poesia

Aos Renovos da Erva [seleção]

Ranieri Ribas


 

 

TREZE PROFANAÇÕES AO FOGO

I

 

Vieste agora decruar do fogo a límpida expressão

Volvê-lo a tenra imagem que então moldavas em cor e ritmo.

Das feições do fogo fizestes seis fauces a hefaistos

à força das mãos que lhe o dera a ferro o mero artifício

 

Vieste agora encerrar do fogo a lira incandescente

E assim volver a imagem que doas a chama em ti latente.

Vieste em fúria e foste envolto em seu corso de rastros

Nas línguas de fogos que alastrastes em volteios e lapsos

 

Tu impiedoso soube incendiar seus hostes com bênçãos

Tendo em vós mãos, falanges em voluta circunvolução

Tu que a tudo quanto incendiastes: santelmos, faetons

 

Volveste a flama e a centelha sua súbita força em ignição

Tu fátuo, espraiado ao nu descampado semeaste a cinza

Serpentino: incendiário dançarino de neon.

 

 

 

II

 

Foste ao fogo encerrar seu torso sinuoso envolto à mão

dá-lo alento e lascívia à ínvia flama incontida.

Foste ao fogo demarcar rasteiro aceiro e cinzas

ao sopro ferruginoso de faíscas a rés do chão.

 

O Fogo sinuoso enseja gestos que na sombra são

efígies, écrans, símiles de sol aos mortos concedida

e o arremedo de sombras em ademanes demoníacos

reencarna os corpos e os ritma em surda canção.

 

Corpos insidiosos. Esquivam-se ao toque das mãos

E as sombras que em vos se avivam, evanescem

ao menear dos móbiles fugidios em refração

 

Nem meneio, nem som se dão às benesses

duas espáduas ondeiam como labaredas em “s”

E assim foste ao fogo atear fogo em vossas vestes.

 

 

 

III

 

Do fogo o bronze forja o corpo e à mão ferroa

O torso salsuginoso e viril que em ti se doa

Do fogo vos urgíeis loas ao sol e à noite

Do fogo força e movimento, martelo e foice.

 

Do fogo conformas o torso, o mó e a espada

Aguças o corte, adelgaças feroz suas sarças

Do fogo Deus fez-se destroço, revolto em pó e aço,

Do fogo chumbo e enxofre e o salobro das estátuas.

 

Do fogo o fio e a lâmina, a flâmula em ti se alastra

Do fogo o ferreiro fere à esmeril o fio da faca

Do fogo a oração álacre o funéreo a mortalha

 

Fel e magma quereis forjar do fogo a dança

Zanza dança entre espáduas que avançam

à lembrança do fogo em fúria que mo arrebata.

 

 

 

IV

 

Do fogo o ferreiro forja a força dos cascos à ferradura

Do fogo se amolam vossos incisos dentes a mordedura

Do fogo os cavalos suados à tração dos músculos ejaculam

Do fogo o falo o gozo a foda a esfoladura.

 

Tu que foste do fogo a força e o louvor fizeste

De suas labaredas a desmesura a bússola a peste.

Do fogo sinuoso o torso espadaúdo a dança das omoplatas

Tu que a tudo auscultas: lucíferes, sacrifícios, desgraças

 

Faze do fogo a haste a riste sobre a terra e a terra toda desgarrada

Faze terra e fogo suas raízes etéreas aos deuses que inventara

Tu, uno fazei-me servo, genuflexo, ressurecto agora.

 

Fazei-me o gozo, a brasa incendiária, uróboro que a si devora

Do fogo se deflora a força ulterior que em ti aflora

Do fogo o ferreiro em seu machado a força dos cascos forja

 

 

 

V

 

A sentença da carne é severa: marcar a ferro o corpo

Fazer dele pele e ardor perpétuo com sangue e cautério

A sentença do ferro é ferir: imprimir no corpo o coscoro

Tatuando em teu dorso a insígnia dos ressurrectos.

 

Serás assim outro Caim, porque roubaste do irmão a primogenitura

e deste ao diabo suas mãos em comunhão, negaste o flagelo e a paúra.

Foste então ao deserto aprender com o fogo a fundição do ferro

Pois a marca do fogo é fazer-se eterno fazedor de desertos.

 

Não sabereis quando ao fogo arremeter sua mão destra

Porque o fogo e a memória se entreolham um ao outro

E o outro a ele não mo arrenega, simplesmente revela:

 

A ceifa, o ouropel, o vinho, o hidromel e a lenha

E em tudo estará sua presença, sua lava, sua cantera

no pão e no mosto ou na luz fugaz dos corcéis que subleva

 

 

 

LI

 

1.

 

Sou um homem de força, afirmo.

E por isso ergo esta casa a partir do solo

Onde ela me cresce desde um lugar baldio

Onde a povôo com o movimento dos corpos

E ela se encorpa como o tronco de uma árvore

Monumento pórtico

Em seu ofício de casa que conquista

o teto com renovos e o abobada todo.

Por isso digo: sou um construtor de força.

 

Ergo-a contra o sol com cinco janelas e um horizonte

Sinto-a em cada ângulo soerguer-se em meus ombros

E é como uma planta sáxea fincada ao chão

Uma planta arquitetada na idéia da projeção

 

Esta casa me é necessária

Ela deságua líquida na via pública

E irriga as ruas.

Numero-a porque não tem nome

E ela precisa ser diariamente invocada.

Ela espera o chamado do mensageiro às palmas

e ele vem.

Sobre os umbrais vem ele para adentrá-la

E deixa uma carta no chão.

 

Esta casa me resguarda do turbilhão das ruas

E por isso a amo

em cada ângulo de sua geometria obtusa.

 

 

2.

 

Para que me ouças, repito: sou um homem de força.

E ergo a casa para habitá-la com vagar

Ergo-a para eletrificá-la ao toque do interruptor

Incendiá-la pelas luzes que fulgem nas lâmpadas

Em cada reentrância, ergo-a para vê-la

geminada à lavra do chão

 

Eis que desde aqui, frente ao umbral de adentrá-la

A casa irrompe suas margens contra um rio que transborda

Meço o perímetro de seu lugar de habitação

E a casa agora é um forte e me encobre

 

Não sei como ela assim se transforma

Mas a casa como um útero envoltório me circunda

E mura-me no murmúrio de estar dentro e só

Casa túnica. Invólucro.

 

E digo: toda submissão é regozijo.

 

3.

 

Ergo esta casa para dobá-la em suas portas trancafiadas pela noite.

Ela resguarda uma senha nas chaves de abri-la.

Sei a palavra exata na língua baldia que a pronuncia

Assim, trancafiada na noite

A palavra dá-me a franquia.

 

Percorro agora o entorno à vácuo de seus corredores

É a circulação do ar que me enleva

E ando pelo levitar das sandálias que em mim haviam

e não mais há.

Lembra-te?

Breves éramos nós nesta casa em vigília.

Mas agora há luz e líamos.

Os livros e as linhas da mão.

 

Agora

Sei que a casa me descalça os pés

e a palmilho.

Sei que em casa nada pode a noite

contra a incandescência das lâmpadas de tungstênio

que a eletrificam.

 

Por isso digo: faça-se a luz

e a luz me perfila.

 

 

 

Ranieri Ribas é cientista político e poeta. Autor de Os Cactos de Lakatus (Amálgama, 2003) e de Ezra Pound – As máscaras doutrinárias do esteta (Fundac, 2003). Professor da Universidade Federal do Piauí. [ranieriribas@yahoo.com.br].


 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 8 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2011]


 
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