poesia

seis poemas de

Nicolau Saião

 



ÁGUA

De corpo
Onde acabas e recomeças
De terra
Onde é teu o perfil incompleto
De fogo e ar
Onde exultas e te revolves
Do que dentro existe e cessa
Do que de fora brota

Daquilo que nunca te encontrará
Do que é pequeno e amplia o mundo
Do que jamais se perdeu

Do que se sabe e repousa
Do que não se encontrou

Do que morre
Do que é silêncio e claridade
Do que é mais que um sangue

Um puro momento feito
Entre ti e o teu reflexo inerte.



ELE VOLTA SEGUNDA VEZ E CANTA

Eu devia ter percebido que afinal tudo estava distante
devia ter notado que algo estava ao contrário
Daquelas palavras não há   e sabe tudo a mau agouro
As navalhas não se colocam daquela maneira
dentro das algibeiras.  Nos versos elas não são assim
São só coisas p’ra espantar, às vezes para servir de pretexto
ou à culpa ou à dor.  Mas  por favor  nunca à justeza dos dicionários.

Eu devia ter visto que os pregos ora aparecem ora desaparecem.
Que a coroa de espinhos  e tudo o resto não perdura.
Como não me fui lembrar que podia ser apenas murmúrio ou sufocação?

Que fazia eu ali se os mantos  as rendas que cobriam as cabeças
as vestes tão pequenas olhadas lá de cima
mesmo algum garoto que brincava
mesmo as pedras do chão
ou um pássaro que oscilando cruzava o céu   entontecido
ou um grito de um mais impaciente
de repente eram imagem eram ilusão eram miragem
E tudo muito para além de qualquer ideia feita.
Como não me lembrei eu de que a um espanto
se segue provavelmente um arrepio?

Há anos que eles empregam termos que só nos perturbam.
Depois vem um grande pedaço de silencio. Depois
há sempre um  ou uma  que executa uma genuflexão
Depois   repara-se que aquilo não podia ser assim
mas é demasiado tarde,  já tudo se desvaneceu
e só ficaram ruínas  ou p’lo contrário folhas cobertas
de uma escrita compacta que é quase impossível esbater.
Um embrulho   dizem-me  e eu viro-me com inocência
Que não,  dizem-me ainda  só podia ser um animal
Ou antes - segredam-me por vezes  -  tudo o que vês
é com toda a certeza uma montanha. E então faço as minhas contas
na cabeça cruzo um esvoaçar talvez um pouco violento
uma busca de algo inconcreto que me vem à memória
uma pena tão funda   tão abandonada   tão
sem adjectivos nem contornos.

Eu devia ter reparado que não basta chamar ou ser chamado
As palavras  as melhores as mais exactas
são mesmo essas  umas vezes só secura  outras vezes
longe de tudo 
E é então que se sabe que o ar que nos rodeia
terminou para sempre  É então que se compreende

que as coisas não se movem misteriosamente
que as coisas simplesmente   já não estão
nem nos mares nem na terra    nem nas casas
onde se assiste a crimes e a salvações.

Talvez ainda vá a tempo, penso cá para mim, talvez ainda
possa ver e destrinçar   verbos  e conhecer substantivos. Que as palavras
tontas e   coitadas   horizontais e verticais    não são
efémeras ou belas,  não são sequer    cintilações
nem tampouco recordações de algo perdido
pois só residem   só se detêm sem que as toquemos

não no futuro   não no passado   mas no eterno presente.



PLANISFÉRIO

  Gira o tempo, gira o mundo, gira o olhar na direcção do sol e o que gira é a nossa estrela polar, o nosso horizonte transtornado apanhado pelo negrume azulado da lua, o firmamento de tudo sobre a nossa casa, o nosso corpo e a visão da matéria planisférica, violeta na manhã, branca na tarde, multicolor no dia que corre transborda se petrifica nas palavras nas cores e visões nos desenhos do interior do corpo, da criação do mundo e do mar que rodeia os continentes imaginados que somos que fômos que seremos quando o espírito a glória do senhor das formas for simplesmente um universo terreno e com tudo na sua existência fluvial e matérica de Atlas imenso nos traços da nossa fotografia completa.



