A ESCRITA E O SER

HERASMO BRAGA

No âmbito do tempo histórico, o cultivo e desenvolvimento da interação humana através da oralidade é muito maior quando comparado ao da escrita. Muitas tradições e concepções culturais continuam a ser transmitidas em maior número pelos percursos da oralidade, mesmo com toda relevância que a escrita ganhou nos últimos tempos na história humana. Em meio a essa maior compatibilização mediada pela linguagem oral, a escrita, por sua vez, realiza uma interface mais aprofundada dos indivíduos no âmago do seu ser.

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“SOBRE RILKE E COMO SE FAZ UMA POESIA”

ALBÉRIS ERON FLÁVIO DE OLIVEIRA

Demorei um pouco para pôr no papel o que eu queria desta vez. Pensando, só queria uma forma de começar. Tempo inquieto, eu inquieto.

O tempo não é uma coisa que podemos pegar com as mãos. Parece que ele passa por dentro de nós e, às vezes, rápido demais.

Pois bem. Encontrei um livro que havia comprado há alguns anos que, de algum modo, me fez escrever hoje pela manhã: “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke.

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ÉDIPO, HAMLET E EU

ANDRÉ HENRIQUE M. V. DE OLIVEIRA

Se a tese de Freud está correta, a crença em homens “superiores”, isto é, em semideuses e heróis míticos, se assenta no inconsciente e remonta à desejos infantis; logo, remonta também a conflitos surgidos na relação com os pais, sobretudo especificamente com a figura paterna. Esta seria a razão de os mitos serem atemporais e de estarem presentes em todas as épocas e culturas.

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O NADADOR E O ABSURDO

WANDERSON LIMA

Publicado em 1984, Balada do nadador do infinito ocupa um lugar singular na trajetória literária de Álvaro Pacheco, marcando um ponto de inflexão formal em sua produção, na medida em que abandona a lógica da coletânea de poemas autônomos para assumir deliberadamente a forma de um único poema extenso, de estrutura quase narrativa, cujo movimento lembra mais o de uma partitura sinfônica do que o de um livro lírico tradicional. Trata-se, com efeito, de um poema de fôlego, organizado por variações sucessivas em torno de um mesmo núcleo temático – inspirado, como se sabe, num episódio real de suicídio noticiado em 1983 –, mas que, ao se desdobrar, vai progressivamente deslocando o foco do acontecimento em si para uma investigação mais ampla e difusa sobre a condição humana, suas perplexidades, seus impasses e suas zonas de silêncio.

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O SOM COMO LINGUAGEM

Convergências entre o filme Psicose (1960) e a poética do cordel

LAIANE LIMA FREITAS

O som ocupa papel central na construção da linguagem cinematográfica e na experiência estética do espectador. Desde os primórdios do cinema, mesmo antes do advento do chamado “cinema falado”, a música e os efeitos sonoros já se faziam presentes como recursos fundamentais para intensificar emoções, criar atmosferas e orientar a recepção das imagens em movimento. A articulação entre a banda sonora, composta por música, ruídos e voz, e a banda visual constitui um sistema semiótico complexo, em que cada elemento contribui para a elaboração de sentidos. No caso de gêneros como o suspense e o terror, o som se revela determinante, seja no grito que ecoa como expressão máxima do medo, seja nos silêncios que instauram tensão e expectativa.

Ao mesmo tempo, a literatura de cordel, em sua tradição poética e oral, compartilha com o cinema a centralidade do som. Seja pela métrica, pela musicalidade dos versos ou pela performance da declamação, o cordel evidencia como a palavra escrita preserva a dimensão acústica da poesia. Assim como a trilha sonora intensifica o efeito das imagens no cinema, os recursos fônicos e rítmicos potencializam o efeito da narrativa popular.

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DAS FERIDAS NARCÍSICAS EM “ELES ERAM MUITOS CAVALOS”

LUCAS NEIVA DA SILVA

Do espanto nasce a mestiçagem entre poesia e filosofia. Isso é discutido por Pucheu em Escritos da admiração, quando o poeta afirma que ambas se aproximam não tanto pela via da interrogação, da dúvida, mas pela via da exclamação. Da “exclamação das palavras que insistem em transbordar com o admirável” se materializa uma poesia-pensamento. Consequentemente, essa “miscigenação conduz da apatia ao páthos do admirável, do aético ao éthos do espanto”.

Pois bem. Nessa perspectiva, é possível pensar que o espanto que emerge da e na literatura possui um potencial filosófico. O acontecimento espantoso – ou, em um neologismo imperfeito, evento espantático, em analogia ao evento traumático da psicanálise – funciona como uma zona de indiscernibilidade e transdisciplinaridade entre o poético e o filosófico, na ordem do “o quê?” para o primeiro, e do “como?” para o último.

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