tradução

Jan Wagner

traduzido por Viviane de Santana Paulo




 

natureza morta

 

um grande peixe, embrulhado em um jornal,

uma mesa de madeira em uma cabana na
normandia. totalmente parado, quente – o ar
tece meias de lã. você pode tocá-lo ou
não, suas escamas prateadas como uma longa pauta
de notas de uma sinfonia fresca. sua cabeça
está cortada, senão ele poderia, supondo
que peixes pudessem ler, ler
o que estaria escrito sobre a barbatana dorsal
assoprando-lhe:  “o que fazem, estas pessoas?”
a luz se retrai suave, o papel
absorve mar gota por gota.
ao fundo da imagem debulha o atlântico vibrando
os anúncios mais recentes de desaparecidos na praia.

 


nature morte


 ein großer fisch, gebettet auf eine zeitung,
 ein tisch aus holz in einer hütte in
 der normandie. ganz still, ganz warm - die luft
 strickt wollene socken. du kannst ihn berühren oder
 auch nicht, seine silbrigen schuppen gleich langen reihen
 von noten einer kühlen symphonie. sein kopf
 ist ab, sonst könnte er, gesetzt den fall
 daß fische lesen können, lesen
 was über seiner rückenflosse steht
 und ihm souffliert: "was tun sie, diese leute?"
 das licht entzieht sich leise, das papier
 nimmt tropfenweise meere in sich auf.
 au fond de l'image drischt der atlantik dröhnend
 die jüngsten vermißtenanzeigen in den strand.




champinhom


encontramo-os na floresta em uma clareira

duas expedições atravessando o crepúsculo
que se contemplavam caladas. entre nós o inquietante
zumbir telegráfico do enxame de mosquitos

minha avó era famosa pela sua receita
de champinhons recheados que ela levou junto
ao túmulo. tudo que é bom, dizia ela
precisa ser recheado com pouco mais do que de si mesmo

mais tarde na cozinha levávamos
os champinhons ao ouvido e partíamos o cabo
esperando o ruído suave do seu quebrar lá dentro
na procura da combinação certa



champignons


wir trafen sie im wald auf einer lichtung:

zwei expeditionen durch die dämmerung
die sich stumm betrachteten. zwischen uns nervös
das telegraphensummen des stechmückenschwarms.

meine großmutter war berühmt für ihr rezept
der champignons farcis. sie schloß es in
ihr grab. alles was gut ist, sagte sie,
füllt man mit wenig mehr als mit sich selbst.

später in der küche hielten wir
die pilze ans ohr und drehten an den stielen –
wartend auf das leise knacken im innern,
suchend nach der richtigen kombination.

 

 

minhocas


naquele verão o solo estava rachado
e seco ali, com fio elétrico e arames
no chão criávamos um falso tempo
para atrair as minhocas, impelir qualquer
hermafrodita ao brilho do gancho. anos depois

vejo no céu a passagem de suas sombras, gigantescas
nas nuvens escuras, apresentando-me o mundo
como um quadrado frio diante da janela. espero a batida
na minha porta e diante do vidro cai e cai
a chuva. desconfio de cada gota


 


regenwürmer


in jenem sommer lag die erde rissig
und trocken da. mit wechselstrom und drähten
im boden schufen wir ein falsches wetter,
die würmer anzulocken, jene zwitter
an blanke haken auszuliefern. jahre später
seh ich am himmel ihre schatten ziehen, riesig,
in dunklen wolken, präsentiert sich mir die welt
vorm fenster als kaltes quadrat. ich warte auf das klopfen
an meiner tür und vor der scheibe fällt und fällt
der regen. ich mißtraue jedem tropfen.



jardim botânico



as palavras pesando em ti
casais silenciosos vagando para lá e para cá
o gélido brotando das cercas de ferro forjado
a luz aristocrática pálida como cera
avistei no alto do morro os vidros da estufa
suas costelas brancas, fin de siècle,
e logo pensei naquele esqueleto de baleia
para o qual se vira a cabeça quando criança
no museu, preso nos cabos invisíveis,
parecendo flutuar, suspenso,
nesses monstros alagados, encalhados
saídos das remotas profundezas insondáveis da encosta
sufocados com o seu próprio peso


 


botanischer garten

 

dabei, die worte an dich abzuwägen –

die paare schweigend auf geharkten wegen,
die beete laubbedeckt, die bäume kahl,
der zäune blüten schmiedeeisern kühl,
das licht aristokratisch fahl wie wachs –
sah ich am hügel gläsern das gewächs-
haus, seine weißen rippen, fin de siècle,
und dachte prompt an jene walskelette,
für die man sich als kind den hals verdrehte
in den museen, an unsichtbaren drähten,
daß sie zu schweben schienen, aufgehängt,
an jene ungetüme, zugeschwemmt
aus urzeittiefen einem küstenstrich,
erstickt an ihrem eigenen gewicht.


o ocidente


o rio imagina peixes. o que foi aquilo

que o sargento henley lhe arrancou logo
de início, os olhos amarelos e hirtos, os bigodes
dois colchetes à volta do focinho cinza
que fazem até o cão gemer?

