O TORMENTO DE LÁZARO

JOSÉ ELIAS

Água.
Fria demais.
Escura demais.
O corpo entra antes da decisão. Um passo em falso. O chão some. O peso puxa. O mundo vira baixo e cima ao mesmo tempo. O choque corta o fôlego.
Braços se agitam. Errados. Rápidos demais. A água entra na boca. Amarga. Dura.
Ele tenta subir. Não sobe.
As pernas chutam o vazio. Os braços batem em algo que não cede. Pedra? Madeira? Não importa. O ar não vem. O peito queima. Queima rápido demais. Não.
O pensamento não termina.
O corpo entra em pânico antes da mente entender. Ele se debate, gira, perde a noção de onde está a superfície. Tudo é peso. Tudo empurra para baixo. A água invade os ouvidos, os olhos, o nariz.
Ele tenta gritar. A boca abre.
A água entra.
O som morre ali.

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A ESCRITA E O SER

HERASMO BRAGA

No âmbito do tempo histórico, o cultivo e desenvolvimento da interação humana através da oralidade é muito maior quando comparado ao da escrita. Muitas tradições e concepções culturais continuam a ser transmitidas em maior número pelos percursos da oralidade, mesmo com toda relevância que a escrita ganhou nos últimos tempos na história humana. Em meio a essa maior compatibilização mediada pela linguagem oral, a escrita, por sua vez, realiza uma interface mais aprofundada dos indivíduos no âmago do seu ser.

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“SOBRE RILKE E COMO SE FAZ UMA POESIA”

ALBÉRIS ERON FLÁVIO DE OLIVEIRA

Demorei um pouco para pôr no papel o que eu queria desta vez. Pensando, só queria uma forma de começar. Tempo inquieto, eu inquieto.

O tempo não é uma coisa que podemos pegar com as mãos. Parece que ele passa por dentro de nós e, às vezes, rápido demais.

Pois bem. Encontrei um livro que havia comprado há alguns anos que, de algum modo, me fez escrever hoje pela manhã: “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke.

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TUDO É FALSO, MENOS A ARTE

HENRIQUE DUARTE NETO

Ricardo Lima brinda-nos com novo lançamento (Tudo é falso, Ateliê Editorial, 2025). Ele que é um dos poetas mais parcimoniosos e regulares que conheço no quesito publicação. Oito livros de poesia desde 1994. Nem pouco, nem muito. Publiquei há dez anos, um livrinho (As múltiplas faces do tempo na poesia de Ricardo Lima, Insular, 2016) de pouco mais de 100 páginas sobre o arco que vai de Primeiro segundo, seu opúsculo de estreia, até o sexto, Desconhecer, lançado em 2015. O mote dessa reunião era a questão do tempo e a intuição de que na verdade estava diante de um poeta que dilui a realidade, quase que da maneira dos surrealistas. Cheguei mesmo a sugerir um neossurrealismo do poeta, coisa que, passado um decênio, em virtude principalmente dos dois livros que saíram depois e mesmo em relação à própria mudança de interpretação minha do pequeno universo trabalhado, não faria mais.

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ÉDIPO, HAMLET E EU

ANDRÉ HENRIQUE M. V. DE OLIVEIRA

Se a tese de Freud está correta, a crença em homens “superiores”, isto é, em semideuses e heróis míticos, se assenta no inconsciente e remonta à desejos infantis; logo, remonta também a conflitos surgidos na relação com os pais, sobretudo especificamente com a figura paterna. Esta seria a razão de os mitos serem atemporais e de estarem presentes em todas as épocas e culturas.

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EXPURGO

ADRIANO ESPÍNDOLA SANTOS

Não paro de pensar no infortúnio de ser eu. Logo eu fui nascer em mim. Uma junção de pouco com quase nada. Uma imperfeição convencida da bizarrice. Nenhum jeito para escapar das trapaças do destino. Logo eu fui nascer assim, com tão pouca vontade de fazer diferente, com tão pouca vontade de viver. Com tão pouca vontade de ser feliz. Se bem que a felicidade é algo subjetivo, que nunca existiu em mim. Quando nasci, logo fui exposto à adoção, abandonado na porta de um orfanato, no centro de Salvador. Minha mãe largou, como qualquer coisa inútil, uma carta com profundo desgosto, dizendo que “o menino é muito doente, deve ter alguma anormalidade”.

