

alguma me faz. Eu as faço

E desde o tempo, venho envolvido

 

Na confecção do mundo

Que mede meu exato tamanho

E o de vossa infinita ignorância

 

Ao contrário do que pensam

Forneço a escuridão. Ela

Que esta dobrada

Sobre mim

 

E é tal um manto

Que se estende e me segue

Como uma sombra, que fosse

Meu outro lado, porque gerada

de mim, e mais exatamente: da fumaça

E é através dela, aqui e alí

Que me podem entrever

Mas o que apenas vêm

 

Não passará de pequeno

E multifário órgão:

A crespa língua

 

Que vos quer, no devido

Tempo, esclarecer

(Mas talvez não

consiga)

 

Por ora vos deixo com o que

de qualquer modo

Já sabem:

 

Para além de tudo que se engendra

Ou em algum instante flutua

Mas no próprio labor

se consome

 

(No próprio calor se devora)

 

Para alem de tudo

que em mim se conforta

e se sustenta. Para alem do absoluto

 

Incandescente coração da terra

É a ausência de mim

Ou a presença

 

Que irá determinar vossos limites:

Num extremo venho partindo

E no outro vou chegando

 

 

Alberto Lacet é artista plástico e poeta, nasceu em Teixeira - PB em 1954.Publicou recentemente seu livro catálogo onde mostra parte de sua trajetória. Fez exposições pelo Brasil e pelo exterior, e seu trabalho faz parte de acervos importantes. O livro pode ser adquirido diretamente com o autor através de  seu site: www.albertolacet.com


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 8 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2011]

 
 
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