tradução

José Landa

traduzido por Victor Del Franco

 

 

...

 

Dos enigmas da fonte fala o menino

que descansa nos braços de um anjo afogado:

“Certa vez perdi a fé, a claridade era tão negra

que meu coração era minha morte.

As mulheres se olhavam em mim como em um espelho partido

cujo destino era a pelagem dos piores demônios.

Era meu sangue a água que todos viam limpa

o tocavam como se tratasse de uma pele alheia ao pecado

porém, me transitava em círculos o rancor, a inveja

a solidão e a miséria de todos que me atiravam moedas suplicando calma e sorte.

Conheci a Verdade e a mentira, os segredos às claras

de visitantes, sedentários ou nômades por submissão

as proibidas ânsias dos guerreiros de Deus

a umidade oculta nos peitos de jovens serviçais

o deserto e o vazio de tantas e tantas mãos.

Me perseguiu a noite em pleno dia, o fogo

apesar da água.

Me encurralou a dor de habitar o silêncio nas horas de sonho

e aos meus ouvidos chegavam hinos de corvos e escorpiões.

 

Assim tocou o momento de viver a segunda face de minhas penumbras

senti a língua dos rios curar todo meu corpo

abri os olhos sedentos de visões

e não voltei a cair no abismo dos invernos prematuros:

não morre a transparência, mitiga por instantes

o cansaço da tarde

fechar os olhos não é deter o fluxo da luz

na torrente das veias

nem fechar os lábios significa esquecer os mistérios da voz.

Não sou o morto nem o filho dos anjos

prefiro abrir o cofre onde habitam os infortúnios

e os bons desejos

sou a pele e a alma, o eterno retorno às águas”.

 

 

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De los enigmas de la fuente habla el niño

que descansa en los brazos de un ángel ahogado:

“Alguna vez perdí la fe, la claridad era tan negra

que mi corazón era mi muerte.

Las mujeres se miraban en mí como en un espejo roto

cuyo destino era la pelambre de los peores demonios.

Era mi sangre el agua que todos veían limpia

la tocaban como si se tratara de una piel ajena al pecado

pero me transitaba circular el rencor, la envidia

la soledad y la miseria de cuantos me arrojaban monedas suplicando calma y dicha.

Conocí la Verdad y la mentira, los secretos a voces

de visitantes, sedentarios o nómadas por sumisión

las prohibidas ansias de los guerreros de Dios

la humedad oculta en los pechos de jóvenes sirvientas

el desierto y el vacío de tantas y tantas manos.

Me persiguió la noche en pleno día, el fuego

a pesar del agua.

Me acorraló el dolor de habitar el silencio en las horas de sueño

y hasta mis oídos llegaban himnos de cuervos y escorpiones.

 

Así tocó el momento de vivir la segunda cara de mis penumbras

sentí la lengua de los ríos sanar todo mi cuerpo

abrí los ojos sedientos de miradas

y no he vuelto a caer en el abismo de los inviernos prematuros:

no muere la transparencia, mitiga por instantes

el cansancio de la tarde

cerrar los ojos no es detener el fluir de la luz

en el torrente de las venas

ni cerrar los labios significa olvidar los mistérios de la voz.

No soy el muerto, ni el hijo de los ángeles

prefiero abrir el cofre donde habitan los infortunios

y los buenos deseos

soy la piel y el alma, el eterno retorno hacia las aguas”.

 

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...

 

Um pouco de sol desce as escadas da igreja

atraído pelas anáguas e o aroma virgem

das catecúmenas que saem, entre risos e correria,

buscando o olhar febril de algum adolescente.

Observa com detalhe as dobras de seus vestidos

lambe com ansiedade a curvatura de suas coxas

a popeline que adere aos seus quadris

com a cumplicidade do vento

chega até seus tornozelos e olha pra cima sem se benzer.

 

Que umidade em seu paladar, salivação antiga.

Seu coração abrasador indica o ritmo

no andar dos garotos.

Haveria que encomendar a ele os primeiros desejos

as nascentes pulsações do púbis.

 

Um pouco mais de sol anda entre os passos das mulheres sozinhas

indica seus caminhos e as leva até os riachos

atrás das casas vazias onde Yerma venceu as tentações.

Traça uma linha branca sobre o pasto

e essa linha divide os vivos dos mortos.

Fala com as mulheres cujos ventres mofam

por causa do esquecimento

lhes oferece premonições em troca de fé

e diz: “Andem, quando eu tiver marchado

o mundo será de vocês, o prazer não retorna

deve ser guardado com cuidado na parte mais secreta do corpo”.

 

O sol é demônio e santo.

