tradução

Pablo Neruda

traduzido por Franz A. Silva

 

 

 

 

POEMA 4

 

Eis a manhã plena de tempestade

no coração do estio.

 

Como alvos lenços de adeus, viajam as nuvens.

O vento sacode-as com mãos viajantes.

 

Incontável coração de vento

pulsando sobre nosso silêncio apaixonado.

 

Zumbindo entre as árvores, orquestral e divino,

como uma língua cheia de guerras e de cantos.

 

Vento que leva em rápido furto a folhagem

e desvia as flechas latentes de pássaros.

 

Vento que a derruba em onda sem espuma

e substância sem peso e fogos inclinados.

 

Rompe-se e submerge seu volume de beijos

arremessados na porta do vento de verão.

 

 

Poema 4

 

Es la mañana llena de tempestad

en el corazón del verano.

 

Como pañuelos blancos de adiós viajan las nubes,

el viento las sacude con sus viajeras manos.

 

Innumerable corazón del viento

latiendo sobre nuestro silencio enamorado.

 

Zumbando entre los árboles, orquestal y divino,

como una lengua llena de guerras y de cantos.

 

Viento que lleva en rápido robo la hojarasca

y desvía las flechas latientes de los pájaros.

 

Viento que la derriba en ola sin espuma

y sustancia sin peso, y fuegos inclinado.

 

Se rompe y se sumerge su volumen de besos

combatido en la puerta del viento del verano.

 

 

 

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POEMA 7

 

Inclinado na tarde deito minha triste rede

em teus olhos oceânicos.

 

Ali se estende e arde na mais alta chama

minha solidão que volve os braços como um náufrago.

 

Faço rubros sinais sobre teus olhos ardentes

que ondulam como o mar à margem de um farol.

 

Guardas apenas trevas, fêmea fugidia e minha.

De teu olhar emerge às vezes o litoral do espanto.

 

Inclinado nas tardes deito minha triste rede

nesse mar que sacode teus olhos oceânicos.

 

Os pássaros noturnos bicam as primeiras estrelas

que cintilam como meu ser quando te amo.

 

Galopo a noite em sua égua sombria

espalhando espigas azuis sobre o campo.

 

 

Poema 7

 

Inclinado en las tardes tiro mis tristes redes

a tus ojos oceánicos.

 

Allí se estira y arde en la más alta hoguera

mi soledad que da vueltas los brazos como un náufrago.

 

Hago rojas señales sobre tus ojos ausentes

que olean como el mar a la orilla de un faro.

 

Solo guardas tinieblas, hembra distante y mía,

de tu mirada emerge a veces la costa del espanto.

 

Inclinado en las tardes echo mis tristes redes

a ese mar que sacude tus ojos oceánicos.

 

Los pájaros nocturnos picotean las primeras estrellas

que centellean como mi alma cuando te amo.

 

Galopa la noche en su yegua sombría

desparramando espigas azules sobre el campo.

 

 

 

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POEMA 1

 

Corpo de mulher, alvas colinas, coxas alvas,

Te pareces ao mundo em teu ato de entrega.

Meu corpo de selvagem lavrador te escava

E faz fluir o filho do fundo da terra.

 

Fui só como um túnel. De mim fugiam pássaros

E em mim a noite entranhava sua invasão violenta.

Para sobreviver forjei-te qual uma arma,

Uma flecha em meu arco, uma pedra em minha funda.

 

Tomba porém a hora da vingança, e te amo.

Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.

Ah os vasos do peito! Os olhos da ausência!

Ah as rosas do púbis! Tua voz lenta e triste!

 

Corpo de mulher minha, persistirei em tua graça.

Minha sede, ânsia sem limite, caminho indeciso!

Sulcos obscuros onde a sede eterna segue,

Onde a fadiga segue, e a dor infinita.

 

 

Poema 1

 

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,

te pareces al mundo en tu actitud de entrega.

Mi cuerpo de labriego salvaje te socava

y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

 

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros

y en mí la noche entraba su invasión poderosa.

Para sobrevivirme te forjé como un arma,

como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

 

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.

Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.

Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!

Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!

 

Cuerpo de mujer mía, persistirá en tu gracia.

Mi sed, mi ansia sin limite, mi camino indeciso!

Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,

y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

 

 

 

 

Pablo Neruda (1904-1973) foi poeta, embaixador e militante comunista. Em 1971 foi laureado com o prêmio Nobel de Literatura. De sua vasta produção poética, podemos destacar Canto Geral, Cem sonetos de amor, As uvas e o vento e Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Os poemas ora traduzidos são desta última obra.

 

 

Franz A. Silva nasceu no Piauí. Em Brasília fez Publicidade e Filosofia. Mora atualmente em Buenos Aires, onde ministra aulas de Português e faz traduções. Prepara seu primeiro livro de poemas, a sair em edição bilíngüe.

 

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 8 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2011]

 
 
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