PESSOA INÚMERO
                                       aos Irmãos de H.

O que me interessa em Pessoa (máscara)
seja ele Fernando, Alberto ou Álvaro
é o ar grego e geométrico da sua casa
- casa dos seus versos exteriores -
onde as plantas terrenas, totalmente terrenas
com que enfeitou os seus dias e noites
aguardam sonolentas no calor do dia
a música, as abelhas, a lenta putrefacção
da clara Natureza na noite nascente.

Parece que escrevia bem o inglês
(descobriram isso, embora não seja seguro
depois de falecer)
tão bem que os rostos de Tennyson,
Shelley, Whitmann, Shakespeare
e alguns outros indistinguíveis
vieram pousar sobre o seu rosto engelhado:
numa aldeia galesa os habitantes
julgam recordar-se dum fantasma de gabardina
que numa tarde foi segundo consta   avistado
por velhos, crianças e amáveis mulheres
andando entontecido pelas ruas sem destino
sombra aqui, sombra acolá
- o que era, aliás, apenas fingimento.

Por cá evidentemente sua-se de novo
o ranho, o esperma e o sangue dos poetas
(carrascão, ginjinha, uísque e soda?)
a sério e a brincar
o que dá jeito    expressão    serenidade.
Algures, num jardim real, o neófito agoniza
ombro com ombro, barba com barba
para que a chama da candeia luza ainda
numa rua onde nunca choverá
Algures, um laranjal incendeia-se de repente
e as aves partem em bando
mas já frias como dobrada à moda
de nenhures. Numa sala
um gato absorto olha o mostrador dum relógio
olha sem entender
e numa certa janela um lenço acena de vez

E a figura de arame de Pessoa (máscara)
dentro dum automóvel de brinquedo
na velha estrada de Sintra
que não existe, nunca existirá
- e por isso, ó minha alma, é bem real -
despenha-se explodindo no coração

do Mundo (ausente).



PRECE

O senhor Marcelo
o senhor Gonçalves
o senhor Ramiro
que dá passos que ressoam.

A senhora Adelaide
a menina Cecília
o gato do senhor Victor
um ronco muito ligeiro sobre o ar, sobre as flores.

A tinta no meu peito espalha-se no vosso rosto
canta     como um galo saudado o intervalo
entre os meses, os grandes meses bravios
em que acordais de repente, surpresos como os arcanjos.

Senhor Marcelo, protegei-me
dai-me o fruto do vosso dia impoluto
Menina Cecília, por favor por favor
dizei-me que a imensa floresta me será sempre propícia.

As árvores, as grandes árvores solitárias
suspensas     como ruas que tremem quando amanhece
que tremem como vós, senhor Ramiro, velho compincha
quando ao pequeno almoço ergueis a vossa face lívida.

Meus amigos, meus amigos, pequenos animais nocturnos
frutos como eu indistintos     minúsculos pedaços de acasos.



PARQUE

São apenas três manchas brancas sobre as plantas do jardim
e outra azul mais pequena mesmo posta ao lado dum banco de tábua

E nós pensamos: uma para as saudades, a segunda para os remorsos
a terceira para os que tentam reter a tosse que os sufoca.
Mas a quinta mancha é cinzenta. E apesar de fria como um sobressalto
pesa-nos no peito, pesa-nos na memória e revolve-se
no ventre enquanto tentamos reflectir angustiados.

Uma lua e um sol estão sobre a silhueta de um animal morto
hirto, com estranhos círculos no lombo, os olhos cintilando
como alguém escondido numa viela cheia de lixo.

A vossa vigília durará até que os ramos se afastem
que o transeunte de acaso de repente caia de joelhos
ante a noite que chega, guardando um grito na garganta

e fale mansamente olhando as árvores que desaparecem na luz.



in “Escrita e o seu contrário” (livro inédito)


 

 

Nicolau Saião (Portugal, 1946). Poeta, artista plástico e ensaísta. Autor de livros como Passagem de nível (1992), Flauta de Pan (1998) e Os olhares perdidos (2000). 

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 9 - teresina - piauí - abril maio junho de 2011]

  
 
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