Com uma lamparina ao contrário e uma mão no peito

pode aparecer inclusive à meia-noite.

Sua bondosa maldade é melhor no amparo do dia

tudo o que toca, fertiliza.

(Até o ódio umedece seus lábios e pensa em concubinas.)

Seu fogo anda pelas ruas penetrando frestas

xeretando a fechadura casta das filhas de fazendeiros e comerciantes.

Seu ardor não tem limites, não podemos subestimá-lo:

um pouco de sol é o inferno diário das tentações.

 

 

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Un poco de sol baja los escalones de la iglesia

atraído por las enaguas y el aroma virgen

de las catecúmenas que salen, entre risas y carreras

buscando la mirada febril de algún adolescente.

Observa con detalle los pliegues de sus vestidos

lame con ansiedad la curvatura de sus muslos

la popelina que se adhiere a sus caderas

con la complicidad del viento

llega hasta sus tobillos y mira hacia arriba sin persignarse.

Qué humedad la de su paladar, salivación antigua.

Su corazón abrasador indica el ritmo

en el andar de los muchachos.

Habría que encomendar a él los primeros deseos

los nacientes latidos del pubis.

 

Un poco más de sol anda entre los pasos de las mujeres solas

indica sus caminos y las lleva hacia los arroyos

atrás de las casas vacías donde Yerma venció las tentaciones.

Traza una línea blanca sobre el pasto

y esa línea divide los vivos de los muertos.

Habla con las mujeres cuyos vientres enmohecen

a causa del olvido

les obsequia premoniciones a cambio de fe

les dice: “Anden, cuando me haya marchado

el mundo será de ustedes, el placer no retorna

debe guardarse con cuidado en la parte más secreta del cuerpo”.

 

El sol es demonio y santo.

Con una veladora al revés y una mano en el pecho

puede aparecer incluso a medianoche.

Su bondadosa maldad es mejor al amparo del día

todo lo que toca se fertiliza.

(Hasta el odio humedece sus labios y piensa en concubinas.)

Su fuego anda por las calles penetrando resquicios

hurgando en la cerradura casta de las hijas de hacendados y comerciantes.

Su ardor no tiene límites, no hay que subestimarlo:

un poco de sol es el infierno diario de las tentaciones.

 

 

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...

 

O dia escorre sob os solos do mundo.

 

A noite se incendeia como uma constelação

e um rumor sutil percorre as ruas

nestas horas de insônia

quando tantas janelas apagam suas visões.

 

Nos recantos do corpo transita uma música estranha.

Os muros esfriam enquanto seus moradores se inflamam de perguntas.

As pessoas se separam – imagem de formigueiros –

se refugiam e têm a sensação de viver

em descaminho.

 

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...

 

El día desciende bajo los suelos del mundo.

La noche se incendia como una constelación

y un rumor apenas perceptible recorre las calles

en estas horas de insomnio

cuando tantas ventanas apagan sus miradas.

 

En los recovecos del cuerpo transita una música extraña.

Los muros se enfrían cuando sus moradores se encienden de preguntas.

Se disgrega la gente — imagen de hormigueros —

se refugia y da la sensación de vivir

en el extravío.

 

 

 

José Landa nasceu em Campeche, 1976. É autor de 12 livros publicados no México, América Central e Espanha, tendo obtido diversos prêmios como o José Gorostiza (Tabasco, 1994), o Hispanoamericano Quetzaltenango (Guatemala, 2007) e o Ciudad de Lepe (Huelva, España, 2009), foi ainda finalista do Premi Tardor (Castellón, España, 2010). É bolsista do Fondo Nacional para la Cultura y las Artes de México. Entre seus títulos estão Tronco abierto (FECA, Campeche, México, 1993), La confusión de las avispas (Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, México, 1997), Placeres como ríos (Instituto de Cultura de Sinaloa, Culiacán, 2009) e Navegar es un pájaro de bruma (edição em francês e espanhol, Mantis editores y Écrits des Forges, Quebec, Canadá, 2010). Sua obra encontra-se traduzida também para o valenciano.

 

Victor Del Franco nasceu na cidade de São Paulo,1969. Poeta, revisor e designer gráfico. Editor da revista Celuzlose(http://celuzlose.blogspot.com). Livros publicados: A urdidura da tramA (Giordano, 1998); O elemento subterrâneO (Demônio Negro, 2007), disponível em versão digital no link: (http://issuu.com/vdfranco/docs/oelemento_subterraneo); EsfingE (Edição do Autor, 2010), disponível em versão digital no link: (http://issuu.com/vdfranco/docs/esfinge_2010).

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 8 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março de 2010]

 

 
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