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“SIM, TALVEZ VOCÊ POSSA ENTENDER”

Um estudo comparatista entre Do fundo do poço se vê a lua (2010) e Barreira (2014)

BIANCA PATRÍCIA DE MEDEIROS NASCIMENTO

 

Resumo

Este artigo propõe uma análise literária comparatista entre Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron (2010), e Barreira, de Amílcar Bettega (2014). Para tanto, comparamos os narradores dos romances e os seus encontros culturais com o Oriente (especificamente, com o Egito e a Turquia) a fim de perceber a postura dos narradores quando diante desses espaços. Como aporte teórico, mobilizamos a teoria de Gérard Genette (2015) sobre o discurso narrativo; Carlos Guillén (1985) e Edgar Nolasco (2010) dão as bases para uma literatura comparada interdisciplinar. Edward Said (2007) e Homi Bhabha (1998), bem como Roy Wagner (2010) e Terry Eagleton (2011), sustentam nossas leituras sobre alteridade, cultura e colonialismo. A partir desse quadro teórico, buscamos compreender como as narrativas tensionam as representações do Oriente, problematizam identidades e evidenciam o papel do duplo na construção de experiências interculturais. Assim, propomos uma leitura que, ao mesmo tempo em que observa a complexidade formal das obras, discute suas implicações no campo dos estudos literários latino-americanos contemporâneos e nas representações culturais globais.

Palavras-chave: Do fundo do poço se vê a lua; Barreira; Alteridade; Duplo.

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O NADADOR E O ABSURDO

WANDERSON LIMA

Publicado em 1984, Balada do nadador do infinito ocupa um lugar singular na trajetória literária de Álvaro Pacheco, marcando um ponto de inflexão formal em sua produção, na medida em que abandona a lógica da coletânea de poemas autônomos para assumir deliberadamente a forma de um único poema extenso, de estrutura quase narrativa, cujo movimento lembra mais o de uma partitura sinfônica do que o de um livro lírico tradicional. Trata-se, com efeito, de um poema de fôlego, organizado por variações sucessivas em torno de um mesmo núcleo temático – inspirado, como se sabe, num episódio real de suicídio noticiado em 1983 –, mas que, ao se desdobrar, vai progressivamente deslocando o foco do acontecimento em si para uma investigação mais ampla e difusa sobre a condição humana, suas perplexidades, seus impasses e suas zonas de silêncio.

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A INTERDISCIPLINARIDADE AJUDANDO A HISTORIOGRAFIA

CARLOS AUGUSTO COSTA DE SOUZA

RESUMO

Pretende-se aqui propor uma reflexão sobre a interação do historiador, não somente com seus pares, como também com uma gama de atores que participam do processo de análise histórica, e que em muitos casos, não mantém qualquer tipo de vínculo acadêmico com a Historiografia. Com este propósito, apresenta-se um livro como apoio ao material didático. Neste contexto, surge a questão sobre a legitimidade, ou não, da intervenção desses interlocutores nos debates historiográficos, uma vez que, não raramente, tais intervenções trazem informações distorcidas, equivocadas e, em alguns casos, maliciosamente manipuladas.

Palavras-chave: Interdisciplinaridade; Liberdade; Literatura; Criatividade; Ensino.

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O SOM COMO LINGUAGEM

Convergências entre o filme Psicose (1960) e a poética do cordel

LAIANE LIMA FREITAS

O som ocupa papel central na construção da linguagem cinematográfica e na experiência estética do espectador. Desde os primórdios do cinema, mesmo antes do advento do chamado “cinema falado”, a música e os efeitos sonoros já se faziam presentes como recursos fundamentais para intensificar emoções, criar atmosferas e orientar a recepção das imagens em movimento. A articulação entre a banda sonora, composta por música, ruídos e voz, e a banda visual constitui um sistema semiótico complexo, em que cada elemento contribui para a elaboração de sentidos. No caso de gêneros como o suspense e o terror, o som se revela determinante, seja no grito que ecoa como expressão máxima do medo, seja nos silêncios que instauram tensão e expectativa.

Ao mesmo tempo, a literatura de cordel, em sua tradição poética e oral, compartilha com o cinema a centralidade do som. Seja pela métrica, pela musicalidade dos versos ou pela performance da declamação, o cordel evidencia como a palavra escrita preserva a dimensão acústica da poesia. Assim como a trilha sonora intensifica o efeito das imagens no cinema, os recursos fônicos e rítmicos potencializam o efeito da narrativa popular.

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