a velocidade da correnteza e a sua relutante
gramática, que nos segue em direção à fonte.
as montanhas sedentas ao longe,
a planície de grama e aqui e ali
um nativo, que se diverte
em nos observar e depois
desaparece na floresta. registramos tudo
no velho mapa de adam, classificando
espécies e atitudes. a febre nos músculos
e durante semanas manter-se com a dieta de raízes
e a confiança em deus. debaixo da camisa os carrapatos
dando alfinetadas na pele: assim captamos
a dimensão do selvagem em nós.

estranho sentimento: ser
a fronteira, o ponto, no qual se finda e
começa. ao redor do fogo, à noite, nosso sangue circulando
sob as nuvens de mosquitos
enquanto costuramos com espinhas duras
os couros, dos sapatos
para o nosso destino e das cobertas para os sonhos.
adiante o inatingível, atrás de nós
as aldeias dispersas, suas escrituras
de cercas e portões, atrás de nós
os transportes dos comerciantes,
as grandes cidades, cheias de ruídos e futuro.

 


der westen


der fluß denkt in fischen. was war es also,

das sergeant henley ihm als erster 
entriß, die augen gelb und starr, die barteln
zwei schürhaken ums aschengraue maul,
das selbst die hunde winseln ließ?

die stromschnellen und ihre tobende
grammatik, der wir richtung quelle folgen.
die dunstgebirge in der ferne,
die ebenen aus gras und ab und zu
ein eingeborener, der amüsiert 
zu uns herüberschaut und dann 
im wald verschwindet: all das tragen wir
in adams alte karte ein, benennen
arten und taten. fieber in den muskeln 
und über wochen die diät aus wurzeln
und gottvertrauen. unterm hemd die zecken
wie abstecknadeln auf der haut: so nimmt
die wildnis maß an uns.

seltsames gefühl: die grenze 
zu sein, der punkt, an dem es endet und
beginnt. am feuer nachts kreist unser blut 
in wolken von moskitos über uns, 
während wir mit harten gräten
die felle aneinander nähen, schuhe 
für unser ziel und decken für die träume.
voraus das unberührte, hinter uns
die schwärmenden siedler, ihre charta 
aus zäunen und gattern; hinter uns
die planwagen der händler,
die großen städte, voller lärm und zukunft.




hamburgo - berlim


o trem freia no meio do trajeto. lá fora alguém deixou
de virar a manivela: a região encontra-se inerte
como um quadro diante do terceiro golpe do leiloeiro

uma cidadezinha de costas para o dia. as árvores agrupadas
com capuz escuro. campos retangulares
as cartas de um enorme jogo solitare

ao longe dois moinhos eólicos planejam
uma sondagem no céu:
deus suspende a respiração.


 


hamburg - berlin


 der zug hielt mitten auf der strecke. draußen hörte
 man auf an der kurbel zu drehen: das land lag still
 wie ein bild vorm dritten schlag des auktionators.

 ein dorf mit dem rücken zum tag. in gruppen die bäume
 mit dunklen kapuzen. rechteckige felder,
 die karten eines riesigen solitairespiels.
 
 in der ferne nahmen zwei windräder
 eine probebohrung im himmel vor:
 gott hielt den atem an.


 


elegia à cidadezinha


as caravanas das sombras, todas as manhãs
o seu alvorecer, e as lavanderias automáticas,
que sempre despertam de um sono limpo

e no caminhão de entrega balançam
as metades do porco entre sim e não
nas tílias crescem corações. e não cabe

mais do que uma folha de papel entre mim e o mundo.
e nos jardins, atrás das moitas
os cortadores de grama anunciam maio



kleinstadtelegie

 
 die schattenkarawane, jeden morgen
 ihr aufbruch, und die waschanlage,
 die stets aus einem reinen schlaf erwachte.


 und in den lieferwagen pendelten
 die schweinehälften zwischen ja und nein,
 den linden wuchsen herzen. und es paßte


 nicht mehr als ein blatt papier zwischen mich und die welt.
 und in den gärten, hinter allen hecken
 verkündeten die rasenmäher den mai.




bar na província


atrás do balcão em frente à porta
a fotografia emoldurada do time de futebol
heróis sorrindo, que não deixam perceber
os pregos enferrujando nas costas de suas camisas


 


gaststuben in der provinz


hinter dem tresen gegenüber der tür
das eingerahmte foto der fußballmannschaft:
lächelnde helden, die sich die rostenden nägel
im rücken ihrer trikots nicht anmerken lassen.



 

Jan Wagner nasceu em 1971 em Hamburgo e vive em Berlim. É poeta e tradutor de literatura anglo-americana. Ganhou vários prêmios no gênero poesia entre eles o prestigiado Prêmio Friedrich Hölderlin.



Viviane de Santana Paulo, paulistana,  é autora dos livros Passeio ao Longo do Reno (2002) e Estrangeiro de Mim (2005), publicados pela editora alemã Gardez! Verlag. Participa das antologias Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007); e Roteiro de Poesia da Brasileira - Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009). Publicou poemas em revistas e jornais literários brasileiros e latino-americanos.

 

 

[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 9 - teresina - piauí - abril maio junho de 2011]

  
 
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